Sou crente, aleluia, e o Egito é a Bahia

Nelson Oliveira, no Vice

Há mais de 30 anos, algumas colinas de Salvador começaram a ganhar um movimento curioso. As dunas de bairros praianos como Itapuã e Stella Maris começaram a ser ocupadas por pessoas que vestiam muito mais que um sumário traje de banho. Mortalhas e longas saias, no caso das mulheres, e trajes sociais, às vezes com direito a terno, para os homens. As dunas de Salvador se tornaram um oratório a céu aberto para muitos evangélicos.

Houve um tempo em que falar de Egito na Bahia era coisa de música de carnaval composta por Carlinhos Brown. Hoje, artigo vintage no Circuito Barra-Ondina, a busca pelos mistérios egípcios é dos protestantes, que veem as dunas como uma metáfora para o Monte Sinai, local em que Moisés viu um arbusto em chamas que falava, recebeu de Deus as palavras dos Dez Mandamentos e toda aquela psicodelia.

Mesmo longe de possuir os 2288 metros de altura do monte histórico, as dunas de Salvador viraram um verdadeiro local de peregrinação de grupos de crentes – desculpa, mas eles mesmos se chamam assim, então nem vem procurar confusão, valeu? – nos últimos anos. Os frequentadores aparecem em qualquer horário do dia, mas, sobretudo à noite. Eles gostam de ir ao local porque se sentem mais próximos de Deus. Estar no topo das dunas remete a um momento de paz de espírito, reflexão e deslocamento da realidade. Afinal, Deus é uma viagem.

Antes, a prática era individual e agora se organizou: grupos de igrejas de regiões muito distantes das dunas e até mesmo de outras cidades baianas fretam micro-ônibus para realizarem cultos no local, que é considerado perigoso por ser ermo e não possuir qualquer iluminação. Nas sextas-feiras, as dunas chegam a receber mais de 200 crentes orando em voz alta, em português ou na chamada “língua dos anjos”, com direito a pastores realizando conversões e exorcismos. Outros, que geralmente vão sozinhos, ficam compenetrados, de quatro e com a cabeça na areia, entre os braços, ou queimam papeis com pedidos de graças.

Curioso para saber o que acontecia lá, fui fotografar os momentos de oração nas dunas. Foi divertido. Eu e meu flash acabamos ungidos por um pastor, que, assim como outros religiosos, perceberam as luzes do equipamento, mas não se deram conta inicialmente que estavam sendo fotografados. Outro grupo, mas atento, foi direto: “Vamos fazer uma foto, gente. Vai para os Estados Unidos. Vai para o Facebook!”. Bom, de alguma forma, sim.

dica do João Marcos

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Conversamos com o ‘Tiozinho do Apocalipse’ para saber se o mundo acabará daqui a um mês


E agora, será que Danilo está certo e daqui um mês o mundo acaba?

Taiz Dering, no Virgula

Se você anda pela avenida Paulista, em São Paulo, provavelmente já viu, ali no vão do MASP, uma figura que ficou conhecida como o “Tiozinho do Apocalipse”. O Virgula Inacreditávelparou para conversar com ele e saber um pouco mais sobre o fim do mundo, que, segundo ele, vem mesmo no dia 21 de dezembro.

Danilo de Matos é o nome dele. Nascido em São Paulo e hoje com 49 anos, ele foi motorista de executivos, mas largou o trabalho com carteira assinada no ano passado para “conscientizar as pessoas sobre o que acontecerá, para que elas se preparem e possam passar pelas transformações da melhor forma possível”.

Casado e pai de três filhos (4, 8 e 11 anos), Danilo já expunha seus cartazes e distribuía os panfletos com explicações sobre o “fim do mundo” antes de deixar o emprego, embaixo de uma ponte no bairro da Lapa, há três anos. Desde janeiro deste ano, porém, às segundas, quartas e sextas, das 8h às 18h ele bate ponto na avenida Paulista, fazendo o mesmo trabalho de divulgação do apocalipse – que chama a atenção de muitos, mas é ignorado por milhares.

“Quando era motorista, tinha muito tempo livre esperando dentro do carro. Ficava lendo jornais, livros, revistas, a bíblia, a internet. Foi assim que meus estudos começaram. Minha esposa me deu uma bíblia de presente e eu comecei a ler e pesquisar assuntos como astrologia, astrofísica, cosmologia, física quântica, etc, para entender melhor”, explica.

Segundo ele, a “revelação” veio por meio da leitura e estudo das profecias de Nostra Damus, além dos povos Maias, Incas e Astecas e do “livro sagrado”. “Foi uma revelação que eu tive. Ao conferir a estrutura de cada planeta, consegui detectar, dentro do livro do Apocalipse, o que é a proposta de Deus. Segundo esse parecer, a vinda dos seres humanos à Terra tem um propósito racional, que nos leva à vida eterna, em outra dimensão, na nossa verdadeira casa”, diz.

Para ele, o fim do mundo como conhecemos acontecerá, de fato, no dia 21 de dezembro – mais exatamente na madrugada do dia 21, no Japão, e na tarde do dia 20, no Brasil -, conforme a profecia Maia. “Vênus explodirá e empurrará Mercúrio para dentro do Sol. A Terra será afastada do Sol, porque ficará muito calor aqui. A radiação cósmica, resultante desses impactos, pode produzir um novo elemento radiativo, que vai modificar a estrutura dos seres humanos, transformando-os em pedra viva e água viva, o que nos deixará imortais”, constata.

Ele profetiza mais: a Terra ficará imersa em uma escuridão, que durará 150 dias. Neste período todos os seres humanos que sobreviverem sofrerão muito até serem resgatados por naves espaciais, que levarão os sobreviventes para a outra dimensão, onde a vida, enfim, começará de verdade…

Ele dá dicas para quem quiser se safar: “é importante estarmos em locais altos, pois haverá uma grande onda inundando as cidades, e fazermos um estoque de mantimentos como azeite, mel e sardinha em lata, que ajudarão a enxergar em meio a escuridão”, ensina. Ele faz seu próprio estoque de comida há dois anos e diz mora “próximo às montanhas”.

Além de citar filmes como Avatar, Matrix e até o guarda-roupa de Crônicas de Nárnia para explicar como funciona o nosso mundo, Danilo afirma que o preparo psicológico é o mais importante para a sobrevivência. “Você sabendo o que vai acontecer e como vai acontecer, pode tomar suas precauções. Estar perto das pessoas que você ama será fundamental, pois a comunicação da Terra será cortada e não teremos notícias dos que estão longe. Estando perto, o pânico será menor”, dá a dica.

Danilo diz que não está nesta função para ganhar dinheiro (nem teria como, né?), já que tem renda própria e consegue garantir seu sustento por mais um ano (algo controverso). Ele conta que, na Paulista, muitos param, conversam, outros tiram sarro e alguns até já tentaram exorcizá-lo. Mas ele segue confiante de que seu alerta pode servir para orientar e tranquilizar as pessoas. “Minha finalidade é avisar aos irmãos que é hora de voltar para casa”.

Para aqueles que já pensam em sair gastando no cartão de crédito a rodo por conta do fim do mundo, um esclarecimento. Segundo o Prof. Dr. Samuel Rocha de Oliveira, do Depto. de Matemática Aplicada da Unicamp, nenhum evento astronômico como o esperado por Danilo está programado para a data. “Trata-se apenas de um final de calendário Maia, assim como são todos os dias 31 de dezembro para o calendário que usamos”, garante. Portanto, parece que o fim não está tão próximo quanto pensa o nosso profeta da avenida Paulista.

foto: Gabriel Quintão

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