‘Como é possível, na era da felicidade, não ficar doente de tristeza?

Para analista, redes sociais impulsionam busca pela perfeição – mas há saída: “Ninguém está propriamente bem. E nunca foi problema não estar feliz o tempo todo”.

foto: Paulo Giandalia/Estadão
foto: Paulo Giandalia/Estadão

Marilia Neustein, no Estadão

Para a psicanalista Maria Lucia Homem, o interesse em assuntos do universo da psicanálise é cada vez maior. E há uma razão clara para isso. O ser humano, diz, está mais aberto a se descobrir e enfrentar seus sofrimentos: “As pessoas fazem análise e não acham que são loucas por causa disso. Isso é uma revolução. O sujeito contemporâneo sabe onde buscar ferramentas para se perguntar o que é a depressão, o que é a loucura, a violência, o racismo, a guerra”.

Segundo a analista lacaniana, formada pela USP e com especialização no Collège International de Philosophie da Universidade de Paris 8, as redes sociais contribuem para que vivamos em uma espécie de Show de Truman – em escala planetária. “Trata-se de um grande circo contínuo, divertido, engraçado e feliz, um delírio. Isso tem um custo. A clínica mostra isso claramente”, diz a professora da Faap – que ministra curso, dia 16, sobre cinema e psicanálise na Casa do Saber. Para ela, a psicanálise ajuda nesse processo porque atua no “backstage” e dá espaço para que os pacientes possam… falar. “Falar transforma uma pessoa. Simples assim.”

Abaixo, os principais trechos da conversa com a coluna, na casa de Maria Lucia, no bairro paulistano da Lapa.

Existe uma curiosidade por temas da psicanálise. Andrew Solomon foi aplaudido de pé na Flip e o suicídio de Robin Willians, amplamente debatidos nas redes sociais. Há um crescimento e uma popularização desse interesse?
Sem sombra de dúvidas. Freud foi uma figura importantíssima para fazer uma espécie de divulgação de uma outra concepção de subjetividade. Hoje, qualquer pessoa, em muitos meios, conhece a palavra “inconsciente”. E também termos como “ego”, “superego”, “ato falho”, “recalque”. São palavras que já estão em pleno uso. Então, nós podemos dizer que, inconscientemente, somos todos freudianos. Já estamos há cem anos sensíveis a nos observarmos de um ponto de vista mais sofisticado e menos ingênuo.

Como assim?
Já não achamos que existem forças transcendentais que guiam as nossas cabeças – isso, claro, dentro de uma massa ocidental e intelectualizada. As pessoas fazem análise e não acham que são loucas por causa disso. Isso é uma revolução. O sujeito contemporâneo vem com essa bagagem, ele sabe exatamente onde buscar ferramentas para fazer perguntas a si próprio. Esse interesse é crescente. As pessoas se perguntam: o que é a depressão, o que é a loucura, a violência, o racismo, a guerra?

E como a psicanálise ajuda nesse entendimento?
A psicanálise é uma ferramenta gigantesca, uma lupa. É como se a gente descobrisse uma espécie de microscópio da alma. Para mim, isso é pedagógico. Triste, mas, ao mesmo tempo maravilhoso.

Percebe isso no consultório?
Lógico. Um dos grandes problemas da clínica contemporânea é uma “psicologização” dos pacientes. Eles já chegam dizendo: Eu tenho um trauma de infância” ou: “Eu tenho histórico de abandono”. O paciente chega com uma etiqueta. E aí você precisa desmontar isso para começar o processo analítico real. É muito comum escutar “sou depressivo”. E, na verdade, nós, profissionais, sabemos muito mais do que esse senso comum a respeito da depressão.

O que, por exemplo?
Tem um texto que eu gosto da Elisabeth Roudinesco (historiadora e psicanalista francesa) que explica como a lógica da nossa sociedade é depressiva, ou é – para ser mais precisa – “depressivante”. Não tem como – em uma cultura pautada pelo ideal da felicidade – não existir infelicidade. Vivemos na era do imperativo, do “be cool”, “be happy”. As pessoas têm de estar sempre se divertindo, viajando, na distração, no delírio, no bliss. Mas a própria definição do momento de êxtase é aquilo que é raro – e as pessoas transformam isso em algo necessário. Existe uma inversão muito clara. Queremos tornar o impossível possível. E nos frustramos por nos sentirmos fracassados perante esse ideal.

Que ideal é esse?
Sei lá, meu primeiro milhão, minha casa, meu casal lindo de filhos. Então, a clínica nos mostra que existe um gap entre o que a pessoa é e o que ela acha que tem de ser; como ela acha que deveria estar se sentindo e como o outro espera que ela seja. As coisas ficam embaralhadas e o resultado é que se sofre muito. Esta é uma das razões que fazem com que as pessoas tenham mais interesse a respeito desses assuntos. Porque ninguém está propriamente bem. E nunca foi problema não estar feliz o tempo todo.

Isso é um problema do nosso momento histórico?
Com certeza. Não que a gente não tenha tido ideais desde sempre. Sempre houve melancolia – isso é retratado pelos gregos. Mas uma coisa é retratar a melancolia como quadro possível, outra coisa é colocar a felicidade, o prazer e o entretenimento como obrigações contínuas. Todas as estatísticas mostram que estamos em uma epidemia de sintomas mentais em que depressão, pânico e transtornos alimentares são a ponta de lança. Como não estar doente de tristeza na era da felicidade? Como não estar doente de desemparo, de medo, de pânico quando todas as redes de amparo estão esgarçadas? O individualismo mata os elos comunitários. É um paradigma que não tem como não jogar o sujeito no desamparo. Os iguais são seus concorrentes e você tem de se destacar. Então, como é possível não ter medo? Como o pânico, a fobia, a fragilidade não vão ser os sintomas básicos de um era que só prega o ideal de força, potência e vitória? E como não ter transtorno ou distúrbios com o corpo e com a imagem que se tem de si em um universo que dita o tempo todo o corpo que você deve ter: jovem, magro e belo?

As pessoas querem mandar uma no corpo da outra?
Sim, e isso é muito autoritário. Quer maior autoritarismo do que o conceito de “humanos, não envelheçam” – sobretudo mulheres? Vivemos em uma cultura que diz “tempo, não passe”. Ora, isso é impossível. Então, estamos numa luta inglória, dando murro em ponta de faca com grandes preceitos da vida. Como não sofrer? Como não ter uma forma de defesa psíquica com isso tudo?

E você acha que o amor e o casamento também sofrem com essa ‘superidealização’?
Claro. É interessante analisar as estatísticas do momento, mas cerca de metade das relações termina em divórcio. As pessoas mais se desencontram do que se encontram. E ao se encontrarem – aquele encontro real mesmo, quando ‘bate o santo’, tem química, identificação do inconsciente – não é tão óbvio, é mais raro, é quando você está muito à vontade com alguém e quer dar o seu melhor. Ainda assim, quando há tudo isso, é muito difícil manter essa sensação. Porque você também está operando em um real “hiperfetichizado” do que seria o amor, o casamento, o casal, o comercial de margarina. Exigimos muito do outro – o mesmo tanto que exigimos de nós mesmos. Entretanto, os afetos, no meio disso, pulsam – graças a Deus. E é justamente porque eles pulsam que a gente acaba sofrendo. O afeto não mente.
Mas há, hoje em dia, um resgate dos casamentos mais tradicionais, com cerimônias religiosas. Isso é um aspecto interessante. Eu vejo que os rituais simbólicos têm uma importância, mantiveram um valor simbólico, o peso da tradição – para usar uma expressão clichê. Aquilo que sempre foi feito carrega um peso simbólico que pode ser interessante.

Como assim?

Para além dessa leitura meio superficial de que vivemos em um momento de “caretização” global. Acho que é mais complexo do que isso. Eu ousaria colocar lenha na fogueira e dizer que a gente pode olhar para trás e se perguntar: o que posso aprender com quem viveu antes de mim? Enterramos os mortos, alguma sabedoria isso deve ter. É útil? A rigor não sei se é. Mas talvez a gente precise desse ritual simbólico para elaborar a perda, a nossa própria consciência enquanto seres mortais. Então, eu quero acreditar que esse retorno pode ter alguma sabedoria. “Ritualizar” as uniões ou os pactos pode ter alguma força, mas isso é a leitura mais interessante que eu poderia fazer do fenômeno. Entretanto, há um rebote.

Qual?
A gente não faz essa ritualização, por exemplo, do casamento ou dos aniversários das crianças só como uma forma de reflexão, de simbolizar as passagens. As pessoas “espetacularizam”, contratam o buffet x, as flores y, o vestido não sei como, transformam tudo em um grande evento, por onde circula muito dinheiro. Depois, vêm a infelicidade e a separação.

Isso tem tudo a ver com as redes sociais?
Sim, acredito que a lógica da rede social é transformar o seu ‘eu’ em várias imagens postadas numa lousa chamada mural (Instagram). Ou em um local chamado linha do tempo (Facebook).

E as pessoas só postam imagens felizes…
Isso anda junto. Quando a gente trabalha com essas formas de apreender o mundo, estamos falando em fazer um Show de Truman (filme protagonizado por Jim Carrey, que descobre que sua vida, na verdade, é um programa de TV) em escala planetária. É um grande circo contínuo, divertido, engraçado e feliz, um delírio. Só que isso tem um custo e a clínica mostra isso. Claramente.

De que forma?
Ouço o avesso disso. A clínica é o backstage desse circo. Um exemplo: as mulheres nem podem mais ter filhos em paz. Tem que pensar qual vai ser a roupa, a foto, a lembrancinha. E o pós-parto é um momento difícil, como o período da amamentação. Aí a pessoa chora quatro meses sem parar, tem depressão pós-parto. Não se pode nem sofrer e nem envelhecer em paz.

E o afeto, onde fica?
É o ponto crucial. Esse é o nosso problema. Por que a psicanálise funciona? Porque falar transforma uma pessoa. Simples assim. E por que isso acontece? Porque a fala, a linguagem e a maneira de se expressar estão ligadas ao afeto. Isso é uma das bases do que Freud cifrou. A psicanálise funciona porque sentimos e falamos. E, se fazemos isso a partir de uma posição apropriada, não tem como não ter uma transformação e caminhar numa direção que te leve a sofrer menos com o que você mesmo causa a você. Quando chega um paciente na análise, normalmente é alguém que já está desconfiado que aquilo que ele sofre tem a ver com ele mesmo. E existe essa vontade de saber o que é isso.

Pode ser que a gente venha a viver melhor?
Sim! E não digo isso de maneira ingênua, mas acho que existe essa possibilidade, mesmo com a nossa cultura não favorecendo isso por si só. /

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Anão grava documentário com câmera escondida para mostrar o preconceito que sofre diariamente

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publicado no Hypeness

Tudo o que é diferente chama a atenção, mas quando se trata de pessoas, é preciso saber o limite da curiosidade. O norte-americano Jonathan Novick tem 22 anos e possui um tipo de nanismo, o que faz com que ele seja muito menor do que qualquer outra pessoa. Sim, ele é um anão. E embora chame a atenção das pessoas no dia a dia, passa por situações que não são nada agradáveis.

Para mostrar como é a vida de um anão, Jonathan Novick, que atualmente mora em Nova York, usou uma pequena câmera acoplada ao corpo, que o permitiu gravar momentos de seu dia e como as pessoas o tratam. No vídeo, é possível ver diversas pessoas o xingando, dando risadas e até mesmo tirando fotos, como se ele fosse algum tipo de aberração.

Além de ter a chance de ver o mundo como alguém que tem nanismo, o vídeo traz palavras tocantes de Novick. “A próxima vez que você encontrar alguém diferente de você, pense sobre como é seu dia a dia. Pense sobre todos os eventos que o levaram até lá e pense sobre seu dia – e sobre qual parte de seu dia você gostaria de estar”.

Dá uma olhada nos registros de Novick no vídeo abaixo:

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Turco Louco lança o Manifesto #AquiJaz

Alberto Hiar, o Turco Louco, e um casal de modelos posam com cruzes do Manifesto #AquiJaz no centro de SP (foto: Raquel Cunha/Folhapress)
Alberto Hiar, o Turco Louco, e um casal de modelos posam com cruzes do Manifesto #AquiJaz no centro de SP (foto: Raquel Cunha/Folhapress)

Publicado por Mônica Bergamo

“Vamos renascer das cinzas”, escreveu o cantor Otto na cruz de madeira do “kit de protesto” que ganhou de Alberto Hiar, o Turco Louco, na noite da segunda-feira passada, em um restaurante japonês da Liberdade, em SP.

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O músico era um dos 20 convidados do dono da Cavalera para o lançamento informal do Manifesto #AquiJaz, que vai estar também na passarela da SPFW amanhã, quando a marca apresenta a coleção Woodstock em Bali.

O músico Otto foi um dos artistas que aderiram ao manifesto #AquiJaz: "Vamos renascer das cinzas", escreveu em sua cruz
O músico Otto foi um dos artistas que aderiram ao manifesto #AquiJaz: “Vamos renascer das cinzas”, escreveu em sua cruz

Por aqui, o Turco Louco tenta com a iniciativa fazer o máximo de gente acreditar que é tempo de mudanças. “Estas cruzes são uma ferramenta para que as pessoas possam se manifestar e dar sinais das angústias e medos que estão atormentando a todos nós brasileiros”, explicou à repórter Eliane Trindade.

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Hiar, que teve quatro mandatos —dois de vereador e dois de deputado estadual—, saiu da política partidária há sete anos. “Desisti. Cansei do discurso solitário”, declarou aos parceiros reunidos à mesa, entre eles Paulo Borges, diretor da SPFW, e os cantores Jairzinho e Max de Castro.

O cantor Jairzinho durante o lançamento do manifesto #AquiJaz, na segunda (24)
O cantor Jairzinho durante o lançamento do manifesto #AquiJaz, na segunda (24)

Em vez de faixas e cartazes, os manifestantes do #AquiJaz vão se expressar em cruzes de madeira branca, distribuídas com uma caneta hidrocor. Cada um é convidado a escrever na sua o que deseja enterrar ou ver nascer.

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“Gosto do simbolismo de morte e renascimento”, diz Otto, que promete “carregar sua cruz” na próxima Virada Cultural. Max de Castro vai enterrar a sua na frente de um banco: “$$$$, Ganância, Revólver, Violência”.

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É essa a ideia. A inspiração de Hiar foram as cruzes que cruzam o seu caminho rumo à praia de São Sebastião, no litoral norte. “Sempre que passo por uma cruz na estrada fico pensando como a pessoa morreu. Foi a imprudência que tirou aquela vida e tantas outras?”

O músico Max de Castro também aderiu ao movimento
O músico Max de Castro também aderiu ao movimento

Numa de suas cruzes plantadas na praça da Sé na quarta-feira, ele pede o fim da impunidade. “O que mais me incomoda é o cara matar para roubar um celular e saber que nada acontece com ele. Tá todo mundo com medo.” (mais…)

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Persona Invisible

Publicado por Murilo Bispo

Estava a caminho da ETEC quando vi os coletores pegando o lixo e jogando no caminhão, algumas pessoas passavam tampavam seus narizes e fingiam não enxergar o que acontecia. Isso infelizmente é muito comum, não só com os coletores mas com muitas outras profissões em que as pessoas ficam praticamente invisíveis para o resto do mundo, na hora em que pensei sobre isso abri meu caderninho no meio da rua e rabisquei a ideia para não perder o time.

Depois busquei mais informações uma boa base conceitual e terminei a execução por coincidência no dia do trabalho (1 de maio), acho que a função do design deve ir além de fazer coisas bonitas para o público, meu papel como designer também deve ser conscientizar e fazer as pessoas pensarem a respeito da forma que levam suas vidas. Optei por utilizar pictogramas, pela linguagem simples e versatilidade.

Conceito:

Na Psicologia Analítica (Jung), é dado o nome de persona à função psíquica relacional voltada ao mundo externo, na busca de adaptação social. Jung usou este termo para mostrar a maneira como uma pessoa adapta-se ao mundo, sua máscara, sua maneira de ser socialmente. Essa máscara é necessária para nos adaptarmos à vida e sobrevivermos em sociedade.

Este projeto é acima de tudo, um manifesto e crítica sobre a má educação de algumas (muitas) pessoas que passam diariamente ao lado destes honrados e dignos profissionais, ignorando-os.

Para aqueles que quando precisam correm para perguntar e pedir, sem nem lembrar de agradecer depois ou para aqueles que não dão bom dia, boa tarde, boa noite, por não achar necessário cumprimentar estes profissionais. Também para aqueles que simplesmente não os enxergam, por ter uma visão limitada de mundo e já estarem condicionados a uma associação cromática entre a cor dos uniformes e a cor dos ambientes em que estão inseridos, automaticamente excluindo-os do seu campo de visão.

Infelizmente, para alguns são personas invisibles.

Pense um pouco como seria se sentir invisível, cheio gente ao seu redor. Algumas pessoas ainda não entenderam que todo trabalho tem o seu valor.

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