Deus não é genocida

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Publicado por Sostenes Lima

Uma boa parte dos cristãos, ancorada numa interpretação ideologizada e equivocada da bíblia, sempre foi simpática, conivente e, em alguns casos, cooperadora com as ações genocidas de Israel, como a que está em curso no momento.

São muitos os cristãos que, sem ativar o menor senso ético, concebem as batalhas de guerra dos hebreus, registradas no Antigo Testamento, em especial nos livros de Josué, Juízes, I e II Samuel, I e II Reis e I e II Crônicas, como sendo ordenadas e sancionadas por Deus. Algumas dessas batalhas, massacres para ser mais preciso, são comumente citadas em sermões, como exemplos do cuidado e provisão de Deus para com aqueles que lhe são fiéis. É muito comum ver pregadores citando as ações militares de Josué (algumas delas com conteúdo claramente impróprio para crianças) sem sentir o menor constrangimento ético.

Invasões e expedições de horror, abertamente genocidas, como as de Josué[1], são normalmente interpretadas, por correntes fundamentalistas, como demonstração do cumprimento da vontade de Deus. Aliás, a ocupação de Canaã como um todo, com a consequente destruição dos povos locais, é vista como o ponto culminante do plano de Deus em instituir para si uma nação: Israel.

Vitórias esmagadoras, com a dizimação de prisioneiros de guerra e civis (em sua maioria mulheres e crianças), são alardeadas por pregadores fundamentalistas como um prêmio que Deus concedia aos hebreus por eles serem o povo escolhido. Triunfos, quando em desvantagem militar, são frequentemente apresentados como exemplos máximos de situações em que Deus pode intervir em favor dos seus escolhidos, providenciando vitórias onde há pouquíssima ou nenhuma possibilidade de acontecer.

Para quem interpreta literalmente a bíblia, a aliança de Deus garantia aos hebreus, caso estivessem em dia com as leis cerimoniais, civis e morais editadas pelo próprio Deus no deserto, sucesso em quaisquer incursões de guerra. Mesmo planos imperialistas eram abonados por Deus.

Falta a muitos cristãos a coragem de fazer uma leitura ética mais radical do Antigo Testamento, levando em conta os princípios defendidos no sermão do monte. Isso implica, certamente, a coragem de instabilizar e, por vezes, devastar algum dogma. Levar o sermão do monte e a mensagem de Jesus às últimas consequências tem efeitos perigosos.

Eu sei que ler as narrativas de guerra do Antigo Testamento a partir de outros pressupostos de éticos, isto é, fora da caixa de conserva da ortodoxia, é opção bastante provocadora. Contudo, penso que, quando amparados por um valor ético superior, não devemos ter medo de enfrentar os dogmas. O princípio ético segundo o qual todo ser humano tem direito à vida sobrepõe qualquer dogma. Então, não me preocupo em tocar no dogma da inerrância e inspiração verbal plena da bíblia. Afinal, busco seguir Jesus, não a bíblia. Ela é para mim o mapa que aponta para o destino, não o destino em si. E, se vista como mapa, a bíblia necessariamente precisa de leitura e interpretação. (mais…)

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Condenados à liberdade e à temporalidade

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Publicado por Sostenes Lima

O presente é o único tempo que temos, mas não é o único tempo que nos constrói. Somos uma síntese de tempo (passado, presente e futuro) que se desenrola agora. É verdade que, em termos físicos, não há outro tempo, senão o presente. Podemos até dizer, aprofundando um pouco mais a questão, que nem mesmo há tempo. O que há é um conceito de tempo, uma interpretação temporal da realidade, que, em si mesma, parece ser atemporal. Contudo, nosso senso de temporalidade é tão forte, que faz com que concebamos tudo a partir da linha do tempo, como se o tempo estivesse realmente incorporado à realidade. Somos no presente, mas o passado e o futuro estão aqui e agora, entremeados em tudo que é e em tudo que somos.

É a nossa capacidade de interpretar o mundo a partir de uma intricada relação entre o que foi (passado), o que é (presente), e o que será (futuro), que nos faz homo temporalis. Segundo o que sabemos até o momento, apenas os humanos têm condições de interpretar a realidade (física e social)[1] sob a ótica da sucessão temporal. Parece que somos o único ens temporalis.

Para a árvore, só existe a árvore tal como ela é, com todas as informações naturais de que ela dispõe, em sua estrutura, no momento. Não há memória da semente; também não há esperança do fruto. A árvore não se interpreta temporalmente. Ela apenas existe.

Nós humanos somos diferentes porque não apenas existimos; nós somos. E ser significa incorporar história. Para mim, a história é uma das grandes metanarrativas humanas, talvez uma das poucas que jamais poderão ruir. O ser humano tem compulsão para significar o tempo. Parece haver em sua ontogênese uma narratio temporis. Somos porque temos história; somos porque há uma narrativa do tempo que nos constrói. Em última instância, só é aquilo que tem história. Não havendo história, não há ser. Há apenas a coisa, não o ente.

Tudo que existe no nosso entorno acaba também se transformando de res (coisa) em ens (ser), porque passa a incorporar as dimensões do tempo. É por isso que para nós uma árvore não é apenas uma árvore. Em potencial, é também uma semente, uma fruta, uma sombra, uma cadeira, um andaime, um cavalete, uma moldura etc. etc. A história transforma a res num ens, na medida em que projeta nela a existência de uma infinidade de seres, transformando-a num conjunto aberto de entidades potenciais, já conhecidas e ainda por conhecer.

Para nós, temporales et historici entes, nada é apenas o que é. Temos consciência de que tudo está sob o efeito da sucessão do tempo. Sabemos que tudo é o que é, porque é o que foi. Também sabemos que tudo será o que será, porque será o que é e o que foi. Esse saber temporal faz parte de nossos esquemas cognitivos mais elementares. Parece ser impossível viver à margem da interpretação do tempo. Estendendo o pensamento de Sartre, eu diria que, além de estarmos condenados à liberdade, também estamos condenados à temporalidade. Somos prisioneiros do tempo.

Se você está pensando que tudo isso não passa de filosofia de botequim, eu confirmo: é mesmo. A consciência do tempo é algo tão espontâneo que nem nos damos conta do quanto o tempo é uma categoria complexa. A maioria de nós só pensa no tempo quando há algum estímulo. Às vezes, só depois de uma conversa de botequim conseguimos nos interrogar: que efeito o tempo exerce sobre mim? Como o passado e o futuro estão orientando o meu presente? Diante da condição de prisioneiros do tempo, nos resta buscar a melhor maneira de viver essa prisão. Podemos transformar nossa consciência do tempo numa porção de sabedoria que nos ajuda a viver melhor. É isso que tenho buscado ultimamente.

***
[1]Será que existe mesmo uma cisão entre mundo natural e social? As epistemologias pós-modernas têm mostrado que a concepção de um mundo externo ao ser humano, passível de ser estudado e compreendido objetivamente, conforme apregoa o paradigma epistemológico moderno, não passa de mito já definitivamente superado. Boaventura de Sousa Santos (210, p. 72), com perspicácia e precisão, nos diz: “não há natureza humana porque toda natureza é humana”. Realmente está cada vez mais difícil aceitar que ser humano e natureza não estejam dentro de uma relação inerentemente intricada.

Contudo, pela complexidade do tema e por estar um pouco foro do foco deste ensaio, deixo essa discussão para outro texto. Por hora, convém assinalar apenas que, logo, logo, estaremos dispostos a admitir que “o mundo, que hoje é natural ou social”, amanhã poderá ser ambos num só, abrindo caminho para uma interpretação do mundo “como um texto, como um jogo, como um palco ou ainda como uma autobiografia” (Sousa Santos, 2010, p. 72), algo no qual o sujeito e objeto estão inextricavelmente fundidos.

Boaventura de Sousa Santos. Um discurso sobre a ciência. 7. ed. São Paulo: Cortez, 2010.

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Anatomia da inveja

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Sostenes Lima, no blog Sostenes Lima

Os vícios estão sempre à espreita da alma querendo lhe consumir. Eles não pedem licença; também não entram pela porta da frente. Eles se intrometem matreiramente na alma por aberturas pouco vigiadas. Uma vez dentro da alma, logo se dirigem para os recantos e porões. Lá se escondem para agir à surdina. De todos os vícios, a inveja é o que mais tem êxito na tarefa de se esconder, de se dissimular. Só podemos nos dar conta de que ela está aninhada na alma se estivermos dispostos a ler suas criptografias. Por exemplo, o incômodo pelo sucesso alheio (especialmente de quem o alcançou legitimamente) é um sinal de que a inveja já pôs seu negócio clandestino a funcionar, abrindo sucursais em diversas vielas e becos da alma.

A inveja é um vício complicado e difícil de ser combatido. Só quando dissecamos sua estrutura é que nos tornamos capazes de lhe fazer uma oposição consistente e de minar suas bases. Façamos o exercício de descortiná-la. A seguir, desenvolvo uma reflexão sobre alguns traços de sua anatomia, com o objetivo de nos preparar para combatê-la com efetividade.

A inveja é mal vista, logo tem de ser negada. Talvez a inveja seja o vício mais difamado e rejeitado. Não é bonito ser invejoso. Outros vícios como a raiva, o orgulho etc. são mais higienizados e aceitos socialmente. Não é tão feio assim ser esquentado. Também não causa tanta vergonha ser orgulhoso. Quem projeta orgulho não arranha drasticamente sua própria imagem; talvez até ganhe com isso. Mas quando se fala em inveja, a coisa é bem diferente. Ela é um vício sujo, humilhante e degradante. Ninguém gosta de se mostrar invejoso. Praticamente todas as pessoas reagem com furor quando são identificadas como invejosas. Toda essa representação negativa da inveja só contribui para que ela exista na clandestinidade da alma. Ela é enxotada para os porões e só sai de lá disfarçada. Em boa parte dos casos, sob um disfarce tão bom que nem o invejoso percebe.

A inveja não oferece ganho real e nem gratificação duradoura. A inveja não melhora a vida do invejoso e nem lhe dá prazer. Antes, lhe cria uma série de problemas relacionais, levando-o a se corroer solitariamente. O invejoso vive possuído por uma raiva insana dos outros (porque são prósperos) e de si mesmo (porque é medíocre). A inveja nunca se sacia porque não age para fora. Diferentemente da raiva, que exige uma ação externa para se locupletar, a inveja, por ser preguiçosa e covarde, só age internamente; só ataca o mais fraco, o próprio invejoso. Ela sempre quer ver mais desgraça na vida do outro, mas é impotente para fazer isso acontecer. Ela sempre se frustra: ou porque o outro só prospera ou porque a desgraça que sobreveio é pequena demais aos seus olhos.

A inveja subverte a fonte da felicidade. Em vez se basear no que é bom, a inveja arma sua estrutura sobre o que é mau. Ambrose Bierce apresenta, no Devil’s Dictionary[1] (Dicionário do Diabo), uma definição de felicidade que se ajusta perfeitamente à fisiologia da inveja:

“Felicidade – uma sensação agradável proveniente da contemplação da miséria alheia”.

A inveja se fundamenta no infortúnio, na desgraça, na miséria, e extrai daí fiapos de felicidade para o invejoso. Ambrose Bierce deixou de colocar em sua definição que essa sensação de felicidade é absurdamente efêmera e só se repete quando a desgraça alheia se aprofunda. A inveja constrói, então, uma estrutura de felicidade baseada na voracidade e insaciabilidade, tornando o invejoso viciado em desejo de desgraça. Como esse desejo nunca é plenamente satisfeito, o invejoso nunca experimenta a felicidade, mas apenas fragmentos extáticos de um prazer mórbido. A felicidade não se instala e nem se mantém quando o mal é o fundamento. Logo, todo invejoso é profundamente infeliz e morbidamente masoquista.

Termino este artigo com uma história muito conhecida. Eu a reescrevi e adaptei aos propósitos deste artigo[2]:

Dois homens foram convidados para uma audiência com o rei. Não foi por coincidência que o rei convocou justamente aqueles dois homens. Eles tinham vícios que os tornavam próximos e distantes ao mesmo tempo. Um era ganancioso e o outro, invejoso.

Os dois convidados chegam ao local do encontro. Estão meio apreensivos, um pouco amedrontados. Sentem-se interiormente culpados, embora nenhum deles se considere invejoso ou ganancioso. Eles tinham visto no edital de convocação que cada um teria direito a um pedido, mas a essa altura não esperavam coisa boa. Talvez o rei lhes desse o direito de pedir um castigo mais brando ou coisa parecida.

No horário marcado, os dois súditos são chamados à sala real. Começa a audiência. O rei, vendo o terror estampado no rosto de cada um, diz:
_ Não tenham medo desse encontro. Hoje é um dia de sorte, não de infortúnio. Vocês foram convidados para receberem um presente. Peçam que quiserem e lhes darei.

A fala do rei os aliviou. De imediato cada um começou a fazer planos para o pedido, mas em silêncio. Um dos convidados esboçou fazer uma pergunta sobre haver ou não alguma condição que governasse o pedido. O rei de imediato o interrompeu:
_ Só há uma condição. Apenas um de vocês poderá fazer o pedido. Este receberá o que pedir e o outro receberá o que for pedido em dobro. Não há nenhuma regra que estabeleça quem deve fazer o pedido. Isso será decidido entre vocês.

Logo se instalou um drama na mente de cada um. O ganancioso pensou:
_ Se eu fizer o pedido vou ganhar menos que eu poderia ganhar. Devo convencer meu companheiro a fazer o pedido.

O invejoso, por sua vez, pensou:
_ Se eu fizer o pedido ele vai ganhar o dobro. Eu não suportaria vê-lo ganhar mais que eu. Devo convencê-lo a fazer o pedido.

Eles discutiram por alguns minutos, até que o ganancioso convenceu o invejoso a fazer o pedido. Este pensou consigo:
_ Preciso encontrar uma forma de fazer com que o meu pedido seja pior para ele. Mas é difícil. O rei foi muito sábio.

Num momento de profunda iluminação, sua inveja lhe forneceu uma ideia masoquista, mas suficiente para lhe satisfazer a compulsão por desgraça alheia. Antes de lançar o pedido ao rei, o invejoso se certificou da regra:
_ Qualquer coisa que eu pedir meu companheiro receberá em dobro? É isso mesmo, majestade? Qualquer coisa, mesmo?
_ Sim, disse o rei.
O invejou então pediu:
_ Quero que arranque um dos meus olhos.

Moral da história: a inveja não se importa com o sofrimento de quem lhe dá morada; o que ela quer mesmo é ver o infortúnio do outro. A inveja tem pavor de bem-estar. Ela leva o invejoso a condições degradantes só para manter a obsessão por desgraça alheia. A inveja compele o invejoso à autoperversidade para se manter momentânea e morbidamente feliz.

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[1] http://www.thedevilsdictionary.com/
[2] Li uma versão sumária dessa história em: Os Guinness. Sete pecados capitais. São Paulo: Shedd Publicações, 2006.

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Deus quis se tornar mundano

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Publicado por Sostenes Lima

Vivi uma parte da minha infância numa casa que dividia espaço com a igreja. O terreiro (uma espécie de calçada de terra batida) se estendia varanda a fora dando para a porta do fundo do templo. Eu experimentava a vida de dentro e para dentro da igreja. Mas a vida naquele claustro não era plena; faltava ali uma série de coisas fundamentais. Lá não havia escola, não havia parquinho, não havia mercado, não havia casa e nem trabalho para todos etc. A igreja não conseguia oferecer tudo de que as pessoas precisavam. Logo percebi que não era possível permanecer o tempo todo dentro da redoma da igreja. O que fazer então? Foi aí que me ensinaram que existem dois universos sociais dentro dos quais nossa vida transcorre: a igreja e o mundo. Me ensinaram que ser crente significava viver dentro de uma subcultura, a igreja, tendo o mínimo de contato possível com o espaço lá de fora, o mundo.

Diziam-me que a igreja era um lugar social puro, formado por pessoas boas e íntegras. Ouvi algumas vezes alguém dizer, em pregação, coisas como: “Se alguém está precisando de um funcionário, deve contratar um irmão; é mais seguro. As pessoas da igreja são honestas, competentes e responsáveis. Por que se arriscar contratando alguém do mundo?” Ou algo assim: “Se você está vendendo para um crente pode confiar. As pessoas da igreja não dão calote; elas honram sua palavra e seus negócios”.

Diziam-me que a igreja tinha os padrões morais mais elevados da sociedade. A igreja não apenas congregava pessoas limpas; ela tinha a mais alta fórmula de assepsia moral. A igreja tinha um código de retidão que, quando cumprido à risca, tornava o crente livre de todas as mazelas morais que degradam a vida humana. O crente, uma vez lavado e remido, era uma pessoa santa.

Diziam-me também que a igreja tinha o melhor padrão de arte do mundo. Embora cultivasse apenas uma arte, a música, a igreja detinha um padrão estético capaz de suprir todas as demandas por arte. Ouvia em pregações: “Não ouça música do mundo. Elas não prestam, não edificam em nada. Ouça apenas as músicas da igreja. Essas, sim, são belas e edificantes”. Estranhamente, não me lembro de ouvir qualquer repreensão à leitura de obras literárias. Tenho minhas hipóteses sobre o motivo por que não havia censura à literatura, mas isso não importa neste momento.

As pessoas da igreja concebiam o mundo como o lado de fora da vida; um espaço social sujo, corrompido, cheio de pessoas más e pecadoras. Ouvi por diversas vezes frases como: “O mundo só tem coisas que não prestam. Ele é sedutor, cheio de atrativos, mas nada nele tem valor”. Também ouvia as pessoas da igreja advertindo sobre os perigos de se associar com as pessoas do mundo. Os pregadores diziam: “Cuidado com as pessoas do mundo. Elas são pecadoras e vão influenciar você, conduzindo-o para o fundo do poço. Não seja amigo de pessoas do mundo. Livrem-se das más companhias. Lembrem-se do ditado que diz: ‘me diga com quem você anda que direi que você é’. Andar com uma pessoa mundana pode levar você a se tornar mundano também”.

Vivi minha infância e adolescência exposto a esse discurso. Havia claramente uma divisão entre o que era de boa fama (coisas inerentes à igreja) e o que era degenerado (coisas inerentes ao mundo). Esse tipo de discurso, embora tenha perdido força, ainda continua ativo em muitos recantos religiosos. Ainda há muitas pregações que conclamam as pessoas a renegarem o mundo.

Não vou discutir o que está na base dessa cosmovisão que enaltece a igreja e demoniza o mundo. Sei que há aí muita ignorância, moralismo, hipocrisia, alienação e dominação. É óbvio que, por trás de um discurso tão sectário como esse, há muita arrogância moral e farisaísmo. Também não tenho dúvidas de que há aí uma gama de interesses espúrios, bem escondidos nos porões institucionais, que favorecem certas pessoas e certas instituições. Mas isso não me interessa no momento.

A questão a que me proponho é outra; está relacionada às seguintes indagações: Por que o cristão deve renegar o mundo se Deus fez exatamente o contrário? Por que o cristão deve se enclausurar na igreja se Jesus desenvolveu toda sua prática ministerial fora da organização religiosa de sua época? Na verdade, Jesus não apenas se desligou da instituição religiosa de sua época; ele se opôs a ela radicalmente. Jesus colocou em ruína todas as bases que davam sustentação ao discurso exclusivista e moralista da elite religiosa de seu tempo.

Jesus não renegou o mundo. Ele teve uma vida intensamente mundana. Viveu a infância e juventude numa pequena cidade da Galileia. Lá, possivelmente, adquiriu uma profissão e trabalhou com o pai. Foi a festas. Comeu e bebeu muito. Chorou e riu. Tornou-se um profeta itinerante imerso no mundo, dialogando com as crises mundanas que assolavam as pessoas. Circulou por espaços públicos e privados sem querer torná-los sagrados.

Não encontramos, na atividade e pregação de Jesus, qualquer base para uma cisão entre igreja e mundo. Não há nada mais contraditório do que exigir que alguém seja um cristão fora do mundo, como se isso fosse realmente possível.

Deus, em Jesus, se propôs a uma jornada de mundanização. Jesus entra no mundo e se mistura com ele. A encarnação não é uma negação do mundo, mas uma entrada radical e definitiva de Deus em nossa história, em esfera de existência. A encarnação é uma evidência de que Deus se interessou pelo mundo, de que Deus quis se tornar mundano. Logo, qualquer pregação que demonize o mundo, que o renegue, parece contradizer o propósito da atividade de Jesus. Deus quis interagir com o mundo. Sejamos imitadores de Deus. Tornemo-nos cristãos mais afeitos ao mundo. Sejamos mundanos.

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A oração é ato político

Sostenes Lima, no blog dele

“A oração é ato político, energia social, bem público. Ela molda a vida da nação muito mais do que a legislação. O fato de não termos sido  ainda dominados pela anarquia deve-se muito mais à oração do que à polícia. É um ato permanente e intricado de patriotismo no sentido mais amplo da palavra -  muito mais preciso, amorosa e protetor do que qualquer patriotismo declarado em slogans. A possibilidade de viver na sociedade e o renascimento da esperança se devem à oração e não à prosperidade empresarial ou ao florescimento das artes. O ato mais importante para despertar toda saúde e força que há em nossa terra é a oração” [Eugene Peterson. Onde está o seu tesouro. Niterói: Textus, 2005].

Resta saber que tipo de oração é um ato político. Certamente não é a oração congregacional e alienante que tanto vemos em algumas igrejas evangélicas e nas neopentecostais.

Aqueles recitais de magias disfarçadas de oração são muito mais uma forma de escoamento de neuroses e artefatos discursivos que garantem fidelização de uma clientela religiosa.

A oração como ato político não é ensimesmada, não busca prioritariamente o bem-estar individual, não comunga com os valores de uma sociedade de consumo. A oração como um ato político é o sermão do monte efervescendo na alma.

Recortes de promessas triunfalistas, contidas em alguma parte da bíblia e repetidas como mantras, não podem ser de forma alguma um ato político.

Essas pseudo-orações não passam de fórmulas mágicas, que apenas potencializam o desejo individual de sucesso e poder, sem qualquer ressonância nos aspectos ético-políticos da vida social.

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