Da arte de não querer ouvir o que já sabemos

mascaras-620x400André J. Gomes, na Revista Bula

Primeiro aconteceu no congestionamento de uma cidade grande, com aquele sujeito pequeno que decidiu fazer uma faxina no interior de seu carro enquanto o trânsito não andava. Indiferente como os ponteiros de um relógio que atropelam a vida em total desaviso, juntou o entulho que ali havia, restos de comida, maços vazios de cigarro, latas de cerveja amassadas, e atirou tudo à rua pela janela, sob meia dúzia de olhares apáticos vindos de um ou outro veículo entre as centenas que ali jaziam por todos os lados.

Livre da sujeira que emporcalhava seu universo exclusivo de seis lugares, bancos de couro, direção hidráulica e câmbio automático, o homenzinho limpou uma mão na outra, aumentou o volume da música e se pôs a praguejar em silêncio contra Deus, o mundo e o trânsito.

Foi então que ali, naquele dar de ombros sem consciência, ele percebeu uma mulher caminhando entre os automóveis parados. Ela era linda, linda. Vinha sabe-se lá de onde e era quase certo que andava justamente na direção dele. Dois segundos depois, não havia dúvidas: era mesmo para ele aquele sorriso de velha amiga de outros tempos.

A mulher se aproximou resoluta, firme, sorrindo a felicidade, e parou bem de frente ao homem que adotara uma forçada expressão agradável. Ela mirou os olhos dele com ternura, respirou fundo e, com a frieza da morte e a determinação de um míssil, lascou-lhe uma bofetada na cara.

Não foi um tapa à toa, nem um soco cego. Foi uma bofetada circense, escandalosa, espetacular. Na cara. Marcando-lhe os cinco dedos na face branca, explodindo em seu rosto como os fogos de artifício no céu do réveillon.

O esbofeteado fechou os olhos durante o instante breve e imperceptível que precede qualquer reação, um pedido de esclarecimento, “por que você me bateu?”, um grito de socorro à polícia, aos escoteiros, à mãe já morta, um revide cego, uma fuga para não apanhar de novo ou uma pausa para o choro infantil e soluçado da criança empurrada na fila da escola. E quando ele abriu os olhos de novo, a mulher já não estava mais ali. Sua agressora desaparecera, rápida como o tapa que o atingira nas ventas.

Banhado de suor e descrença, ele saiu do carro e despencou em perguntas urgentes gritadas a todos os lados, girando ao redor de si mesmo. “Mas quem é essa louca? Quem ela pensa que é? Surgir do nada e agredir um cidadão de bem, pagador de impostos, pai de família? Eu exijo que essa bandida seja presa!”

Sua única resposta foi o som coletivo das dezenas de buzinas se manifestando nervosas contra seu carro parado no tráfego que recomeçava a fluir lentamente. A mulher desapareceu como surgira. Do nada. E reapareceu depois, outras vezes, em outros lugares, para fazer numerosas outras vítimas.

Um velho manipulador, habituado a assediar sua empregada doméstica enquanto a esposa doente dormia, foi surpreendido ao sair do banheiro sem as calças, pronto para voar nas ancas da funcionária que lavava a louça. A mesma mulher misteriosa, linda, linda, brotou das sombras do apartamento escuro e partiu a cara sem vergonha do tarado com uma bofetada que o entrevou na cama. Depois desapareceu como mágica.

Casos como esse passaram a se repetir em todos os lugares. Notícias chegavam de todos os cantos. Uma moça com as mesmas características aparecia, atacava e sumia como um fantasma vingativo.

Até ressurgir em outro endereço e fazer uma nova vítima sem qualquer relação aparente com a presa anterior. Uma policial de trânsito que contava na intimidade de sua casa as notas de cinquenta reais coletadas em mais um dia de subornos recebidos e multas não dadas. Um marido cretino que levantou a costumeira mão para sua esposa submissa, socou-lhe no olho e foi à cozinha pegar outra cerveja. Uma apresentadora de televisão famosa por incentivar os telespectadores a fazer justiça com as próprias mãos, ignorando os efeitos medonhos da superficialidade e do ódio gratuito de suas posições.

Em todos esses episódios, o mesmo desfecho. Uma mulher linda, linda surge do vazio e golpeia a cara de suas vítimas com um sonoro tabefe para logo depois desaparecer em mistério e dúvida.

As histórias ganharam repercussão internacional. Dias, semanas, meses se passaram e os jornais, programas de televisão, os investigadores, os fofoqueiros e, sobretudo, os esbofeteados seguiram fazendo as mesmas conjecturas e perguntas sobre a agressora misteriosa e implacável. Menos uma: “Por que será que nós estamos apanhando?”

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As cantadas ofendem

Uma pesquisa mostra que as mulheres têm medo de andar sozinhas por causa das agressões verbais – e físicas – que recebem dos homens. Quando haverá uma campanha oficial contra isso?

Manifestantes na Marcha das Vadias, em julho, no Rio de Janeiro. Elas defendem o respeito ao corpo e à dignidade feminina, ofendidos pelas “cantadas” (Foto: Marcelo Fonseca/Brazil Photo Press/Folhapress)
Manifestantes na Marcha das Vadias, em julho, no Rio de Janeiro. Elas defendem o respeito ao corpo e à dignidade feminina, ofendidos pelas “cantadas” (Foto: Marcelo Fonseca/Brazil Photo Press/Folhapress)

Karin Hueck, na Época

Natália, de 28 anos, andava por uma avenida movimentada de São Paulo com uma amiga. O rapaz que vinha na direção oposta se esgueirou entre as duas. Encarou-as de alto a baixo e soltou: “Sem calcinha vocês devem ser uma delícia”. Débora, de 29 anos, esperava o semáforo abrir para atravessar uma avenida. Foi abordada por um estranho que a convidava para um café. Puxou-a pelo braço, insistiu e depois começou a segui-la. Thatiane, de 23 anos, estava numa festa. Sentiu alguém deslizar a mão por seu corpo. Ela se voltou para tirar satisfação, e o rapaz a chamou de vagabunda. Thatiane jogou o conteúdo do copo que tinha nas mãos sobre ele. Levou um tapa na cara. Laura tinha 14 anos, estudava no centro de Porto Alegre e saiu para almoçar. Três homens cruzaram seu caminho, passaram a mão no meio de suas pernas e discorreram sobre suas partes íntimas, com uma frase que jamais poderia ser publicada em ÉPOCA.

Natália, Débora, Thatiane e Laura são minhas amigas. Não precisei ir longe para reunir essas histórias assustadoras, porque elas não são exceção. Assim como minhas amigas e eu, já passaram por situações constrangedoras nas ruas 99,6% das quase 8 mil mulheres que responderam a um questionário on-line elaborado por mim. O levantamento, promovido entre julho e agosto, faz parte da campanha “Chega de Fiu-Fiu”, organizada pelo blog Think Olga, um espaço virtual para discutir questões femininas. O percentual de mais de 99% é parecido com o encontrado num trabalho feito nos Estados Unidos pela organização Stop Street Harassment (Parem com Assédio nas Ruas). Lá, 99% das mulheres afirmaram ser incomodadas nas ruas. Como não sou pesquisadora e não usei metodologia científica, sei que meus resultados podem não ser exatos. Mas eles traçam um bom panorama do que as mulheres enfrentam – e do que sentem – quando andam pelas ruas. Como mulher e jornalista, foi a maneira que encontrei de mostrar que esse tipo de “elogio” não agrada. Ofende, humilha e causa medo.

É tão comum que uma mulher ouça cantadas ou passe por situações que beiram ao assédio que o assunto é pouquíssimo discutido. Parece apenas mais um fato da existência. A chuva molha. Seres humanos envelhecem. Mulheres são importunadas nas ruas. É tão frequente que algumas dizem não se importar. Parecem ter se conformado. De acordo com a pesquisa, 17% consideram cantadas algo legal.

Imaginando que algum comentário sobre nosso corpo feito por estranhos seja admissível, qual o limite entre o elogio aceitável e a cantada ofensiva? Pode chamar de princesa? Pode passar a mão no cabelo? E colocar a mão no corpo, pode? Parece que muitos acham que sim. No levantamento, 85% das mulheres afirmaram já ter sido tocadas ao andar sozinhas. Nas nádegas (88%), na cintura (56%), nos seios (20%), entre as pernas (17%). Se isso não é agressão sexual, o que será?

Todas essas “cantadas” – da “princesa” à passada de mão – violam a intimidade feminina. O assediador parte de um princípio: o corpo da mulher é visto como público, algo sobre o qual se pode opinar e, por que não, do qual pode se servir à vontade. Como essa percepção é generalizada, a mulher que decide se manifestar contra o assédio corre o risco de ser ofendida. Vira metida, baranga e outros insultos que não cabem neste artigo. Entre as voluntárias que responderam ao questionário, 68% relataram ter sofrido intimidações verbais ao revidar. Talvez por isso, poucas mulheres reajam às cantadas que ouvem: apenas 27%. “Medo de apanhar” é uma das principais justificativas para o silêncio delas, e faz sentido. Dados da Secretaria de Política para as Mulheres mostram que 37% das brasileiras foram agredidas em vias públicas, e 29% foram atacadas por desconhecidos.

Isso significa que mais da metade da população brasileira – 51,5% de mulheres – sente medo quando sai à rua. Isso faz com que esse enorme grupo não se expresse da maneira como gostaria. Meu levantamento revela que 90% das mulheres já trocaram de roupa para sair de casa, com medo de chamar a atenção. Mais de 80% mudaram de caminho, desistiram de sair a pé ou até de ir aonde desejavam, por medo da atitude dos homens. As cantadas tolhem a liberdade da mulher. Lembro-me de como abaixava a cabeça e fingia chorar quando passava na frente de um aglomerado de homens durante a adolescência. Torcia para que se enternecessem e não me dissessem nada.

A intimidação não acontece só nas ruas. Sofri ataques pelo simples fato de ter lançado o questionário. Internautas anônimos mandaram mensagens de ódio e ameaças para o blog que hospedou o formulário. “Por fora vocês não gostam, mas por dentro adoram”, escreveu um. “Que mimimi é esse? Tem de olhar reto e, se não quiser aparecer, põe uma roupa maior”, escreveu outro. E o campeão: “Essa pesquisa é a coisa mais imbecil que já li. Vocês merecem ser estupradas”, de um usuário cujo e-mail era rapist@raperz…(estuprador@estupradores…). Gente assim deve achar que é direito dos homens cantar as mulheres. Que homem nenhum deveria se controlar perto de uma mulher, passando por cima – imagine, que absurdo! – do impulso de falar obscenidades.

Engana-se quem acha que esse tipo de violência é exclusividade do Brasil. Débora, citada no começo do texto, foi perseguida pelo rapaz em Berlim, na Alemanha. Nos Estados Unidos, o problema é tão comum que uma jornalista criou o site ihollaback.org para receber e divulgar vídeos e relatos de mulheres que passaram por situações constrangedoras. O site, que funciona a partir de financiamentos coletivos, também treina pessoas de 64 cidades em 22 países para gravar pequenos filmes de celular com flagrantes de assédio nas ruas.

Para as mulheres, é incômodo falar sobre o assunto. Elas sentem vergonha, como sugerem os relatos das voluntárias que participaram da pesquisa (além de responder às perguntas de múltipla escolha, elas podiam relatar casos que tivessem vivido). Por que as mulheres têm vergonha? Atrevo-me a sugerir uma explicação: muitas podem pensar que tiveram culpa, que provocaram de alguma maneira o comportamento dos homens. Não raro, quando sofremos uma agressão dessas, pensamos: “Como eu estava vestida?”. Como se isso fosse uma justificativa. Como se isso importasse. Esse raciocínio já é uma forma de violência. É a velha cultura do estupro, absorvida pelas próprias mulheres: “Ela mereceu”. As histórias contadas pelas mulheres que responderam ao questionário são tão chocantes, que é de estranhar que não exista nenhuma campanha pública educativa contra esse tipo de comportamento. Há adolescentes e meninas pré-púberes ouvindo ameaças à virgindade nas ruas, sob o olhar complacente de todo mundo. Essas meninas aprendem desde cedo que, em pleno Brasil do século XXI, a rua pertence aos homens, e nela a mulher anda de cabeça baixa. Já passou da hora de levantarmos a cabeça.

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Vídeo no YouTube e petição na web fazem Hasbro fazer “forninhos” com igualdade de gêneros

Ismael dos Anjos, na Superinteressante

Depois de anos de luta pela igualdade entre os sexos e pelo menos alguns milhares de chefs homens espalhados pelas cozinhas do mundo, era de se esperar que a cozinha não fosse mais considerada um lugar restrito às mulheres. Era. Por que é difícil mudar essa mentalidade quando brinquedos infantis, como os forninhos, apostam em um marketing dedicado exclusivamente às meninas. De olho nessa lacuna e em dar um bom presente de Natal para seu irmãozinho, a adolescente americana McKenna Pope foi à luta: quem disse que cozinha é lugar de garotas?

Começou assim: tão logo Gavyn pediu um Easy Bake Oven (forno de assar fácil, em tradução do inglês) da Hasbro para fazer seus experimentos culinários infantis no Natal, McKenna e os pais saíram para comprar o brinquedo. Não acharam um que servisse à situação: todos eram vendidos em cores como roxo e rosa, e acompanhavam detalhes femininos. Revoltada, McKenna fez o que todo adolescente conectado faz hoje em dia: xingou muito no Twitter postou um vídeo no YouTube e começou uma petição online pela igualdade de gêneros nesse tipo de produto.

Deu certo. Mais de 160 mil visualizações 45 mil assinaturas depois, a adolescente de New Jersey conseguiu que a fabricante do forninho se comprometesse a lançar o produto nas cores preta e prata, além de fazer comerciais que indiquem que o brinquedo pode ser utilizado por ambos os sexos. “Sou muito grata a todos os que apoiaram essa campanha. Com os novos produtos, a Hasbro está dizendo que qualquer um pode cozinhar e eu mal posso esperar para dividir esse presente com meu irmãozinho Gavyn”, disse.

É a internet dando mais um tapa na cara da sociedade :-) .

Abaixo, assista ao vídeo que motivou a mudança (vale o clique para conferir a fofice do pequeno Gavyn: “eu quero um dinossauro e um forno de assar fácil):

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