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O poder positivo do pensamento negativo

pense negativo

Publicado no HypeScience

Se você quiser atingir uma grande meta, a sabedoria convencional te orienta que pensar positivo é o melhor caminho. Imagine-se entregando a apresentação perfeita e absorva a energia do público. Visualize a entrevista de emprego ideal e imagine-se nas nuvens quando você consegue a vaga. Embora essas estratégias possam soar convincentes, o que se vê, na prática, é que muitas vezes o tiro sai pela culatra. Muitos de nós são mais bem sucedidos quando nos concentramos nas razões que nos deixam mais propensos a falhar.

Em uma série de estudos de inteligência, as psicólogas Julie Norem e Nancy Cantor compararam otimistas estratégicos e pessimistas defensivos. Se você é um otimista estratégico, você imagina o melhor resultado possível e, em seguida, ansiosamente planeja para que isso aconteça. Se você é um pessimista defensivo, mesmo que tenha sido bem sucedido no passado, sabe que desta vez pode ser diferente. Você começa a imaginar todas as coisas que poderiam dar errado: e se eu derramar café no entrevistador? E se eu esquecer meu próprio nome?

A maioria das pessoas assume que os otimistas estratégicos superam os pessimistas defensivos, porque eles se beneficiam da confiança e grandes expectativas. Norem e Cantor descobriram que pessimistas defensivos eram mais ansiosos e definiram expectativas mais baixas para si mesmos em tarefas analíticas, verbais e criativas. No entanto, eles não se saíram pior.

“No começo, eu me perguntei como essas pessoas foram capazes de se sair tão bem, apesar de seu pessimismo”, escreve Norem no livro “The Positive Power of Negative Thinking”. “Em pouco tempo, comecei a perceber que eles estavam indo tão bem por causa de seu pessimismo… o pensamento negativo transformou a ansiedade em ação”. Ao imaginar o pior cenário possível, os pessimistas defensivos encontraram motivação para se preparar melhor e tentar mais.

Otimistas estratégicos e pessimistas defensivos foram bem sucedidos em circunstâncias diferentes. Se você é um pessimista defensivo, ou você está tentando motivar um deles, as estratégias que se comprovaram efetivas são muitas vezes o contrário do que você espera. Confira:

1. Não assobie enquanto trabalha

Embora as evidências mostrem que a felicidade muitas vezes nos faz mais bem sucedidos, promovendo energia e criatividade, o tiro pode sair pela culatra para os pessimistas defensivos. Quando os otimistas estratégicos e pessimistas defensivos jogaram dardos, se saíram igualmente bem no geral, mas foram mais eficazes em condições opostas. Antes de atirar os dardos, algumas pessoas ouviram fitas relaxantes (“ouça o barulho suave das ondas em um oceano que reflete o brilho do sol”). Outras imaginaram-se jogando dardos e não alcançando as suas metas. Quando eles realmente jogaram os seus dardos, os otimistas estratégicos eram cerca de 30% mais precisos quando relaxados ao invés de quando imaginavam resultados negativos. Porém, o oposto é verdadeiro para os pessimistas defensivos: eles foram cerca de 30% mais precisos quando pensavam sobre os resultados negativos, em vez de relaxar ou imaginar um desempenho perfeito. A pesquisa de Norem sugere que “o humor positivo prejudica o desempenho dos pessimistas defensivos”. Quando eles estão de bom humor, se tornam complacentes, pois eles não têm mais a ansiedade que normalmente move o seu esforço. Se você quer sabotar pessimistas defensivos, apenas os torne felizes.

2. O incentivo desencoraja

Achamos que é uma boa ideia incentivar as pessoas, mas é melhor não tomar essa decisão tão rápido. Em um experimento, pessoas completaram uma tarefa de desenho que exigia foco e precisão. Logo antes da tarefa, o pesquisador olhou as notas da faculdade de metade dos participantes e disse: “Hmm, levando em consideração o quão bem você fez no passado, eu presumo que você esteja muito confiante do seu desempenho. Você provavelmente vai se sair muito bem nas próximas tarefas”. Essas palavras de encorajamento impulsionaram um pouco o desempenho dos otimistas estratégicos, que foram 14% melhor depois do discurso. Em contrapartida, os pessimistas defensivos se saíram significativamente pior quando foram encorajados, marcando um desempenho 29% menor. O estímulo impulsionou a sua confiança, reprimiu sua ansiedade e interferiu nos seus esforços para criar baixas expectativas. Como Oliver Burkeman escreve em “The Antidote”, “o incentivo é uma faca de dois gumes”.

3. Não se preocupe, seja infeliz

Quando as pessoas estão ansiosas, às vezes nós as encorajamos a se distraírem. Mais uma vez, isso não funciona com os pessimistas defensivos. Em outro experimento, as pessoas preencheram um questionário sobre seus estilos e então fizeram um teste de matemática mental, que envolveu a adição e subtração de números em suas mentes (por exemplo, 15 + 47 – 73). Os otimistas estratégicos não se beneficiaram ao refletir sobre os possíveis resultados, mas os pessimistas defensivos, sim. Quando os pessimistas defensivos se distraíram com outra tarefa logo antes da prova de matemática, suas notas foram cerca de 25% menores do que quando listaram os resultados mais extremos que poderiam acontecer no teste e como poderiam se sentir a respeito deles. Ter tempo para se preocupar ajudou a gerar a ansiedade necessária para que se motivassem.

4. Deixem as fantasias para a tela do cinema

Estudos mostram que fantasias positivas desencorajam a conquista. Quando as pessoas imaginam perder peso ou conseguir namorar aquele por quem têm uma queda, elas são menos propensas a seguir adiante com seus planos. Além disso, pessoas têm um desempenho pior quando dizem “Eu vou” do que quando se perguntam “Será que eu vou?”. “Afirmação faz você se sentir bem, porém ela não te motiva a buscar os recursos e estratégias para realmente realizar a tarefa”, relata Dan Pink em “To Sell Is Human”.

Precisamos que o copo esteja meio cheio e meio vazio

Nos EUA, os otimistas são mais favorecidos do que os pessimistas. Quando economistas pesquisaram ​​mais de mil diretores executivos norte-americanos, eles descobriram que mais de 80% foram classificados como “muito otimistas”.

Otimistas tendem a prosperar em trabalhos que exigem resistência e perseverança. Por exemplo, em trabalhos de vendas de seguros com altas taxas de rejeição, os otimistas venderam 37% a mais do que os pessimistas ao longo de um período de 2 anos e tinham metade das chances de pedir demissão em seu primeiro ano. No livro “Learned Optimism”, o psicólogo Martin Seligman revela que quando as coisas dão errado, os pessimistas visualizam os eventos negativos como pessoais (“Eu sou um orador terrível”), permanentes (“Eu nunca vou ficar melhor”) e universais (“Eu vou perder o respeito dos meus colegas e minha esposa”).

Os otimistas, ao contrário, reconhecem que, quando uma apresentação erra o alvo, é possível que o público não estivesse preparado para a sua mensagem. Por isso, eles podem praticar e melhorar, e ainda conseguem se destacar em outras tarefas e ter uma noite agradável em casa.

Ao mesmo tempo, precisamos de pessimistas para antecipar o pior e preparar todos para isto. Em média, a pesquisa indica que as pessoas que nunca se preocupam têm um desempenho pior no trabalho do que aqueles que se preocupam de tempos em tempos. Estudos também mostram que quando os empresários estão muito otimistas, seus novos empreendimentos trazem menos receita e crescem mais lentamente, e que quando diretores executivos são altamente otimistas, eles assumem dívidas mais arriscadas e tentam alcançar maiores resultados na bolsa de valores com maior frequência, colocando suas empresas em risco. Esse pode ser o motivo de porque há menos diretores financeiros otimistas do que diretores executivos.

Por fim, ambos os estilos são mortais em seus extremos. O pessimismo se torna fatalista e o otimismo se torna tóxico. A chave é encontrar o ponto ideal, as faixas mais moderadas que combinam as vantagens de ambas as abordagens. Nas palavras de Richard Pine: “Os melhores executivos – e isso inclui presidentes – sabem que muito bem que o otimismo é uma coisa perigosa, que a liderança sábia e produtiva significa um equilíbrio entre a visão de mundo cor-de-rosa dos otimistas e a avaliação fria de qualquer situação dos pessimistas. Pegue um pouco de vendedor, um pouco de inventor, um pouco de advogado, um pouco de engenheiro de segurança, mexa delicadamente e você tem um grande executivo”.

Se você é do tipo de pessoa que está sempre dizendo a outras pessoas para que elas olhem para o lado positivo, você pode querer reconsiderar essa postura. Se as pessoas têm sucesso ou não, não é uma questão de pensar positivamente ou negativamente, mas de escolher as estratégias que mais combinam com seus estilos de pensamento. Como os psicólogos Heidi Grant Halvorson e Tory Higgins escrevem em “Focus”, “é a adaptação que conta”.

E se você é um pessimista defensivo, quando estiver se preparando para uma performance que é realmente importante, você pode querer listar seus pontos fracos ao invés de seus pontos fortes e beber um copo de ansiedade, ao invés de uma dose de confiança.

Anúncio que mostra a morte de Hitler criança ganha prêmio em Berlim

Os membros do juri justificaram a escolha ao dizer que o comercial obriga o espectador a formar uma opinião

Mercedes considerou propaganda "inadequada" por incluir a morte de uma criança (Reprodução)

Mercedes considerou propaganda “inadequada” por incluir a morte de uma criança (Reprodução)

Publicado na Veja on-line

Um falso anúncio da Mercedes-Benz divulgado nas redes sociais em agosto causa furor não só por se tratar de uma peça fictícia (sem patrocínio da montadora), mas também pelo tema: mostra a morte de Adolf Hitler, ainda criança, ao ser atropelado por um carro da marca. Nesta terça, a propaganda venceu o prêmio cinematográfico de novos talentos First Steps Awards, em Berlim (Alemanha), na modalidade publicidade. (Confira o vídeo).

O anúncio, do qual a Mercedes-Benz - um dos patrocinadores do prêmio - procurou se desvincular desde que foi divulgado, mostra um moderno automóvel circulando por uma cidade na zona rural austríaca e que, subitamente, freia para evitar o atropelamento de duas meninas. Pouco depois, aparece um menino correndo com uma pipa, mas o painel do carro não alerta o motorista sobre a presença da criança.

Com o forte golpe do atropelamento, ao fundo, por um instante, aparece uma imagem do ditador que provocou a Segunda Guerra Mundial e liderou a morte de milhões de judeus, enquanto uma mãe grita: “Adolf!”. O veículo então sai da cidade onde estava. Em uma placa é possível ler o nome Braunau am Inn, local onde o líder nazista nasceu na Áustria. Depois, a tela fica negra e aparece a mensagem: “Reconhece os perigos antes que eles apareçam”.

O júri do prêmio considerou que o controverso vídeo – parte de um trabalho para a Escola Cinematográfica de Baden-Würtemberg, em Ludwigsburg - merecia o prêmio avaliado em 10.000 euros (13.300 dólares) por “obrigar o espectador a formar uma opinião”. Os jurados afirmaram em sua decisão que “diante da perspectiva das críticas, o diretor do filme, Tobias Haase, permanece fiel aos seus ideais artísticos. O setor criativo necessita de tal defensor das ideias”.

Quando o anúncio se tornou público e virou sucesso na redes sociais, a Daimler, proprietária da marca Mercedes, divulgou um comunicado criticando a publicidade e considerando “inadequado incluir a morte de uma criança como conteúdo relacionado ao nazismo em um anúncio, mesmo sendo fictício”.

Cientistas registram inédito “controle da mente” a distância entre humanos

Experimento com ‘transmissão de comando de pensamento’ em universidade nos EUA lança especulações sobre futuro da comunicação entre humanos

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Troca de pensamento abre debate ético e lembra ficção científica
Foto: Universidade de Washington / Divulgação

Publicado no Terra

Apertando apenas uma tecla, Andrea Stocco aciona o canhão de seu jogo no computador e destrói um foguete que vinha pelo céu. O videogame não tem nada de fantástico e parece uma relíquia dos anos 1980. O que o faz diferente é o fato de que jogador, no caso o pesquisador da Universidade de Washington, não consegue ver o jogo.

A pessoa que consegue ver o jogo, o colega cientista Rajesh Rao, está sentado do outro lado do campus olhando para uma tela. Ele usa uma touca com cabos acoplados. Sem mover um músculo ou usar qualquer equipamento de comunicação, Rao diz a seu colega o exato momento de disparar o canhão.

Para isso, Rao usou apenas o poder da mente. No momento exato, ele apenas imaginou disparar o canhão. A ordem foi então enviada por meio da internet a Stocco, que usando uma touca de natação e fones de ouvido especiais que impedem a passagem de qualquer som, apertou involuntariamente a tecla de espaço com o dedo indicador.

Voldemort

A cena narrada acima pode ser o primeiro caso documentado de “controle da mente” à distância entre dois humanos. Até agora, tratava-se de um conceito apenas teórico, mais próximo à ficção científica. Os fãs de Harry Potter vão fazer relações com o malvado Voldemort e seu feitiço “Impérius”, quando manipula a mente de terceiros.

Stocco diz que a internet, além de conectar computadores em rede, “agora pode ser a forma de conectar cérebros”. Rao diz que foi “empolgante” ver uma ação imaginada no seu cérebro sendo transformada em ação por outra mente. “O próximo passo é chegar a uma conversa bilateral entre os dois cérebros”.

Atividade cerebral

Já existem hoje vários programas para controlar o computador por impulsos cerebrais. A Samsung, por exemplo, está desenvolvendo um tablet controlado pela mente. Já a empresa Interaxon está comercializando uma “bandana com sensor cerebral” que tem como objetivo controlar equipamentos com o poder da mente. A tecnologia foi desenvolvida pensando em pessoas com deficiências.

A tecnologia usada no experimento é em parte conhecida. A técnica usada para enviar as mensagens cerebrais de Rao para Stocco é chamada de eletroencefalografia e já é utilizada para medir a atividade cerebral das pessoas. O estímulo magnético que fez o dedo de Stocco se mover também é conhecido.

A novidade é que ninguém havia juntado as duas técnicas anteriormente.

‘Trivial’

Os pesquisadores dizem saber que o experimento é “básico” em termos de conceito. Para Daniel H. Wilson, PhD em robótica e autor do elogiado livro de ficção científica Robocalypse, o experimento dos dois cientistas foi uma “prova de conceito”.

“Ele lançou uma discussão sobre como o contato entre cérebros pode ter impacto na sociedade no futuro”, diz. “Ainda que o experimento seja limitado, ele certamente nos fará pensar a respeito”, disse.

Mas nem todos ficaram impressionados.

Ian Pearson, futurologista com experiência em engenharia, compara o experimento à performance do artista australiano Sterlac, que há 15 anos deixou que o público controlasse o movimento de seus membros a partir de estímulos enviados pela internet.

“Um sistema de controle de reconhecimento do pensamento é trivial”, disse. “Se eles tivessem tirado o pensamento de uma pessoa e recriado esse pensamento em outra, aí eu estaria impressionado”, disse.

Perigo

Entre os cientistas, há um consenso maior sobre o impacto que desenvolvimentos futuros nessa área de pesquisa possam ter na forma como as pessoas se comunicam e cooperam entre si.

Stocco diz que um dia essa tecnologia poderá permitir, por exemplo, que um passageiro assuma o controle de um avião caso o piloto fique incapacitado com ajuda de outro piloto ou especialista sentado em outro lugar.

Pearson cita como exemplo a elaboração de projetos complexos que necessitam do envolvimento de profissionais de diversas áreas.

“Digamos que você esteja projetando um prédio com engenheiros, arquitetos e artistas”. “Mesmo estando a quilômetros de distância, o artista pode apresentar uma ideia e o engenheiro pode refiná-la ou contestá-la. Trabalhando juntos, eles podem desenvolver algo complexo, bem rápido”.

Ele acha que “em 30 ou 40 anos” esse cenário pode se tornar realidade, com a utilização de nanotecnologia inserida diretamente no cérebro.

É claro que todo o conceito de controle mental acaba sendo ofuscado pela possibilidade de mau uso da tecnologia. Daniel H. Wilson, entretanto, diz não ver “nada inerentemente perigoso no crescimento da comunicação entre seres humanos”.

“Os intrincados requisitos técnicos do estímulo magnético transcraniano fazem com que seja improvável o controle da mente sem que saiba”, diz.

Chantal Prat, professor assistente de psicologia na Universidade de Washington, trabalhou na pesquisa e concorda com essa análise.

“Acho que algumas pessoas se preocupam porque estão superestimando a tecnologia”, diz.

As muitas previsões de Isaac Asimov em 1964 que se tornaram realidade

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Publicado no Gizmodo

Em 1964, após visitar a gigantesca Feira Mundial de Nova York, o escritor Isaac Asimov, então com 42 anos, viu o que ele considerou os primeiros passos de um futuro distante. Um futuro, mais precisamente, em 2014. Quase 50 anos depois, é assustadora a precisão de Asimov em alguns dos pontos que ele decidiu prever.

É importante lembrar, claro, que a missão da clarividência é sempre muito perigosa – as chances de errar são enormes, e até hoje caçoamos daqueles que não tiveram uma visão muita precisa (oras, é só lembrar que a piada nostradâmica de Ballmer ao falar sobre o possível insucesso do iPhone é lembrada até hoje).

Mesmo assim, com uma tarefa considerada ingrata por muitos, Asimov era o personagem ideal para fazer esse tipo de previsão. Afinal, Asimov foi um dos grandes nomes da literatura de ficção científica, criando marcos como as Três Leis da Robótica, publicado originalmente no livro Eu, Robô – livros e histórias que até hoje servem de base para filmes futuristas, mesmo tantas décadas depois.

Assim, acompanhe conosco onde Asimov acertou, errou ou passou perto em seu belo texto prevendo um futuro extremamente tecnológico, mas que não necessariamente seria um lugar utópico e incrível. Eis o texto completo. E, após a leitura, recomendamos o exercício mental: você consegue arriscar o que estaremos usando em 2064?

Onde ele acertou em cheio

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As comunicações combinarão som e imagem, e você vai ver e ouvir a pessoa para quem você telefonar. A tela pode ser usada não só para ver as pessoas para quem você liga, mas também para o estudo de documentos e fotografias, e para ler trechos de livros. Satélites síncronos, pairando no espaço, permitirão a você ligar diretamente para qualquer ponto da Terra, incluindo as estações meteorológicas da Antártida…

Asimov acertou ao prever o futuro das telecomunicações. O conceito de videochamada, de usar a tela do telefone para outros fins, e de conectar o mundo através da telefonia, se realizaram nos últimos 50 anos. (A imagem acima é do filme 2001: Uma Odisseia no Espaçolançado alguns anos depois que Asimov publicou seu texto.)


Um número enorme de conversas simultâneas… poderão ser feitas por raios laser modulados, que são fáceis de se manipular no espaço. Na Terra, no entanto, os feixes de laser terão de ser conduzidos através de tubos de plástico, para evitar a interferência material e atmosférica. Os engenheiros ainda vão lidar com esse problema em 2014.

Este é praticamente o conceito da fibra óptica, que conecta o mundo inteiro através da telefonia e internet. A comunicação via fibra óptica começou a ser desenvolvida na década de 70, portanto depois das previsões de Asimov. E não só os engenheiros têm problemas com os cabos submarinos: eles são os tubos pelos quais os EUA espionam o mundo.


Quanto à televisão, TVs de parede terão substituído os aparelhos comuns; mas cubos transparentes terão aparecido, nos quais será possível ver vídeos na terceira dimensão.

Sim! A TV cresceu e se tornou fina o bastante para ser presa à parede. Com as resoluções 4K e 8K, elas podem ficar ainda maiores sem perder a qualidade de imagem. E a ideia do cubo transparente é quase uma TV holográfica, que pode ser vista em três dimensões e de fato ainda está em seus estágios iniciais.

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 … até 2014, apenas naves não-tripuladas terão aterrissado em Marte, mas uma missão tripulada estará sendo planejada…

Sim! A Curiosity está explorando o planeta vermelho agora mesmo, em busca de sinais de vida passada, e o presidente Obama já disse que planeja enviar humanos a Marte. Ainda há o projetoMars One, para instalar uma colônia humana no planeta e ocupá-la a partir de 2023. Sensacional, Asimov.


Em 2014, há uma enorme probabilidade de que a população mundial será de 6,5 bilhões, e a população dos EUA será de 350 milhões.

Prever esses números há cinquenta anos e chegar tão perto, para mim, é um acerto. Estamos em 7,1 bilhões de pessoas no mundo; os EUA têm 317 milhões de habitantes.


Nem toda a população do mundo vai aproveitar ao máximo o mundo do futuro cheio de gadgets. Uma parte maior do que hoje será privada disso, e embora possa estar numa situação materialmente melhor do que hoje, eles estarão ainda mais atrasados quando comparados com as partes avançadas do mundo.

Os avanços tecnológicos, infelizmente, são para a minoria em uma escala global. Asimov acertou em cheio.


Mesmo assim, a humanidade sofrerá gravemente com a doença do tédio, uma doença que se espalhará de forma mais ampla a cada ano e crescendo em intensidade. Isso vai ter consequências mentais, emocionais e sociológicas sérias, e ouso dizer que a psiquiatria será, de longe, a especialidade médica mais importante em 2014.

É de dar arrepios essa previsão de Asimov. Nossas relações com a tecnologia acaba nos deixando mais tristes. Não é por ser “tedioso”: é que não estamos interagindo de fato com outras pessoas. A internet está nos deixando deprimidos. Ou você nunca teve aquela sensação de vazio depois de ficar horas com o celular na mão, ou em frente ao computador? E os gadgets têm mesmo um impacto na sociedade: pense no Google Glass, por exemplo, e a polêmica que seu uso trouxe.


Os poucos sortudos que puderem se envolver no trabalho criativo de qualquer espécie serão a verdadeira elite da humanidade, pois farão mais do que servir a uma máquina.

Sim. À medida que adotamos a automação, os trabalhos criativos continuaram a ganhar destaque.


Na verdade, a especulação mais sombria que eu posso fazer sobre 2014 d.C. é que em uma sociedade de lazer forçado, a única palavra mais gloriosa no vocabulário se tornará o trabalho!

Nunca se discutiu tanto as questões de trabalho versus lazer. Você faz o que gosta? Gosta do que faz?

Onde ele acertou em parte

Dispositivos sem fio e com bateria duradoura: Sim, nossos gadgets estão se tornando cada vez mais móveis, e a tecnologia caminha para que fios se tornem cada vez mais obsoletos. No entanto, a bateria deles ainda dura pouco, não usa material radioativo, e ainda dependemos dos fios. Até o carregador wireless tem fio!

Triunfo da energia nuclear e solar, inclusive coletada no espaço: A energia nuclear ainda é um ponto muito polêmico – vide o desastre em Fukushima, no Japão – por isso boa parte da energia consumida no mundo ainda vem de combustíveis fósseis. Nossa visão para o futuro agora está voltada para fontes renováveis, como a energia eólica e solar, assim como Asimov aponta. No entanto, obter a energia do Sol direto do espaço ainda é um sonho futurista.

Robôs mais espertos, movidos a computadores, porém longe do ideal: Cinquenta anos foi o bastante para criarmos robôs incríveis, como o BigDog e outros da Boston Dynamics, que agem quase como seres vivos. E temos robôs muito bons atuando na indústria, é claro. Existem até robôs sociais, cuidando de idosos no Japão, por exemplo. E eles realmente usam pequenos computadores para receber comandos e realizar ações. No entanto, ainda estamos engatinhando em muitos aspectos da robótica, assim como Asimov previu.

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Veículos autônomos: Veículos que se guiam sozinhos são praticamente uma realidade na aviação. Eles já existiam na época de Asimov: em 1947, um US Air Force C-54 fez um voo transatlântico, incluindo decolagem e pouso, apenas usando o piloto automático. No entanto, o “autopilot” se popularizou, e agora estamos nos esforçando para criar carros que andam sozinhos, como os do Google.

Comida congelada domina a alimentação, mas cozinha ainda tem espaço para preparo manual: Já existiam refeições congeladas na época de Asimov: elas começaram a ganhar espaço na década de 50. Asimov acertou que elas iriam se popularizar. No entanto, elas não substituem a comida feita no fogão, o “pequeno canto” onde são feitas as refeições de forma manual.

Janelas polarizadas: Nos anos 60, foi criada a película para janelas, que escurece quando recebe luz solar. Elas são usadas ao redor do mundo, porém não na escala que Asimov imaginava.

Máquinas fazem trabalhos rotineiros melhor que humanos, e servimos apenas para cuidar das máquinas: Quando um emprego é substituído por um robô, por exemplo, surge a demanda por pessoas que saibam controlá-lo, e que possam fazer sua manutenção. No entanto, ainda estamos longe de uma sociedade que apenas cuida de máquinas, porque a automação ainda não chegou ao ponto que Asimov esperava.

Computação e programação como disciplina nas escolas: Asimov acertou que computadores se tornariam onipresentes o bastante para aprendermos a usá-los na escola. No entanto, ele dizia algo além: previa que nós iríamos aprender a criar código para elas. Quem dera! Ensinar programação deveria mesmo ser obrigatório no ensino médio.

Dispositivos que substituem ou consertam partes do corpo; expectativa de vida em 85 anos; iniciativas para controle de natalidade: Ainda não usamos órgãos artificiais com a frequência que Asimov imaginou, mas estamos rumando a um futuro assim. A medicina também avançou muito nos últimos 50 anos, e fizeram a expectativa de vida aumentar ao redor do mundo. A taxa de fertilidade, por sua vez, também caiu: à medida que as famílias migrara para as cidades, e à medida que as mulheres entraram no mercado de trabalho, muitos decidiram por ter menos filhos. Iniciativas como a Planned Parenthood nos EUA, o limite de um filho por casal na China, e a luta pelo direito ao aborto também surgiram desde a época de Asimov.

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Cozinha que prepara refeições automaticamente: Asimov previu que vários aparelhos tornariam a cozinha mais automática. Nesse sentido, ele acertou: o micro-ondas, por exemplo, só foi lançado em 1967. Ele até cita objetos como a cafeteira automática, lançada em 1972! No entanto, ele ia mais longe, imaginando dispositivos que fariam uma refeição inteira com mínima interação humana. Por exemplo, bastaria programar a cozinha na noite anterior para fazer o café da manhã, e ela o faria automaticamente, fritando ovos e bacon na hora marcada.

Alimentos artificiais vindos de algas e fungos: Tem algo de bastante correto aí. Estamos rumando para comidas totalmente artificiais, como o hambúrguer de laboratório. E sim, existe uma forte resistência à adoção desse tipo de comida.

Onde ele errou

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Casas subterrâneas: Asimov imaginava que os humanos morariam debaixo da terra, deixando a superfície do planeta para a agricultura e parques. Fizemos o contrário: criamos edifícios cada vez mais altos para morar e trabalhar.

Casas subaquáticas: Ainda não estamos habitando os oceanos. Há projetos nesse sentido, mas como mencionamos: estamos morando em edifícios cada vez mais altos, em vez de mais profundos.

Tetos e paredes eletroluminescentes: Essa é uma visão futurista até hoje: transformar todo o ambiente da sua casa através da iluminação. O mais perto que chegamos disso é usando a Philips Hue, lâmpada que muda de cor e pode ser controlada sem fios.

Robôs que limpam toda a casa: Mais uma vez, Asimov imaginava uma casa bastante automatizada, o que não acontece hoje em dia. No máximo temos o Roomba, um robô aspirador que na verdade é pequeno e ágil, mas não é inteligente como previsto há 50 anos.

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Veículos sem contato com a superfície, sobre a terra e a água: Basicamente, Asimov apostava na evolução e popularização de hovercrafts, que flutuam em vez de tocar o chão. Isso não aconteceu.

Calçadas que se movem, elevadas por cima dos veículos: Calçadas que se movem ainda são raridade. Esta ideia foi aplicada a aeroportos e estações de metrô, no entanto.

Colônias na Lua: Os humanos continuam a exploração espacial, e alguns já moram na órbita da Terra – olá, astronautas da ISS! Mas colônias na Lua ainda estão longe de se tornar realidade.

General Electric, feiras mundiais, e filmes 3D: Toda previsão do futuro tem elementos do tempo em que a pessoa vive. Para Asimov, as Feiras Mundiais ainda seriam relevantes hoje em dia, o que não é o caso. (Elas ainda existem, no entanto, e a próxima será na Itália em 2015.) O mesmo pode ser dito sobre a General Electric: ela continua sendo uma empresa gigante, mas não vem à mente quando se trata de inovações futurísticas. E estamos nos livrando do 3D, felizmente!

Compartilhamento de dramas torna redes sociais espaço para terapia virtual

Na busca por ajuda ou mesmo manifestações de amparo, o Facebook se consolida como canal para relatos de episódios negativos, de doenças a perda de animais de estimação

À procura de king: abraçada à mascote Jady, Simone usa perfil no Facebook para tentar encontrar seu outro dachshund, desaparecido há mais de um mês (foto: Carlos Macedo / Agencia RBS)

À procura de king: abraçada à mascote Jady, Simone usa perfil no Facebook para tentar encontrar seu outro dachshund, desaparecido há mais de um mês (foto: Carlos Macedo / Agencia RBS)

Larissa Roso, no Zero Hora

O perfil de Simone Bonilha no Facebook se transformou no diário de uma profunda tristeza nas últimas cinco semanas. “Esse é o meu filhote King que desapareceu! Amigos, por favor me ajudem a encontrar, tá doendo muito ficar sem ele”, escreveu a assistente administrativa de 36 anos em 16 de julho, junto da foto do dachshund que seria compartilhada 158 vezes. Dois dias antes, Simone encontrou caído um pedaço da tela que cerca o pátio da casa, na Restinga, na Capital. Jady, a outra mascote, latia, estranhando a ausência do companheiro.

“Preciso do meu pequeno. Muitooo”, postou Simone. “Para muitos apenas um cachorro, pra mim meu filhote amado. Essa dúvida de onde e como está meu King me destrói…”, acrescentou. Multiplicam-se as mensagens de encorajamento, remetidas até por desconhecidos. “Todas as tempestades passam, mas as árvores que têm raízes fortes e firmes permanecem. Eu faria qualquer coisa pra ver você voltar a sorrir de novo”, escreveu uma amiga. “Fé que ele volta”, aconselhou outro.

— Me sinto acolhida. Sinto que vou encontrar. Minha esperança redobra. Parece que pegam a minha mão — descreve a dona de King, sofrendo com falta de apetite e um sono inquieto.

Dramas diversos circulam nas redes sociais a todo instante. É bem provável que quem desabafa sobre períodos de luto, doenças de longo tratamento, descrença no cenário político, relacionamentos desfeitos, episódios de violência ou o péssimo atendimento no sistema público de saúde encontrará, na numerosa plateia online, alguém capaz de prover palavras de amparo ou, no mínimo, manifestar-se por meio do mais simples mecanismo de solidariedade instantânea, a ferramenta “curtir” do Facebook.

Imersos em situações graves ou enfrentando desgostos mais amenos, os internautas adaptam ao ambiente virtual uma prática essencial para o bem-estar psicológico: falar sobre os próprios problemas. O psicanalista Luciano Mattuella explica que o olhar do outro é fundamental para a constituição de cada um. Ao divulgar imagens de um lugar exótico e distante visitado nas férias, a pessoa busca a confirmação, entre os pares, de que aquele passeio foi mesmo incrível — a oportunidade de compartilhar conquistas com centenas ou milhares de destinatários rapidamente, e de ser festejado por eles, é um dos grandes atrativos das redes sociais. No caso de ocorrências negativas, o intuito é extravasar para encontrar alívio, ainda que superficial.

— É uma tentativa de achar outros na mesma situação. Em situações de tristeza e indignação, a nossa primeira necessidade é compartilhá-las, buscar no outro acolhimento e até algo de esperança: ele conseguiu passar por uma situação como a minha. Ajuda para não ficar solitário no sofrimento. A gente vive numa época em que o virtual adquiriu muita consistência de real — afirma o psicanalista.

Simone norteia os dias pelos acessos ao site. A partir das pistas enviadas, verifica pessoalmente cada suspeita de que o cachorro tenha sido encontrado. Renova os apelos, republicando fotos e promessas de recompensa, e conversa com donos de bichos de estimação perdidos. O sumiço de King, explica, abalou-a ainda mais em um momento de bastante dificuldade.

— Hoje vejo o Facebook de outra maneira. Crio vínculos, consigo me expressar, dizer o que estou sentindo. Se estiver chorando de madrugada e postar qualquer coisa, alguém vai me ajudar — conta a assistente, que confessa ter se sentido um pouco constrangida no início. — Alguém deve dizer: “Coitada, decerto nunca teve filho”. Agora não estou nem aí. Faço. Vou à luta — completa.

Mattuella atenta para a prudência. Ao cogitar narrar mágoas e apuros publicamente, o usuário precisa lembrar que alguns detalhes devem ser preservados:

— Há questões que são do plano íntimo. Nem tudo que é íntimo deve ser compartilhado. Aquilo que é do íntimo deve ser endereçado a alguém que você conhece e sabe que pode ajudá-lo. Algo que faz sofrer é muito particular e, para os outros, pode não ter sentido.

Acolhida deu ânimo à família de Jackson

Acolhida deu ânimo à família de Jackson

Acolhida deu ânimo à família de Jackson

Em meio ao processo judicial para conseguir que o Estado custeasse um marca-passo diafragmático para o filho, a dona de casa Simone Ferreira, 35 anos, e o metalúrgico Jorge Ilario Bottim, 37 anos, moradores de Caxias do Sul, surpreenderam-se com a acolhida de usuários do Facebook ao drama da família. Vítima de um atropelamento em 2010, Jackson Rafael, hoje com oito anos, ficou tetraplégico e dependente de um ventilador mecânico.

Ao dispensar a necessidade de tomadas e extensões, o novo aparelho permitiria que o menino respirasse de forma mais espontânea e ganhasse mobilidade ao ser deslocado com a cadeira de rodas. Simone criou perfis para sensibilizar a população e as autoridades. “Logo estarei ‘livre’, daí sim vou poder ter acesso a uma biblioteca”, escreveu ao publicar uma imagem de Jackson com um título infantil. Junto de outra foto, compartilhada 99 vezes, um convite: “Vamos sorrir para a vida”.

— Ajudou bastante. As pessoas iam compartilhando e comentando. Fui me identificando com outras mães — recorda a dona de casa.

Depois do desfecho positivo, Jackson se submeteu a uma cirurgia para implante do componente interno do marca-passo em abril. Simone segue abastecendo as páginas com registros dos progressos na adaptação. “Viva o Jackson! O sonho se realizando!”, festejou um amigo ao ver uma foto do aluno da 3ª série com o dispositivo que começa a suavizar uma rotina repleta de limitações. “Só temos coisas boas para agradecer”, postou Simone.

— É uma criança feliz — observa a mãe.

A psicóloga Silvia Benetti salienta que é importante se sensibilizar com quem enfrenta traumas, principalmente em um ambiente, como o virtual, onde o êxito profissional, os bens e a beleza são tão expostos e valorizados:

— As pessoas têm tido dificuldade para ouvir o sofrimento do outro. Há uma ditadura da felicidade, mas a vida é difícil. Continue lendo