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20 centavos e o preço das manifestações

Foto: Rafael Lira

Foto: Rafael Lira

Isaac Palma, no Blog do Fale

Invariavelmente, não foram os 20 centavos que nos levaram as ruas de São Paulo, apesar de existirem razões cabíveis para protestar por esses 20 centavos. Definitivamente não são apenas os valores das passagens que tem levado pessoas as ruas, não só em São Paulo, mas em várias cidades do Brasil. Existe algo simbólico em todo levante popular, não significa que o que o Estado fez nunca foi feito, mas que chegou ao nível de ser intolerável, não saímos as ruas por esse último aumento, mas por todos os que tiveram até agora e em um tipo de esperança de que eles não sejam mais uma realidade entre nós, graças a uma indignação constante.

Existe uma distância astronômica, para aqueles que foram as ruas por esses dias pedir pela redução do valor da passagem, entre o valor anterior e esse que o Estado nos presenteou. Se enganam aqueles que acham que esses protestos são sobre transporte público ou mobilidade urbana, eles passam inevitavelmente por isso, mas não são sobre isso. Existe um tanto de revolta não só com o Estado, mas também com toda a Sociedade, e isso obviamente nos inclui, não estamos ali somente pelo que está posto agora, estamos também por todas as nossas omissões anteriores. Estamos ali porque não aguentamos mais ficar parados dizendo que ninguém faz nada, ou que os políticos são corruptos e nada pode mudar isto.

Isaac (esquerda) e Rafael  - Falantes marcando presença nas manifestações. (Foto: Rafael Lira)

Isaac (esquerda) e Rafael – Falantes marcando presença nas
manifestações. (Foto: Rafael Lira)

Entre a Avenida Paulista e a Consolação, nos poucos centímetros quetransformam uma em outra, pisei em 2013 como se pisasse em meados das décadas de 80, época em que os sonhos não descansavam, e que sonhar não era só possível como era necessário. Era como se num lapso de tempo pudesse viver aqueles anos que não vivi como ser humano mas inevitavelmente vivi como Brasileiro. Abandonar nossas distopias cotidianas talvez ainda nos leve tempo, trocar por velhas e (por que não?) novas utopias nos custe esforços que não estamos ainda dispostos. Ver aqueles sonhos de uma nação mais justa serem transformados em ensaios tecnocratas de mentiras mal contadas, talvez tenha sido um baque por demais doloroso em nós, e por isso esse silencio sepulcral, talvez por isso nossas omissões anteriores.

Recordo-me que a mesma cena se repete diversas vezes na história, como o estopim de uma coisa aparentemente insignificante pode se transformar num levante que muda os rumos de países, cidades ou bairros. Relembro a história do Cristo indignado, com os exploradores do povo, dos profetas que não quiseram nem puderam se calar com a hipocrisia daqueles que exploravam os oprimidos. Me identifico com esses sonhadores que vislumbraram outro mundo sobre os escombros daquele que estava a sua frente.

Por fim não podemos ser ingênuos a ponto de acreditar que mudaremos o Brasil de uma hora pra outra, ou que todos temos o mesmo sentimento, que todos os que foram as ruas acreditam nas mesmas coisas, esses movimentos aglutinam forças opostas dentro de si, e isso deve ser ressaltado, mas é justamente na contradição que emana a beleza dessa luta, somos sim contraditórios e múltiplos: plurais. Existem brigas e divisões, mas em comum decidimos Sonhar.

*Isaac Palma é articulador da Rede FALE SP e escreveu esse texto reflexivo a partir da experiência na marcha acontecida no dia 11/06/2013, que uniu mais de 10 mil pessoas nas ruas de São Paulo.

V de Vinagre: Um evangélico no #protestosp

vdevinagre

Moisés Lourenço, especial para o Pavablog

Este é meu depoimento sobre a noite do dia 13/06/2013 e podemos chamar de “A REVOLTA DA SALADA” ou “V DE VINAGRE”, como estão dizendo por aí. Julgue-me:

Nos encontramos em frente ao Teatro Municipal de SP. Protestos com canções e faixas. Nada de violência, muito pelo contrário, havia entre os manifestantes, muita educação sob um clima de protesto e a leveza de estar assegurado pela Lei. A policia, como em qualquer protesto, apenas acompanhava a fim de conter os excessos. Não tiveram problema algum com o ponderado protesto inicial.

Andamos até a praça Roosevelt e a manifestação continuou do mesmo jeito. O povo concentrado na praça. Saí de perto para tentar ligar para uma amiga, no que fui surpreendido com a tropa de choque chegando sorrateiramente bem atrás de mim. Desliguei o celular e saí correndo, gritando para dar tempo de avisar os demais manifestantes. Em questão de segundos, a tropa fez cair sobre a turba, uma nuvem de gás que asfixiou a todos, de modo simultâneo.

Corremos, indo para a outra extremidade da praça. O povo ponderado se transformou pelo caos do terror. Desmaios, aglomeração. A larga praça se tornou estreita para os milhares que tentavam sair da fumaça covarde. Moradores e transeuntes tiveram que fugir pelo mesmo encurralamento dos manifestantes. Vi um idoso de bengala no meio da turba, sendo deixando para trás, aparentemente “calmo”, mas que na verdade, estava “condenado” pela pouca força. Estava condenado a andar devagar, com a preocupação exclusiva de se apoiar na bengala, quando era a hora de correr. Não pude fazer nada, por mais que eu quisesse.

Nos espalhamos pelas ruas da Bela Vista. O coração a mil, a revolta instaurada, o cansaço, as mãos vazias. Fomos brutalmente atacados, munidos apenas de nossas vozes. “Para quê o capacete”, “o vinagre”, “a máscara”?. Bem, você é inteligente. Pense. Todas essas coisas são usadas para se proteger do gás e dos tiros de borrachas. Você pensava que era uma armadura terrorista? O vinagre seria utilizado para declarar uma guerra biológica? Não. O vinagre serve para ajudar contra ataques do gás e para nossa surpresa, a polícia decidiu prender a todos que fosse encontrado com o vinagre, ou seja, a ideia era: “você tem que se asfixiar até desmaiar”.

Uma vez encurralados, aviltados, agredidos, submanizados, reprimidos e privados de seus direitos, o povo tolhido e coagido se defendeu com pau, pedra, lixo queimado e pichação do tipo: “O Estado precisa ouvir o povo”. Ora, o povo estava fazendo um protesto limpo, se ajoelhou, pediu clemência e mesmo levou tiro de borracha nos olhos. Foi obrigado a se defender e revidar. O revide foi quase insignificante perante o ataque da polícia. Éramos indefesos diante da cavalaria, dos tiros e dos gases.

Agora, me responda: você acha que a nossa atitude foi de vandalismo? Se você está sendo atacado por uma brutal e esmagadora força superior, você não pegaria em cabo de vassoura ou saco de lixo? Jornalistas sofreram também, por portarem vinagre e por filmarem. Imaginem o que aconteceu com os manifestantes… a mídia pega a cena da queima do lixo, dos jovens de máscaras ou da pichação, edita com a polícia chegando “depois” e…. bingo. O telespectador chega a conclusão: “nossa, um grupo de vândalos com máscaras está queimando a cidade, ainda bem que a polícia chegou a tempo”. Percebem a inversão nos fatos?

Você pode questionar o motivo do protesto. Se é relevante ou não, uma coisa é certa, é preciso respeitar quem julga relevante a ponto de se reunir para se manifestar. Todos têm direito, não é? “Vadias”, evangélicos, homossexuais, professores, índios, “maconheiros” e etecéteras. A conclusão é que o que aconteceu no dia “13”, assim como em dias anteriores, abre um novo tempo no Brasil, de modo semelhante ao que aconteceu na Turquia, que no dia 31/05/2013, levaram milhares de pessoas a contestar a truculência governamental contra cidadãos que se opunham à derrubada de árvores para a construção de um shopping na Praça Taksim, em Istambul. Esses vinte centavos da tarifa, sairão muito caro.

Outrossim, conclamo a todos a aquecer o mercado brasileiro! Vamos deixar nosso país mais rico! Vamos comprar! Vamos comprar vinagre e desembainhar nas ruas, como se fosse uma espada. Porque o vinagre é a versão da arma química do Iraque.

Saia do Facebook. Isso vai chegar na sua cidade. Se organize e proteste. Prepare-se para correr. Se proteja. Filtre as informações da mídia. Contenha os excessos. Quem sabe, esta revolta expanda e abranja protestos contra a corrupção, contra educação falida, onde estudantes concluem o ensino sem saber ler e escrever direito, contra a saúde, que, por causa da negligência, milhares de pessoas morrem todo ano (você vai marcar uma cirurgia hoje, só que precisa entrar na fila e esperar 6 meses; tempo suficiente para o agravamento e a morte), contra a violência, onde vira “moda” queimar dentistas e etc.

Você não acreditou em nada do que eu disse? Venha comigo. Simples. Venha comigo participar do próximo protesto. Você vai ver outra realidade, completamente diferente da noticiada por parte da mídia brasileira (inclusive, a mídia internacional está sendo mais verdadeira).

Acompanhe a página do Passe Livre.

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Mais fotos aqui.

Após incitar violência em ato, promotor será desligado do Mackenzie

Comentário do promotor no Facebook na noite de sexta-feira (7) durante protesto contra o aumento da tarifa

Comentário do promotor no Facebook na noite de sexta-feira (7) durante protesto contra o aumento da tarifa

Marcelo Almeida, na Folha de S.Paulo

O promotor Rogério Leão Zagallo, que causou polêmica ao escrever um comentário no Facebook pedindo à Tropa de Choque que atirasse contra os manifestantes do Movimento Passe Livre, será desligado da Universidade Mackenzie, onde dá aulas no curso de Direito.

O próprio professor declarou aos seus alunos que não mais fará parte do corpo docente da universidade a partir do próximo semestre. Segundo ele, a universidade decidiu não renovar o seu contrato.

Preso no trânsito durante o protesto da última quinta-feira (6), o promotor escreveu em seu perfil pessoal: “Por favor, alguém poderia avisar a Tropa de Choque que essa região faz parte do meu Tribunal do Júri e que se eles matarem esses filhos da puta eu arquivarei o inquérito policial?”.

Após a repercussão do comentário, Zagallo justificou o seu comentário dizendo que foi um “desabafo” de alguém que estava há muito tempo parado na trânsito e que tinha um filho pequeno a sua espera. Ele disse ainda que a manifestação era legítima e que o comentário sobre o arquivamento de inquérito foi apenas uma “forma de expressão”.

Sobre o comentário do professor Zagallo, a universidade Mackenzie afirmou que mantém uma posição contrária a qualquer tipo de ação que desrespeite a liberdade e incite à violência. A assessoria de imprensa da universidade, no entanto, não confirmou o desligamento do professor Zagallo.

 

‘Beijamos com limites’, diz casal do AM que escolheu ‘esperar casamento’

Casal adepto do ‘Eu Escolhi Esperar’ diz como será o Dia dos Namorados. ”Estamos focados no casamento abrindo mão desse dia”, disse namorado.

Rodrigo e Raquel namoram desde 2010 (Foto: Arquivo pessoal)

Rodrigo e Raquel namoram desde 2010
(Foto: Arquivo pessoal)

Publicado originalmente no G1

O Dia dos Namorados, comemorado nacionalmente no dia 12 de junho, geralmente é relacionado a troca de presentes, carícias, beijos e outras intimidades, mas nem todos comemoram a data dessa forma. O G1 conversou com um casal adepto do movimento ‘Eu Escolhi Esperar’ de Manaus que contou sobre a comemoração mais comportada que pretendem fazer, focada mais no futuro que no presente.

Rodrigo Alexandre de Sousa e Raquel Cristina Mendes namoram desde 2010. Além de nomes compostos, o casal tem em comum a idade (21 anos), a religião evangélica cristã e a vontade de esperar até casar para ter relações sexuais.

Segundo Raquel, a decisão foi imposta antes do namoro. “O período anterior ao namoro foi um tempo de maturidade e de ‘cartas na mesa’, assim, discutimos sobre o que pensamos sobre compromisso sério e casamento, principalmente sobre sexo, algo reservado para o esposo e esposa, mesmo concordando que é uma tarefa difícil”, explicou.

Até o casamento – e isso inclui a comemoração do Dia dos Namorados – os contatos mais intensos são proibidos. “Nós nos beijamos, mas impomos limites, evitando certos contatos mais intensos, que mexem mais com os sentidos, e certos tipos de beijo. O principal é guardar a mente e o coração. Sabemos que não se peca somente por beijos e carícias, mas um pensamento sobre sexo, uma imagem, uma palavra maliciosa pode levar uma pessoa a pecar, e existem inúmeras formas de se perder”, disse Raquel.

Manter a castidade, segundo o casal, não é fácil, mas a vontade de manter essa decisão é maior que qualquer outra. “Não podemos dizer que nunca tivemos vontade de ultrapassar esses limites, mas nas horas difíceis só mesmo Deus pra ajudar e trazer um incômodo. Temos a Bíblia como estilo de vida, nosso corpo é templo do Espírito Santo, e sabemos o que é permitido”, disse a estudante de Urbanismo e Arquitetura.

Focados no futuro, o casal revelou que tem um plano diferente para comemorar a data especial. “Esse dia dos namorados será inesquecível! Estamos focados no casamento, abrindo mão desse dia, pra um dia depois da prova da Ordem dos Advogados”, disse Rodrigo, que está no 9º período da faculdade de Direito.

Apesar de não celebrar a data da forma mais convencional, Rodrigo explica que não importa tanto a maneira como vão celebrar esta data e sim a certeza de que serão namorados para sempre e são o par certo para casar. “Eu descobri que Raquel era a pessoa que Deus havia escolhido para mim após o primeiro ano de namoro quando notei que, ao contrário dos que diziam, que com o tempo a paixão sucumbiria dando lugar a mesmice, nosso relacionamento só melhorava, a maturidade estava mais presente, conversávamos mais, ríamos mais, mas o que mais me fez ter certeza foi a perseverança em cumprir a decisão de se guardar para o casamento!”, concluiu.

Casal conta que comemoração é focada mais no futuro que no presente (Foto: Arquivo pessoal)

Casal conta que comemoração é focada mais no futuro que no presente (Foto: Arquivo pessoal)

A pornografia das frases de efeito

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Publicado por Paulo Brabo

Por mais que eu me esforce, não consigo pensar num fator que tenha contribuído mais para a diluição do impacto da Bíblia, tendo aberto maior brecha para uma leitura tendenciosa da sua mensagem, do que o fato de que um dia alguém achou por bem dividi-la em versículos.

Um livro como a carta de São Paulo aos Efésios, que até aquele momento vinha sendo lido como um todo contínuo e orgânico, acordou no dia seguinte esquartejado de modo inteiramente arbitrário, tendo adquirido a graça e a agradabilidade de leitura de uma planilha do Excel. E nunca mais recuperaram-se da operação: foi retalhado dessa forma que cada livro da Bíblia chegou até nós.

A divisão em versículos teve a infelicidade de nascer mais ou menos ao mesmo tempo em que vinha à luz a tecnologia dos tipos móveis de Gutemberg – e tecnologia significou desde sempre uma coisa: não há erro fortuito que não possa ser reproduzido indefinidamente.

O estrago para a integridade da Bíblia foi enorme e, em grande parte, irreversível. Mesmo diante de um texto corrido temos a tendência eu e você à seleção e à parcialidade. A nova e forjada fragmentação convidava, praticamente exigia, que cada isolada porção do texto bíblico fosse memorizada e entendida fora do seu contexto. No caso da carta aos Efésios, por exemplo, encontraram plenipotenciária consagração entre os protestantes os versos oito e nove do segundo capítulo: porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus; não vem das obras, para que ninguém se glorie – versos a partir nos quais os protestantes fundamentaram sua tese de que a fé é essencial e as boas obras secundárias. Porém a arbitrária divisão em versículos deixou o raciocínio de Paulo para sempre incompleto, seu argumento para sempre suspenso e separado da frase seguinte, que qualifica o que foi dito e introduz uma enorme reviravolta: porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus preparou de antemão para que andássemos nelas.

A divisão em versículos, além de favorecer a leitura seletiva, incentivou a fetichização pura e simples dos textos atingidos por ela, com a consequente anulação do seu significado. Na verdade, os textos sagrados prestam-se particularmente, por sua própria natureza, à fetichização; o retalhamento da Bíblia em versículos apenas acentuou essa tendência e facilitou o processo.

Fetichizar um texto é inflá-lo ao extremo, é recortá-lo e memorizá-lo e emoldurá-lo e reproduzi-lo em letras cada vez maiores até drenar por completo e tornar inacessível o seu significado original: até que as palavras, douradas mas cegas, remetam a tudo e a nada.

Um emblema escandaloso da fetichização da Bíblia promovida pela divisão em versículos é a caixa de promessas (disponível em diversos formatos na livraria evangélica mais próxima de você): uma caixinha cheia de filetes coloridos de papel, cada um contendo um versículo isolado da Bíblia cuidadosamente selecionado para que você, lendo, sinta-se amado, com os flancos cobertos e a prosperidade assegurada. Quando está pra baixo você abre a caixa e puxa uma promessa ao acaso, como quem lê um biscoito da sorte: a satisfação é garantida, ou você pode pedir o seu espírito crítico de volta1.

Cinco séculos se passaram sem grandes novidades, porém é preciso lembrar que as ideias medíocres dos homens dormem, mas não descansam. Ficam em estado letárgico, aguardando que novas tecnologias permitam que arruínem-se as ideias grandes e boas. E, claro, esta é a geração em que esse momento chegou: num espaço de 30 anos, os últimos, o computador eletrônico gerou o computador pessoal, o computador pessoal tomou para si cônjuges e formou a rede local, a rede local teve relações extraconjugais e gerou a internet, e a internet pariu as redes sociais.

Estamos instruídos e capacitados, colonizadores que somos das paisagens virtuais, e o que era impossível é agora inevitável. O twitter nos ensinou a dividir a realidade em porções isoladas de 140 caracteres, e quando a realidade tomba a literatura não tarda a cair. Somos milhões de escribas e amanuenses, inteiramente prontos para versicularizar – converter resolutamente em versículos – toda a literatura mundial, e tabulá-la em trabalho voluntário nos murais sempre-deslizantes das redes sociais. Não há admirador bem-intencionado que não viva saqueando a obra de poetas e romancistas, filósofos e ensaístas, santos e compositores, críticos e humoristas de todas as épocas, esquartejando resignadamente suas ideias de modo a fazê-las caber nos escaninhos do twitter e dos gifs animados. Somos um mundo inteiro de taxidermistas, e não descansaremos até que os melhores e os piores textos do mundo tenham sido reduzidos a frases de efeito e gotas de sabedoria.

Era inevitável: as redes sociais, que vivem da fetichização e da consequente anulação de todas as coisas, não teriam como deixar de sequestrar o poder da literatura. O Facebook, em particular, assumiu o papel de banalizador supremo, drenando a vitalidade de tudo na experiência humana que já teve algum interesse e algum valor. A literatura, aquela velha dama, não escapou dessa indignidade. No mural do seu Facebook alternam-se versos piscantes da Bíblia, frases de Luís Fernando Veríssimo, pensamentos falsamente atribuídos a Shakespeare, provocações de Gandhi, citações de Mia Couto, poemas animados de Casimiro de Abreu, letras de Chico Buarque, pérolas de sabedoria de Abraham Lincoln e papa Francesco e Brennan Manning e Dalai Lama e Martin Luther King e Paulo Coelho e Eugene Peterson e Richard Dawkins e Malba Tahan e Tolstoi e coisas que Shakespeare realmente disse e Diego Mainardi. Tudo devidamente versicularizado, empalhado e fetichizado: pedaços de carne, ao mesmo tempo expostos para a admiração pública e separados do corpo.

Essa, como dizia minha avó, é a hora da queima: a hora da sistemática caixa-de-promessização de tudo neste mundo que já foi belo, humano e sagrado. Fetichizar a Bíblia foi tarefa para amadores; sente-se aí e assista enquanto retalhamos cada página jamais escrita até a desfiguração completa.

Outro dia minha irmã, que está no Facebook, tropeçou ali em imagens coloridas que emolduravam frases inspirativas – praticamente Preciosas Promessas – do Paulo Brabo (mais um motivo para não estar no Facebook, não?). Sendo minha irmã, ela achou meio sinistra aquela tietagem e me escreveu perguntando se não me incomoda saber que coisas que escrevo andam circulando pela net na forma de gotas de sabedoria.

Respondi que sim, claro que me incomoda, mas que ela não devia estranhar por encontrar no Facebook algo que é tão típico do Facebook: a fetichização de uma coisa que em outro lugar talvez fizesse sentido e tivesse o seu valor. E concluí que o que de fato me irrita é pensar que nas redes sociais encontram destino igualmente indigno autores melhores.

Naturalmente, encontro como todo mundo prazer diante de uma ideia magistralmente construída e articulada – digamos, esta de Borges: apaixonar-se é criar uma religião cujo Deus é falível. Ou esta, minha: mil gênios podem não ajudar, mas um idiota faz toda a diferença.

Porém há um mar entre apreciar uma frase na cumplicidade de uma página e reduzi-la a pérola de sabedoria. É, praticamente, a diferença entre fazer amor e ficar excitado diante de uma imagem de sexo que você encontra na internet. Há entre as duas coisas uma relação mais do que casual, e você pode acreditar que nesta vida há espaço para as duas coisas, mas são ventos que falam de destinos diferentes.

  1. A caixa de promessas é também conhecida pelo nome aliterado de Preciosas Promessas; os produtos complementares da mesma linha, Memoráveis MaldiçõesEstressantes Exigências, nunca chegaram a conquistar uma grande fatia de mercado.