‘Facebook é maior perda de tempo que já conheci’

14031786Marion Strecker, na Folha de S. Paulo

Hoje comecei um teste. Decidi experimentar ficar sem o Facebook no meu celular. Se der certo, vou estender o experimento ao iPad e, quem sabe, também ao computador.

Impetuosa, botei o dedo sobre o ícone do aplicativo e esperei ele começar a tremelicar, como é a regra no iPhone. Ele tremelicou. Respirei fundo e apertei o pequeno xis, que simboliza o apagar. Veio o alerta: se apagar o aplicativo, todos os dados serão apagados também.

Que ameaça! Sei bem que não basta apagar o aplicativo para todos os dados pessoais sumirem do Facebook. Isto requer outro tipo de iniciativa. Então por que mentem? O Facebook vai dizer que é coisa da Apple. A Apple pode responder que trabalha com “padrões de mercado”. E a gente que reclame nas redes sociais!

Suponho que esse tipo de ameaça seja apenas um dos maus hábitos da indústria de aplicativos (ou “‘éps”, da abreviatura em inglês “apps”, como os mais pedantes se referem a “software” hoje em dia). Nessa indústria, o número de “usuários” valoriza um negócio, ainda que os “usuários” sejam “inativos”, o que a empresa só vai informar se não tiver como ocultar. Isto me lembra Rubens Ricupero, aquele ministro da Fazenda que, sem saber que o sinal já estava aberto para antenas parabólicas, disse à TV Globo: “O que é bom a gente fatura; o que é ruim, esconde-se!”

O fato é que sumi com o aplicativo do Facebook. Senti uma sensação boa. Aproveitei o entusiasmo e apaguei também os aplicativos do LinkedIn, do Lulu (que instalei para testar e achei simplesmente péssimo) e até do Viber (algo entre o Skype e o WhatsApp). Combinei comigo mesma que vou observar o que acontecerá com as minhas mãos da próxima vez que ficar à toa com o telefone na mão. Será que vou tremer? Será que entrarei na App Store e baixarei tudo de novo? Ou vou me esquecer aos poucos dessa mania de ficar fazendo a ronda na internet, checando as atualizações das redes e esperando reações a cada coisa que publico, nem sei bem por quê?

Sério mesmo: o Facebook é a maior perda de tempo que conheci na vida. Quanto mais amigos eu “faço”, mais me distancio das pessoas que são realmente importantes para mim. A fatalidade é que sempre perco informações de quem me importa no meio da balbúrdia da multidão a que estou conectada.

Quando fiz essa observação outro dia, o engenheiro Luís Villani comentou que eu havia descoberto o “segredo de Tostines”. Evocava a memória de uma velha propaganda de televisão, que explorou o seguinte mote: o biscoito vende mais porque é fresquinho ou é fresquinho porque vende mais? O Facebook é relevante porque estamos conectados a pessoas relevantes ou o Facebook é medíocre porque nossos “amigos” são medíocres? Ou uma rede social teria a capacidade de deixar as pessoas medíocres?

Será que nós, brasileiros, parecemos tão “sociáveis” porque achamos rude não aceitar “pedidos de amizade”? Será que supervalorizamos nossa imagem “popular”, por isso colecionamos conexões como se fossem figurinhas de um álbum da Copa? Vamos fazer o quê? Começar de novo? E por que não?

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Comercial bomba no YouTube ao fazer tempo parar momentos antes de acidente

Publicado no BHAZ

Comercial bomba no YouTube ao fazer tempo “parar” momentos antes de acidente (Reprodução)
Comercial bomba no YouTube ao fazer tempo “parar” momentos antes de acidente (Reprodução)

Um comercial produzido pela Agência de Transporte da Nova Zelândia se transformou em um dos assuntos mais comentados por internautas brasileiros desde que foi publicado no YouTube, no último domingo (5). O vídeo repercute por mostrar o tempo “parando” momentos antes de um acidente envolvendo dois carros.

O objetivo da produção é alertar os motoristas sobre a direção perigosa e a velocidade excessiva nas estradas. Na gravação, os condutores descem dos veículos antes da batida em um cruzamento e conversam a respeito da situação.

“Cara, eu sinto muito. Achei que dava tempo”, diz um dos motoristas. “Eu não vou ter tempo para parar”, responde o outro homem. “Por favor, meu filho está no banco de trás”, implora o condutor. “Estou indo muito rápido. Sinto muito”, lamenta o rapaz que dirige pela rodovia.

Com mais de 300 mil visualizações, o comercial tem sido considerado um dos mais impressionantes já produzidos na Nova Zelândia. Confira:

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Cheguei bem a tempo de ver o palco desabar

Capa_ChegueiBemATempo_3DMarlos Ferreira, no Underdot

O novo livro do jornalista Ricardo Alexandre, “Cheguei bem a tempo de ver o palco desabar” (Arquipélago Editorial, 2013, 256 pgs, R$34,90), me acertou em cheio. Gosto muito de ler sobre música de maneira geral, não somente sobre rock (aliás, meu livro preferido sobre música é “Chega de Saudade”, de Ruy Castro, sobre Bossa Nova), mas no alto dos meus 35 anos este livro em especial aborda exatamente o período da formação do meu gosto musical, e por consequência disso, a própria formação da minha personalidade como adolescente e depois jovem/adulto, sem exageros.

Ricardo trata muito bem do período de ascensão e queda da indústria fonográfica brasileira. De como os milhões de discos vendidos se tornaram milhões de discos pirateados (e também vendidos, porque não?). Um período do qual minha geração sente saudade, pois especialmente nos anos 90 você ligava o rádio e ouvia Pearl Jam, Nirvana, Soundgarden, Raimundos, U2, Oasis, Alice In Chains, Guns N’ Roses etc, porém Ricardo trata de quebrar um pouco esse romantismo e nos lembrar que no biênio 95-96 fomos infernizados por “Pimpolho”, do Art Popular, “Florentina”, de Tiririca, “Na Boquinha da garrafa”, da Companhia do Pagode, “Xô Satanás”, do Asa de Águia” e “Dança da cordinha” do É o Tchan.

Desde a construção da carreira do Skank, às expectativas frustradas (e hoje supervalorizadas) de Chico Science, do surgimento do Planet Hemp, Raimundos e O Rappa (e seu idealismo barato), à luta pela sobrevivência das bandas de médio porte em um mercado alternativo dentro de um estilo que nunca foi realmente de massa no Brasil, da explosão dos Mamonas Assassinas à reclusão dos Racionais MC’s, das características locais das cenas de Recife e Porto Alegre, ao surgimento dos festivais independentes em vários estados, do momento em que o Brasil se tornou a bola da vez para todas as grandes gravadoras multinacionais ao momento em que todo mundo se tornou independente, Ricardo vai documentando tudo com os olhos de quem viu por dentro, mesmo sentindo-se um estranho em diversas ocasiões. Dentro de estúdios, de escritórios de gravadoras, de redações de jornais e revistas de música, de bastidores de shows e festivais.

A importância da MTV em seus primeiros anos, os altos e baixos do

O jornalista Ricardo Alexandre
O jornalista Ricardo Alexandre

mercado fonográfico brasileiro, as estratégias das gravadoras, o jabá pago que as rádios toquem determinados artistas, a quebradeira das lojas de discos que começou justamente no momento de superaquecimento das vendas de CDs no Brasil, o impacto do surgimento da internet tanto para os artistas quanto para a imprensa e, principalmente, para as gravadoras, em capítulos curtos Ricardo nos apresenta vários recortes que se completam, ao mesmo tempo vai revelando os dilemas e motivações da construção da sua própria carreira como jornalista.

Todos os textos já haviam sido publicados anteriormente no blog do autor, mas juntos eles ganham mais coesão, mais sentido. Na medida em que avançamos os capítulos um tom de melancolia vai tomando conta. O rock vai perdendo sua importância e espaço, devorado pela extrema popularização que é o aparelho de respiração que ainda mantém a indústria fonográfica, a música torna-se apenas uma forma a mais de entretenimento. Com este esvaziamento de ideologias, não somente o mercado fonográfico sente o baque, mas toda uma indústria editorial vai tristemente se desmanchando, a MTV vai se descaracterizando, rádios-rock Brasil afora vão fechando (ou mudando seu público-alvo) revistas especializadas e cadernos dedicados à cultura pop vão sumindo das bancas e dos jornais, e este processo está documentado no livro. Várias páginas são dedicadas às idas e vindas da revista Bizz, da qual fui leitor, colecionador e da qual até hoje guardo alguns exemplares históricos.

Dois capítulos em especial tratam da relação do autor com o mercado gospel, e, porque não, da sua fé Cristã. Um episódio envolvendo a banda Catedral onde uma manchete mal intencionada causou dor de cabeça à banda e apresentou a Ricardo o mercado gospel, suas regras e sua hipocrisia, e um (no melhor capítulo do livro em minha opinião) a respeito de Rodolfo Abrantes, sua ruptura com os Raimundos, tudo que ele abriu mão, sua tentativa de falar com o público religioso e secular ao mesmo tempo, e a posterior guinada de Rodolfo para dentro da igreja.

Ricardo registra o último momento em que duas canções representativas e legítimas do rock fazem sucesso realmente grande no Brasil: Mulher de Fases (Raimundos) e Anna Julia (Los Hermanos) e lá se vão 14 anos. Para ser historicamente correto, Ricardo cita casos mais recentes como CPM22 e NXZero dentro de sua devida importância, ou seja, nenhuma, e guarda uma ponta de carinho e esperança para a baiana Pitty.

Está bem claro que o livro é apenas um parêntese, não trata da música brasileira como um todo, nem faz muitas referências ao passado (a década de 80 já está muito bem documentada em outro livro do mesmo autor: Dias de Luta), além do subtítulo (50 causos e memórias do rock brasileiro (1993-2008)), em algumas passagens do livro explicam a concentração do autor no rock e num período específico, ainda assim há omissões importantes, principalmente o Sepultura, e em certa altura do livro Ricardo concentra-se nas perturbadas relações da imprensa musical com o mercado editorial, o que pode interessar a (e colocar uma pulga atrás da orelha de) quem ainda pense em estudar Jornalismo, mas interessa menos ao fã de música. Porém, ajuda muito a entender os caminhos e descaminhos que este estilo percorreu no Brasil nas últimas décadas, e porque ele, após um considerável brilho nos anos 80 tenha se apagado quase que totalmente nos anos 2000. Onde foi que o rock brasileiro se perdeu? A resposta é: ele nunca se achou.

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Nas UPPs, uma geração em busca do tempo perdido

UPP do São Carlos é uma das 36 na cidade do Rio Agência O Globo / Luiz Ackermann
UPP do São Carlos é uma das 36 na cidade do Rio Agência O Globo / Luiz Ackermann

Ludmilla de Lima em O Globo

RIO – Eles são a geração UPP, mas ainda não deixaram de ser “Nem-Nem”. Mais de um quarto dos jovens de favelas pacificadas do Rio — entre 15 e 29 anos — nem estuda nem trabalha. E, à medida que a idade avança, a situação piora. Entre os que têm de 18 a 29 anos, esse total pula para 34%, como mostra a Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan) na pesquisa “Somos os jovens das UPPs”. No levantamento, foram entrevistados 1.652 moradores (de 15 a 29 anos), de junho a novembro deste ano, das comunidades de Vidigal; Coroa, Fallet e Fogueteiro (do complexo do Cosme Velho), Prazeres e Escondidinho (em Santa Teresa); São Carlos; Manguinhos e Mangueira.

Como foi dividida em faixas etárias, a pesquisa revela uma trajetória comum a muitos moradores de favelas: a dos adolescentes que não conseguem manter um vínculo com a escola e, sem formação adequada nem projeto de carreira, acabam não se firmando no mercado de trabalho. Há casos também em que, no meio do caminho, eles abrem mão da vida escolar e da possibilidade de uma profissão por causa da chegada precoce de um filho. A Firjan constatou que as meninas formam a maioria da geração “Nem-Nem”, como já identificara o IBGE: 36% de todas as entrevistadas não têm emprego nem estão nos bancos escolares, enquanto o percentual de garotos que se encaixam nesse perfil é de 16%.

Grande parte das jovens mulheres (48%) que interromperam os estudos alega que o motivo foi o nascimento de um filho. No caso dos meninos, apenas 5,2% dão a mesma justificativa. Eles dizem ter deixado a escola, principalmente, por ter decidido trabalhar (48,5%). Já para elas, o trabalho aparece em segundo lugar (com 24,1%) entre as razões.

Moradora do Cantagalo, Ana Cristina de Jesus é um caso clássico de adolescente que engravidou e acabou trocando o caderno e os livros pelas fraldas e mamadeiras. Aos 26 anos e mãe de quatro meninas, ela tenta recuperar o tempo perdido e concluir o ensino médio.

— Quando tive meu primeiro filho precisei parar de estudar. Eu era muito nova, tinha 13 anos, e ela nasceu prematura. Preferi não deixar a neném aos cuidados de outras pessoas, mesmo sendo da família. Eu gostava de estudar, tirava notas boas, tinha passado para a 6ª série. Depois tive outra filha e fiquei um bom tempo sem estudar — lembra Ana Cristina, que só pôde terminar o ensino fundamental aos 21 anos, após a terceira filha.

Agora com a quarta filha, de 2 anos, ela resolveu voltar para os bancos escolares porque hoje, reconhece, qualquer emprego exige o ensino médio. Ana Cristina ainda faz um curso particular para auxiliar de dentista. Sem emprego formal, ela trabalha por conta própria, a domicílio, como manicure e depiladora.

Educação e emprego como objetos de desejo

A gerente de pesquisas do Sistema Firjan, Hilda Alves, diz que a pesquisa ajuda a explicar a dificuldade de moradores de favela com o mercado de trabalho, diretamente relacionada à trajetória instável no campo da educação.

— Aos 15 anos, esses jovens estão estudando, mas já pararam algumas vezes ou repetiram de ano. Há dificuldades para levar a escola adiante — afirma Hilda.

A evasão escolar detectada não significa que os jovens dessas comunidades tenham total desinteresse pelo aprendizado. O discurso é favorável à escola, o que é provado em números: 94% valorizam a conclusão do ensino médio, 74% dizem que a chegada a essa etapa representa mais conhecimento e 41% acreditam que o colégio prepara para o trabalho. Por outro lado, 51% sentem a falta de um curso profissionalizante. Fazer uma faculdade é um sonho de 49%.

Apesar do retrato preocupante mostrado pela Firjan, também há avanços. Em comparação com o histórico escolar dos pais, os jovens pesquisados mostram que foram além da geração anterior. A parcela de maiores de 21 anos com ensino médio completo é de 48%, enquanto somente 14% dos pais e 16% da mães chegaram até lá. Outro dado otimista é em relação aos que conseguiram entrar para a faculdade: se apenas 3% dos pais pisaram numa universidade, 12% dos entrevistados maiores de 21 anos conquistaram uma vaga no ensino superior.

84% esperam ganhos maiores

Ana Cristina de Jesus é uma que pode dizer que avançou em relação aos pais. A mãe é analfabeta e o pai foi até a 3ª série. Dividindo-se entre marido, quatro filhas, o trabalho e os estudos, a moradora do Cantagalo imagina um futuro melhor:

— Ainda não parei para pensar no que vou fazer. Posso fazer uma faculdade na área odontológica, que gosto muito. Obstáculos sempre existirão em tudo, mas basta querer. Tenho muita força de vontade e acredito que o ensino é importante.

As ideias dela refletem o clima geral de esperança entre os jovens. Nada menos que 84% têm expectativas de uma vida melhor do que a de seus pais.

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Lições tardias para um coração ávido

Melting_Clock09Ricardo Gondim

O tempo tudo destrói. A poeira da história, tangida pelo fluir inevitável do tempo, cobre tudo. Na mitologia, Kronos, um titã, devorava os filhos. Depois de séculos, impérios outrora avassaladores, enchem os atuais alunos secundaristas de tédio. Napoleão virou nome de cachorro. Exércitos desapareceram. Templos magníficos hoje não passam de escombros. Livros importantes jazem nas bibliotecas. Nós também passaremos.

Vergílio Ferreira, escritor português, percebeu que tratados escritos sobre infância, juventude e idade adulta se fala de ir. Vai-se aonde? - pergunta. Ao futuro- responde.  Que futuro nos aguarda? Vergílio Ferreira conclui: esse tal “ir” é rumar para a velhice. E quando lá chegarmos, velhice é estar. De fato, velhice é o estágio em que gastamos o resto da nossa vida. Existencialmente, não sobram muitas opções: ou se morre cedo, como Camelot, ou se enfrenta a decrepitude. Desejos, sonhos e ambições nos impulsionam a caminhar. Rumamos, todavia, a um porvir que nos desfará em nada.

Embora não seja oficialmente idoso – ainda faltam alguns anos -, começo a me preparar para os derradeiros dias. Não pretendo viver a próxima etapa da existência, comendo o sobejo dos bons tempos já vividos. Reafirmo uma antiga crença: ninguém é velho enquanto estiver disposto a aprender. Na madureza, almejo continuar flexível. Quero sugar todo o conhecimento que puder. Sem nunca parar de repetir: Só sei que nada sei.

Treino despojar-me de falsas onipotências. Já confiei demais na própria capacidade de ordenar a vida. Imaginei certas convicções e práticas – principalmente as religiosas – capazes de me resguardar contra decepções, tristezas e contrapés. Contudo, como bem poetizou Chico Buarque, veio a Roda Viva e carregou o destino pra lá. Muitos dos meus pesares foram vãos, desnecessários. Tolo, superestimei a capacidade de aliviar o risco de viver. Arranhei a alma porque acreditei na possibilidade de blindar o corpo.

Abracei a mensagem religiosa que promete engrenar o cotidiano, garantindo vitória sobre vitória. Me esforcei ao máximo. Caso obedecesse regras, leis, preceitos, eu me livraria das dores que afligem tantas pessoas. Eu buscava a pureza espiritual que me abençoaria com um dia-a-dia protegido. Se fosse santo, viveria em estado nirvânico – na mais pura felicidade.

Depois de vários tombos, inúmeras bobagens, enormes desapontamentos e grandes decepções, acordei: a vida não se deixa encabrestar. Notei que nunca consegui alcançar a tal perfeição. Nessa busca, eu só me atolei na culpa – oprimido por um Superego cada vez mais gigante. Precisei criar espelhos distorcidos. A imagem que enxergava devia ser maior do que eu mesmo. Se a juventude engana e a meia-idade consegue ser um pouco mais coerente, a velhice se torna brutalmente honesta – ela nos esvazia dos delírios narcísicos.

Devido a minha sede de onipotência, idealizei auditórios. Acreditei na força da minha oratória. Eu me achava capaz não só de convencer como de arrebatar as multidões. Nas longas horas em que preparei sermões, pedi uma unção que me transformaria na extensão concreta e absoluta do próprio Deus. Eu não admitia ineficiência. Ambicionava converter indivíduos, transformar realidades e revolucionar o mundo. Confundi talento natural com eleição. Acabei inebriado com o meu discurso. Quando os meus cabelos começaram a pratear, dei-me conta: vários meninos e meninas da minha comunidade haviam desistido da fé; eu tinha sido chutado e espezinhado por colegas de ministério. Sofri. Toda a minha eloquência se mostrou, inapelavelmente, frágil.

Por me sentir um Atlas – com a responsabilidade de carregar o mundo nas costas – , raramente me permiti viver. Evitei alegrias e desperdicei momentos bonitos porque não os considerava úteis para o avanço da missão. Eu admitia o lazer caso servisse para me recompor, manter o vigor e me devolver ao trabalho. Poesia, nem pensar. Para minha vergonha, repeti inúmeras vezes que poesia não ajuda a argumentar.

Contentava-me em encaixar algum passeio na viagem missionária – com remorso. Celebrava o convite para falar em uma conferência, pela excelente ocasião de tirar uns poucos dias de férias. O correr dos anos minou esse ativismo messiânico. Agora aprendo a cantar com Almir Sater: Ando devagar porque já tive pressa/ E levo esse sorriso/porque já chorei demais/ Hoje me sinto mais forte,/ mais feliz quem sabe/ Eu só levo a certeza de que/ muito pouco eu sei, eu nada sei.

Minhas despedidas foram trágicas, os lutos, inconsoláveis e as decepções, amargas. Capitulei. Aceitei que a vida é frágil. Reconheci: não sou auto-suficiente. Ao confirmar a minha debilidade, reaprendi a ser grato. Gratidão nasce de uma memória modesta.

Pretendo seguir o restante da jornada com menos pretensão. Sem outros arroubos, quero conviver com as minhas frágeis intuições. Espero saber me gloriar nas fraquezas, nunca nos desempenhos. Anseio desvendar a beleza da confissão de Paulo: Porque, quando sou fraco, então é que sou forte (2Co 12.10).

Já dou de ombros ao imperativo religioso de superar a minha humanidade. Começo a reconhecer limites. Não sou anjo. Não me considero um conquistador das utopias – eu as guardo apenas como alavancas para novas iniciativas.

O tempo tudo desgasta. Paradoxalmente, o tempo avivou em mim a afirmação milenar do profeta: Ele te declarou, ó homem, o que é bom, e que é o que o Senhor pede de ti, senão que pratiques a justiça, e ames a misericórdia, e andes humildemente com o teu Deus – [Miqueias 6.8].

Soli Deo Gloria

fonte: site do Ricardo Gondim

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