‘Tivemos travesti que hoje é casado e tem filhos’, diz diretor de ONG

Clínica cristã em Minas diz que já atendeu quatro mil homens

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O diretor e ex-usuário de drogas Hernan Benfica, prefere evitar pacientes homosexuais O Globo / Hans von Manteuffel

Publicado no O Globo

Com a promessa de “tratar a homossexualidade” e o vício em álcool e drogas, ao longo dos dez anos de sua fundação, completados em junho, a ONG cristã Ele Clama, em Contagem, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, informa ter atendido mais de 4.000 homens, a maioria moradores de rua idosos e jovens viciados em crack e cocaína. Na última semana, O GLOBO visitou a comunidade e constatou as ofertas, que incluem a “cura” para gays.

Responsável pela coordenação geral da entidade, Gilberto Santos afirmou que até um travesti mudou de vida após uma temporada no local:

— Nós tratamos de tudo, do viciado em droga até aqueles quem têm desvio de comportamento e de caráter. Tivemos aqui um caso de um travesti que tinha até peito de silicone. Hoje essa pessoa está casada e tem filhos.

Atualmente, disse Santos, só um interno demonstra “trejeitos” de gay:

— A questão da homossexualidade a gente vai percebendo no dia a dia. Tem um aluno que notamos algo de estranho. Ele acabou abrindo o jogo. Disse que já teve relacionamento com outro homem, mas que sofria muito com isso. Percebemos que ele frequentava a academia só para ficar vendo os outros alunos. A gente chegou perto e deu uns toques para ele evitar o desejo carnal.

Sem contar com profissionais para acompanhamento médico e psicológico, a comunidade faz os tratamentos com base em fé, obediência e respeito aos fundamentos do cristianismo.

— O evangelho pode mudar a vida de qualquer pessoa — disse o coordenador da ONG, que já tem filial em Maués, no Amazonas, e Angra dos Reis, no Rio.

Só uma técnica de enfermagem voluntária auxilia nos trabalhos. De acordo com Santos, a entidade mantinha um convênio com a prefeitura de Contagem, que não foi prorrogado no fim de 2012. A fonte de renda vem supostamente de doações e do comércio dos produtos fabricados no local. A entidade conta com 31 internos.

Em Minas, são três unidades Ele Clama: um sítio para acolhimento na Serra da Moeda, em Nova Lima, e duas chácaras em Contagem, que contam com fábricas de vassouras, marcenaria, padaria e uma confecção onde os abrigados podem trabalhar. Fundador da entidade, o ex-jogador de basquete Carlos Eduardo Braga, o Kaká, que já foi campeão carioca juvenil pelo Tijuca Tênis Clube, foi procurado por telefone e por meio de sua assessoria de marketing, mas não retornou aos pedidos de entrevista. Por e-mail, uma assessora disse que ele está na comunidade de Maués, onde a “comunicação é precária”.

Em Jaboatão dos Guararapes, na Região Metropolitana de Recife, a Instituição Social Manassés abriga 40 internos com dependência química. Segundo o Conselho Federal de Psicologia, lá “os homossexuais são evitados, mas, quando aceitos, recebem trabalho para alterar a orientação sexual”. O coordenador da Manassés, Herman Benfica, disse que respeita opções sexuais, mas que, em princípio, rejeita pacientes gays.

— A gente não pode mudar o sexo de ninguém. Se ele quer ser gay, tenho que respeitar a opção dele. Mas, aqui, ele vai ouvir a pregação da Bíblia. Se vai se sentir incomodado, o problema é dele — disse Benfica, aluno de Psicologia na Faculdade Guararapes. — Já passaram milhares de pacientes por aqui. Mas preferimos rejeitar os homossexuais. Temos 40 homens que estão tentando se curar do vício. Eles participam de atividades de manutenção da casa, de lazer e de três cultos por dia. Se colocarmos um homossexual, desestrutura tudo. Não permitimos essas práticas na clínica, que é evangélica. Agora, se algum paciente homossexual aceitar as normas da casa, poderemos recebê-lo. Se vai se libertar da homossexualidade vai depender dele.

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Se Deus quiser, o Brasil ainda terá um presidente ateu

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Publicado por Leonardo Sakamoto

Em resposta à Mônica Bergamo, na Folha de S.Paulo deste domingo (21), o bispo Robson Rodovalho, líder da igreja “Sara Nossa Terra”, afirma que acredita ser natural o país ter um evangélico na Presidência da República no futuro.

Se não me falha a memória, o Brasil teve seu primeiro presidente protestante na figura do presbiteriano Café Filho, que assumiu o país por pouco mais de um ano após o suicídio de Getúlio Vargas, não tendo sido eleito para a função. O ditador Ernesto Geisel era luterano, mas também não foi eleito pelo voto popular. A grande novidade seria um governante protestante que fosse evangélico neopentecostal e suas liturgias da prosperidade e da cura.

O número de católicos cai (de 63%, em 2010, para 57%, hoje, segundo o Datafolha) e o de evangélicos não apenas cresce em número (de 24% para 28%), mas também em presença na política partidária. Marina Silva, membro da Assembleia de Deus, hoje está em segundo lugar nas pesquisas de intenção de votos para a eleição presidencial no ano que vem.

E, se por um lado, há parlamentares evangélicos que vociferam contra a dignidade humana, mas outros que atuam na defesa dos direitos das minorias, mesmo nos casos em que há conflito com sua religião. Da mesma forma que ocorre com muitos católicos.

Além do mais, no fundo, isso não tem importado muito. Uma vez chegando ao poder, independentemente de sua crença, políticos atendem às demandas de grupos religiosos conservadores com vistas à chamada governabilidade ou visando às eleições. Por exemplo, o combate à homofobia através da educação avançou pouco na atual administração federal, menos por conta da pressão de deputados da bancada evangélica e mais por esse cálculo político.

A pesquisa Datafolha, deste domingo, mostra que os católicos podem ser menos conservadores que os evangélicos em alguns temas (como a adoção por casais do mesmo sexo), mas ainda assim, na resultante final, a nossa sociedade não se coloca de forma progressista com relação aos direitos individuais.

Particularmente, ficarei chocado no momento em que o Brasil eleger um presidente declaradamente ateu que não precise esconder isso de seu eleitor com medo que o seu caráter seja, estupidamente, julgado por conta disso.

(Tenho certeza que FHC e Dilma são, no máximo, agnósticos não-praticantes. Mas tiveram que ajoelhar e dizer amém. E o agnóstico Getúlio Vargas, que tomara o poder através de um golpe, instituiu o ensino religioso nas escolas públicas, em 1931, em nome da governabilidade.)

O fato é que o Brasil aceitaria mais facilmente alguém que acredita em Deus mesmo com uma fé diferente da sua do que alguém não acredita ou não tem certeza disso.

No dia em que isso ocorrer, creio que atingiremos a maturidade como democracia. Não porque ateus são melhores, longe disso. Mas pelo fato de que teremos compreendido que, se o governante zelar pela dignidade e igualdade de direitos de todas as crenças, sua fé pessoal é tão importante quanto o time de futebol pelo qual torce.

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Líder da igreja Sara Nossa Terra aposta que o Brasil ainda terá um presidente evangélico

O bispo Robson Rodovalho em templo da igreja Sara Nossa Terra em Brasília
O bispo Robson Rodovalho em templo da igreja Sara Nossa Terra em Brasília

Anna Virginia Balloussier, na Folha de S.Paulo

“O DINHEIRO & VOCÊ” –o título do livro aparece assim mesmo, em maiúsculas. A capa é ilustrada com notas de R$ 50 e R$ 100, pilhas de moedas e o nome do autor: bispo Robson Rodovalho, 57.

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“Descubra os segredos espirituais, emocionais e práticos para adquirir riquezas”, ele promete na publicação, lançada na Feira Internacional Cristã, da Geo Eventos, empresa da Globo. Rodovalho esteve lá na quarta e posou ao lado do pastor Silas Malafaia, com quem agitou uma manifestação em Brasília, “pela vida”, em junho.

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O líder da igreja neopentecostal Sara Nossa Terra conta que, ao “estudar a origem do dinheiro”, percebeu que lidava com “um bem que já tramitava no meio dos anjos, [pois] Lúcifer tinha, antes da queda, algum tipo de comércio”.

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Bandeja na mão, uma secretária entra com cafezinhos na sala onde ele conversa com Anna Virginia Balloussier, na sede da igreja. Ainda é cedo, e o prédio de dois andares (mais subsolo) na rua Augusta (lado Jardins), em São Paulo, está fechado com aquelas portas de aço típicas de algum tipo de comércio.

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As salas são separadas por divisórias beges. Dentro de uma delas, Rodovalho diz ter uma “visão administrativa” para a igreja. “Apliquei um princípio de gestão moderno.”

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A Sara ficou conhecida no começo dos anos 2000 por atrair famosos como Baby do Brasil, Monique Evans, Leila Lopes e Rodolfo, ex-vocalista da banda Raimundos (todos já fora da igreja; Leila, morta em 2009). Mais recentemente, já foram a cultos a atriz Deborah Secco, Ana Cláudia Rocha (mulher do empresário Flávio Rocha, da Riachuelo) e Letícia Weber, namorada de Aécio Neves.

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O líder atribui o sucesso nas classes A e B a uma “identificação natural com o traço intelectual” de sua congregação. “Os afins se atraem, né?” Ele se apresenta como “professor, físico e empresário” –bispo, só “de coração”.

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Não vê a atividade como profissão. Por isso, diz, não dá salário (só ajuda de custo, de R$ 1.500 a R$ 5.000) para os cerca de 3.500 pastores, “todos com curso universitário”, que atendem nas 1.050 unidades da Sara no Brasil.

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O bispo também está na crista da onda quântica. Físico formado pela Universidade Federal de Goiás, ele põe fé na ciência e lançou, no começo do mês, um livro para defender que espiritualidade e pensamento científico frequentem o mesmo lado do balcão.

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Em duas horas de conversa, ele fala com intimidade de Albert Einstein e usa termos como “postulados de Planck” (físico que inaugurou a quântica, em 1900) para fenômenos associados à religião. Já ensinou a disciplina na Universidade Federal de Goiás. Os alunos, conta, não estranhavam. “Viram que você pode ser pastor sem ter uma cabeça dogmática.”

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Está com paletó preto (aberto), blusa branca por baixo (gola e punho se destacam) e sapato de couro marrom. Comparado a outras lideranças, Rodovalho é mais diplomático e discreto. Não fez os confessos implantes de cabelo de Malafaia nem usa chapéu de vaqueiro como o apóstolo Valdemiro Santiago –tampouco parece inatingível como o bispo Edir Macedo.

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As bandeiras, contudo, são as mesmas. Ele defende “os direitos civis”, mas critica o casamento gay (“não se muda o que é natural, mulher foi feita para procriar com o esperma do homem”). E acha que o projeto de lei 122, de combate à homofobia, “era extremamente discriminatório” ao proibir pregações antigays nas igrejas.

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“Falei mês passado, num seminário conduzido por Jean Wyllys [deputado federal que defende os direitos dos homossexuais], a uma plateia só de gays: ‘Gente, vocês têm liberdade graças a um país cristão, tolerante. Agradeçam ao cristianismo, base da democracia’.”

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Como outros evangélicos, também aponta preconceito na forma como a imprensa lida com o dízimo. “Acho que são mais guerras de segmentos. A mídia não é inocente, está a serviço do capital.”

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No site da Sara Nossa Terra, a animação de uma abelha com sardas e bochecha rosada convida: “Clique aqui para doar” (mínimo de R$ 30).

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Ao lado de sua mesa está uma intocada caixinha com água de coco industrializada. Antes, fosse vodca ou água de coco, tanto fazia para o jovem Rodovalho, filho e neto de plantadores de soja “de médio porte” em Anápolis (GO), onde nasceu.

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Numa pós-hippie “vida de adolescente, de gente perdida, sem orientação”, consumia de tudo um pouco. “Maconha, muito álcool… A gente fazia chá de cogumelo.” Coloca duas colheres de açúcar em seu chá atual –hortelã–, servido numa xícara branca com desenho de flor, e segue: “Andava com um revólver, calibre 38, na cintura”.

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Um dia, ainda na adolescência, a tragédia. Estava caçando com outro rapaz, espingarda na mão. “A arma disparou, o pai dele estava atrás, o tiro pegou nele.” O homem morreu. Não houve processo legal. Mas Rodovalho sentiu “muito desespero” e pouco conforto na religião da mãe, espírita (na fazenda eram frequentes rituais com sacrifício de aves e bodes). Aos 15 anos, ingressou na Igreja Presbiteriana. “A única coisa que eu sabia é que era muito bom ler a Bíblia e muito gostoso orar. Ah, não precisava de droga, de bebida, de nada.”

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Há 21 anos, mudou-se para Brasília e fundou a Sara Nossa Terra –hoje liderada por ele e pela mulher, a bispa Maria Lúcia. Eles têm três filhos e cinco netos.

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Foi deputado federal, pelo DEM. Apresentou projetos solicitando da criação do Dia do Bombeiro à proibição do uso de documentos psicografados como prova judicial. Aprovou leis como a que permite o uso da Lei Rouanet para a música gospel.

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Seu gabinete em Brasília, todo de vidro, chamou a atenção do deputado Clodovil. Imita o colega, morto em 2009: “Rodovalho, você é o único que me dá atenção”. Após “uma decepção forte”, ele diz ter desistido da vida parlamentar. Apoiou a eleição de Dilma Rousseff “porque o país foi dirigido pela direita a vida inteira”. E responde que, sim, um dia o Brasil terá um presidente evangélico. “É natural, né?”

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Hoje se dedica à carreira artística -ele é cantor gospel, tem rádios e uma rede de TV, a Gênesis. É intérprete de canções como “Fogo e Paixão”. Enquanto Wando falava de “raio, estrela e luar”, o pop de Rodovalho homenageia Jesus, “raio de alegria que veio me encontrar”. A família vive entre Brasília e o apartamento de Perdizes, em SP.

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Em 2012, fechou contrato com a Som Livre, gravadora da Globo, e visitou o Projac com uma trupe de pastores, escoltado por Amauri Soares, então coordenador dos projetos especiais da emissora. Acompanhou a gravação da novela “Salve Jorge”.

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“No final dessa novela, mandaram um torpedinho pra mim: ‘O último capítulo tem uma surpresa’.” Uma das vilãs se redimiu virando evangélica, assim como a Carminha em “Avenida Brasil”.

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Antes, “quando [a Globo] se lembrava de evangélicos, era sempre caricatura de outro mundo, uma pessoa muito fanática, meio ET”.

O bispo Robson Rodovalho entrega um exemplar do livro "Ciência e Fé: O Reencontro pela Física Quântica" ao governador Geraldo Alckmin (PSDB-SP) foto: Marlene Bergamo/Folhapress
O bispo Robson Rodovalho entrega um exemplar do livro “Ciência e Fé: O Reencontro pela Física Quântica” ao governador Geraldo Alckmin (PSDB-SP) foto: Marlene Bergamo/Folhapress

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‘Papa irá conclamar governos a escutar as ruas’, diz Leonardo Boff

“Há uma primavera prometida para a Igreja, depois de um inverno rigoroso”

Guilherme Balza, no UOL

O teólogo e professor Leonardo Boff (foto: Júlio César Guimarães/UOL)
O teólogo e professor Leonardo Boff (foto: Júlio César Guimarães/UOL)

O teólogo, escritor e professor Leonardo Boff,74, deixou de lado o pessimismo com os rumos da Igreja Católica que marcaram suas análises durante os pontificados de João Paulo 2º e Bento 16. Desde a ascensão de Francisco, o teólogo, que foi membro da Ordem dos Frades Menores, os Franciscanos, passou a cultivar esperança com o futuro da Igreja.

Boff, que nos próximos dias lançará o livro “Francisco de Assis e Francisco de Roma”, acredita que o novo pontífice colocará a Igreja ao lado dos pobres, aproximando-se do dos preceitos da Teologia da Libertação, movimento que reformulou a atuação da Igreja na América Latina e do qual Boff é um dos maiores expoentes.

Em entrevista ao UOL, o teólogo afirmou que Francisco irá, durante a Jornada Mundial da Juventude do Rio de Janeiro, que começa na próxima segunda-feira (22), “conclamar os governos a escutar as ruas” e indicará “as linhas básicas que darão a tônica de seu pontificado”. Ele também revelou que o pontífice tem ligações estreitas com a tendência argentina da Teologia da Libertação.

UOL – Qual é o significado da Jornada Mundial da Juventude para a Igreja Católica?
Leonardo Boff -
A intenção originária, de João Paulo 2º e Bento 16, era dar visibilidade à Igreja Católica. Com o processo de secularização, o sagrado na Igreja ficou restrito às imagens. A outra dimensão é de dar mais visibilidade à Igreja e ao cristianismo. O papa Francisco vai ter uma visão mais aberta. Ele coloca o acento não na Igreja, mas nos povos do mundo. Ele enfatiza que Deus é de todos, não só dos católicos.

O papa admite que a Igreja e todos nós estamos confusos sobre o caminho da humanidade, mas temos que cuidar da terra, de um dos outros, caso contrário vamos ao encontro de uma grande catástrofe. Ele procura descobrir como o cristianismo pode ajudar a evitar essa catástrofe.

UOL – Como acha que ele lidará caso haja protestos durante a visita ao Rio?
Leonardo Boff -
Ele vai fazer uma conclamação para os governos escutarem as ruas, escutarem os jovens. As causas deles são verdadeiras, e os governos têm de escutá-los. Eles reclamam por mais participação, por uma democracia com o povo. Ele vai desafiar os jovens com seu entusiasmo, seu senso de sonho, utopia. Ele tem uma perspectiva bem diferente do Bento 16, que mantinha um diálogo difícil com a modernidade. Acho que dessa jornada vai ser um desafio para os jovens de inaugurar uma nova fase da Igreja.

UOL – O evento pode influir nos rumos da Igreja, impulsionar reformas?
Leonardo Boff -
Antes de iniciar reformas na Cúria Romana, Francisco reformou o próprio papado. Ele é um papa que deixa o palácio, mora onde todos os hóspedes moram, renuncia a títulos de poder, se sente mais Bispo de Roma do que papa e pede para não ser chamado de sua santidade. Com isso, ele quer dizer ‘nós somos irmãos ou irmãs’, ‘estou no meio de vocês’. É uma perspectiva diferente, mais ligada à vida cotidiana dos fieis, à capacidade de perdão e misericórdia. Na Jornada, ele dará as linhas básicas que vão ser a tônica do seu papado. Ele já deu sinais de que defende a abertura de diálogo com judeus e muçulmanos.

UOL – O senhor enxerga no papa Francisco ligação com os pressupostos da Teologia da Libertação?
Leonardo Boff –
As intuições básicas da Teologia da Libertação estão presentes no discurso dele. A primeira frase mais forte que ele disse no dia seguinte à eleição, foi de que ele gostaria de uma Igreja pobre para os pobres. E ele era adepto de uma das vertentes da Teologia da Libertação, que era própria da Argentina, que é a teologia do povo, teologia da cultura popular. A Teologia da Libertação tinha muitas tendências. Na Argentina predominou essa, que vem do justicialismo (movimento político de apoio ao Partido Justicialista, de Juan Domingos Perón).

Francisco sempre se entendeu como um peronista, um justicialista. Uma das polêmicas com a Cristina Kirchner (presidente da Argentina, do Partido Justicialista) foi por ele achar que o governo estava tratando o pobre com filantropia, e não com justiça social. Ele defendia trazer os pobres como participantes, que não há solução para os pobres sem a participação deles. Isso é a Teologia da Libertação. Francisco não usa a palavra Teologia da Libertação, e talvez até seja bom ele como papa não se filiar a teologia nenhuma.

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UOL – Gostaria que o senhor falasse mais sobre essa tendência argentina da Teologia da Libertação que influenciou o papa.
Leonardo Boff –
O formulador dessa teologia é Juan Carlos Scannone, um jesuíta que foi professor do Bergoglio. Ele frequentou as aulas do Scannone e sempre foi entusiasta dessa teologia. Ele foi sozinho para as casas, para as favelas. Não vou dizer que ele é da Teologia da Libertação porque isso não é importante. Mas ele é da libertação. E intuiu essa opção pelos pobres contra a pobreza. É isso que sempre pregamos. E o curioso é que saiu um livro na Itália.

É isso que sempre pregamos. E o curioso é que agora saiu um livro na Itália escrito conjuntamente entre o atual presidente da Congregação da Doutrina da Fé (grupo interno da Igreja que historicamente combatia a Teologia da Libertação), o arcebispo Gerhard Ludwig Müller, e um dos fundadores da Teologia da Libertação, o peruano Gustavo Gutiérrez. O livro se chama “Da parte dos pobres: Teologia da Libertação, Teologia da igreja”. Então há uma mudança muito grande.

UOL – Nesse movimento de mudanças, a Igreja incorporou elementos da Teologia da Libertação?
Leonardo Boff –
A Teologia da Libertação sempre esteve presente. Uma coisa é a oposição que tinha o Vaticano, que ouvia muito mais os críticos da Teologia. Outra coisa é a Igreja no Brasil e na América Latina, que vem da linha pastoral. O próprio MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) é criação da Igreja da Libertação, nascido de uma sacristia. O PT (Partido dos Trabalhadores) teve como fundadores as igrejas de base. Aqui a Teologia sempre esteve presente. Ocorre que, como era polêmica, tinha uma certa invisibilidade.

A Teologia está viva. Nasce dessa experiência do grito do oprimido no passado, que virou um clamor hoje em dia. A Europa vive situações da Idade Média. Na Espanha, mais de 30% dos jovens estão desempregados. Na Grécia são 67%. Há muita miséria, sofrimento. Há uma globalização da indiferença. Nossa cultura não sabe mais chorar os mortos, as vítimas. Isso incita uma esperança de uma atmosfera nova da Igreja. Ratzinger condenou mais de 500 teólogos do mundo inteiro. Isso não vai ter mais. Até desconfio que ele (Francisco) vai reabilitar muitos teólogos que foram condenados sem nenhum motivo.

UOL – Nesses primeiros meses de pontificado, houve alguma mudança concreta ou foram gestos mais simbólicos?
Leonardo Boff –
Houve mudanças muito profundas. Ele não ora mais no palácio pontífice, ele dispensou todos os aparatos do poder, a começar pelo papamóvel. No Rio, ele rejeitou suíte. Quis um quarto onde todos vão se hospedar. Dispensou a cruz de ouro e joias e manteve a cruz de prata. Ele faz a reforma do pontificado. Essa transformação está desmontando os argumentos que estavam minando a Igreja, que viam a Igreja como um castelo cercado de inimigos, em ruínas. Ele não entende a Igreja assim. A entende como um diálogo aberto, franco, com o mundo. Há uma primavera prometida para a Igreja, depois de um inverno rigoroso

UOL – A Jornada pode ajudar a reverter o quadro de diminuição de católicos no Brasil?
Leonardo Boff –
Francisco não tem uma perspectiva proselitista. Ele quer diálogo, que as igrejas se reconheçam mutuamente e juntas deem um testemunho da presença de Jesus. Ele acredita que essas igrejas estão a serviço da humanidade, e não delas mesmas. A figura dele, vindo da América Latina, vai reforçar essa democracia. Espero que ele faça um apelo aos políticos que escutem as ruas e que atendam as demandas. Ele disse que as demandas desses jovens são justas e devem ser ouvidas. São demandas ligadas à vida, em nome de uma democracia mais transparente e participativa.

UOL – O senhor acredita que o papa em algum momento irá tocar em temas polêmicos, como a união de pessoas do mesmo sexo, uso de preservativos e aborto?
Leonardo Boff -
Até agora ele não abordou. Acho que ele vai ter uma posição mais clássica, a favor da vida, contra o aborto, com críticas às uniões homoafetivas. Só que tem uma diferença: até agora era proibido discutir esses temas. Ele vai tirar a proibição e permitir a discussão. A partir disso, vai tomar medidas mais pastorais. Ele já fez duras críticas a um padre que não quis batizar uma mãe solteira, dizendo que não existe mãe solteira. Existe mãe.

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Lições de vida do papa

Ele pede para ser chamado de Jorge, recusa carros de luxo e tenta viver como um homem comum. O que você tem a aprender com ele

791_capapequenaFlávia Yuri Oshima, na Época

A cada 15 dias, sempre aos domingos, a argentina Clelia Luro espera. Aos 87 anos, com medo de sua audição falhar, ela fica próxima ao telefone e toma cuidado para que o rádio e a TV estejam baixinhos. Esse é o dia em que Jorge, um de seus melhores amigos, liga. Há 13 anos é assim. “Nossas conversas parecem reuniões de trabalho. Difícil fugir de discussões sobre política e religião”, disse ela a ÉPOCA. Eles não se veem desde o domingo 24 de fevereiro, 48 horas antes de Jorge embarcar para Roma.

Eleito papa, o bispo Jorge Bergoglio adotou o nome de Francisco e ainda não conseguiu voltar a Buenos Aires. Mas as ligações não cessaram. Na última, tiveram uma discussão feia. Clelia achou loucura ele ter dispensado o carro blindado para desfilar pelo Rio de Janeiro durante a Jornada da Juventude (leia mais sobre a operação de guerra para proteger o papa). “Disse a ele que tomaria um tiro”, afirma. Ao que o papa respondeu: “Não vou me esconder. Tenho de estar perto das pessoas. Não sou um faraó”.

Clelia conheceu o papa quando ele, como bispo, foi visitar seu segundo marido, Jerónimo Podestá, doente em casa. Podestá também fora bispo e renunciou à Igreja para casar com Clelia, uma teóloga. “Seus pares na Igreja se afastaram. Sofremos todos os tipos de ameaça”, diz ela. Quando Podestá adoe­ceu, o bispo Bergoglio foi visitá-lo em casa e no hospital. “Depois de anos de rejeição, as visitas de Jorge foram um bálsamo para a alma do meu marido”, diz Clelia. “Nos tornamos amigos.”

Essa amizade e a maneira atenciosa como o papa a conduz ilustram três características notáveis de Francisco. Primeiro, mesmo depois de ser papa, ele continua a se comportar como uma pessoa normal. Segundo, ele dá imenso valor às relações humanas. Terceiro, pratica ativamente a tolerância com aqueles que discordam dele, como Clelia.

Na mesma noite em que foi anunciado como papa, em 13 de março deste ano, houve sinais de que Francisco seria diferente de seus antecessores. Surgiu com roupas mais simples. Optou por um anel de prata, no lugar do ouro. Manteve a cruz e os sapatos modestos que sempre usou e dispensou os acessórios papais pomposos. Desde então, tem se confirmado como o papa da simplicidade e da austeridade. Um papa humilde que se preocupa com os humildes.

Seu exemplo é uma força que se espalha rapidamente no interior da Igreja. “Os padres e os seminaristas estão birutas, no bom sentido”, diz o teólogo Fernando Altmayer, professor da PUC de São Paulo. “O modelo anterior de ascensão foi revogado.” Fora da Igreja, católicos e não católicos acompanham com interesse o comportamento de um papa que parece ter muito a ensinar ao homem comum, sobretudo em tempos de crise econômica e moral. A conduta de Francisco sinaliza desapego material, apreço pelas relações humanas e misericórdia – atitudes que ressoam mesmo entre os não religiosos. “Ele funciona por contágio”, diz a jornalista argentina Evangelina Hemitiam, autora da biografia A vida de Francisco, que acaba de ser lançada no Brasil pela editora Objetiva. “O efeito que ele provoca nas pessoas é revolucionário.”

O papa que chega ao Rio de Janeiro nesta segunda-feira, dia 22, é um líder capaz de fazer o país repensar. No Brasil de 2013, que saiu às ruas em protesto contra o descaso de seus governantes, é o homem certo na hora certa. Seu exemplo de humildade e dedicação aos que sofrem, associado ao desprezo por luxo, conforto e privilégio, constitui uma espécie de repreensão silenciosa aos arrogantes que, no poder, agem como se tivessem direito a tudo. O exemplo de Francisco não mudará radicalmente o Brasil e nem tocará o coração de todos os brasileiros. Mas ele é capaz de inspirar e ensinar os que estiverem prontos a ouvi-lo.

1. VIAJE LEVE PELA VIDA 
Evangelina Himitiam, a biógrafa do papa, diz, com certo exagero, que tudo o que ele tem na vida cabe numa mala. São discos, livros, um pôster de seu time do coração – o San Lorenzo, de Buenos Aires – e um crucifixo que ganhou dos avós. Francisco é desapegado, e isso lhe permite, nas palavras dela, “viajar leve pela vida”. Anda a pé, pega transporte público e, quando cardeal, não tinha carro oficial nem motorista. Esse voto de pobreza, diz o teólogo Altmayer, não é algo triste, pelo contrário. “Quem tem pouco é mais livre, mais feliz”, diz. Talvez essa fórmula não valha para todos. Mas ela pode nos ajudar a repensar o materialismo exagerado dos nossos tempos. “O ser humano está sufocado pelo capital material. As pessoas têm sede do capital espiritual”, diz Leonardo Boff, teólogo que acaba de lançar pela editora Mar de Ideais o livro Francisco de Assis e Francisco de Roma. “As mensagens que o papa passa com suas ações fazem sentido para o espírito”, afirma Boff.

2. DÊ IMPORTÂNCIA AOS VALORES
Em lugar do apego aos bens materiais, o papa Francisco tem valores. Desde a infância, sua biografia está repleta de elementos que demonstram isso. Ele começou a trabalhar aos 12 anos, porque seu pai considerava o trabalho essencial. Guardou isso com ele. Música e literatura também são paixões precoces que ele cultiva até hoje, como elemento essencial da existência. Da ética religiosa dos jesuítas, a ordem religiosa a que Francisco pertence, extraiu a decisão de levar uma vida modesta, dedicada aos necessitados. Ele acredita que ajudar os pobres enriquece objetivamente a vida das pessoas. Nem todos estão dispostos a viver assim, movidos pelo senso de missão e pela arte, mas o exemplo de Francisco deixa claro que um punhado de convicções, gostos e atitudes simples podem, muitas vezes, ser mais importantes que um vasto patrimônio. Ao longo da vida, somos capazes de guardar coisas mais valiosas que os nossos bens.

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