Arquivo da tag: Termo

Jovens estão cada vez mais exibicionistas, mas gente boa

Após publicação americana dizer que jovens são preguiçosos e exibicionistas, tema foi assunto mais comentado nas redes sociais

FêCris Vasconcellos e Kamila Almeida, no Zero Hora15015004

Tão excitantes quanto ameaçadores. Foi desta forma que a revista americana Time classificou, na edição desta semana, os jovens nascidos entre 1980 e 2000. Eles fazem parte da geração Millennials – chamada de Eu Eu Eu (em inglês, Me Me Me): muito conectados, preguiçosos e extremamente narcisistas. Mas que também são gente boa, acreditam em Deus, sem se apegar a religiões, e otimistas.

Todos estes adjetivos movimentaram as redes sociais, dividindo opiniões. Viviane Mondrzak, presidente da Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre, é contrária ao hábito popular de atribuir quase todos os problemas dos jovens à internet e às novas tecnologias. Para ela, este comportamento “eu futebol clube” tem muito mais a ver com a estrutura familiar e com as bases formadas ao longo da vida, de limite e de orientação, do que com a proximidade com a web.

– Nossa cultura ocidental tende a reforçar posições narcisistas, porque valoriza a rapidez, aparências, autossuficiência. É a cultura do pode tudo, tu vais conseguir tudo – diz Viviane.

Ao contrário do que dizem as fontes consultadass na publicação americana, Viviane não considera que os jovens estejam mais preguiçosos. Ela prefere falar em intolerância à frustração:

– Temos jovens despreparados para enfrentar as frustações do mundo real.

Paulo Berél Sukiennik, médico psiquiatra e psicanalista, lembra que Freud cunhou o termo narcisismo para designar algo necessário, em certa dose, para o desenvolvimento do ser humano. É preocupante, entretanto, quando se torna patológico – ligado ao egocentrismo. O médico reforça que, neste sentido, são os adultos o foco de preocupação.

– A sociedade adulta está vivendo momentos infantis. Você vê isto no trânsito, nas relações de trabalho, onde há importância para o seu próprio umbigo em detrimento de respeitar o outro. O adolescente está copiando este modelo – diz o psiquiatra.

E é na arrogância que Sukiennik busca explicações:

– O adolescente que se acha, pensa que não precisa aprender com os mais velhos ou ler porque ele sabe tudo.

Lucas Liedke, diretor de tendências da Box1824, empresa de pesquisa, enxerga estes assuntos por outro prisma. Para ele, o poder da “registrabilidade” dá a estes jovens novas dimensões, como maior consciência do que colocam para o mundo.

As caras da nova geração

Quando se coloca uma lupa sobre as criaturas que compõem a nova geração, as verdadeiras cores do “eu, eu, eu” – assim como as justificativas para seus bons e maus comportamentos característicos – acabam aparecendo. Na página de Facebook de Gabriela Guerra, 26 anos, por exemplo, se encontra fotos dela nos mais diferentes ambientes sociais, mas também se percebe que ela está sempre engajada em alguma causa para melhorar o universo ao seu redor, desde ajudar a organizar um cinema na Praça da Matriz, até levar um grupo de amigos com mantimentos e tintas para alimentar o corpo e a alma das crianças da Vila Liberdade, na Capital. Ela acredita que há individualismo na sua geração, mas também vê uma energia para mudar as realidades ao redor. Mudar e postar na rede social o resultado, claro.

– Vejo muita gente mais individualista, que reclama de protesto, mas acho que até essa segurança do momento do país e a internet fazem a causa do coletivo mais evidente – diz.

Gabriela, que é cofundadora do projeto Porto Alegre Como Vamos, enxerga, sim, o reforço da autoimagem, mas não acredita que isso reflita um grupo de narcisistas.

Talvez seja por esse motivo que Carolina Lopes, 19 anos, tire tantas fotos de si mesma para postar nas redes sociais. Mais fã do Instagram que do Facebook – o que evidencia outra característica de sua geração, a obsessão por imagens – ela registra lá e compartilha com 600 seguidores sua própria figura, sempre impecável, em diversos momentos da vida. As selfies (do termo self shots, em inglês) são sempre as mais curtidas.

– Se estou me achando bonitinha tiro uma foto, se não, não (risos). Mas não fico prestando atenção em quem curte, publico e deixo – conta.

Receber 20, 30 ou 100 likes em uma postagem só não é mais emocionante que ver a notificação na rede social que avisa quando eles chegam. Um sinal, mesmo que silencioso, de que alguém está “te dando bola”.

Renata Fortes, estudante de administração, poderia estar lendo receita de bolo no telefone que, mesmo assim, sua ansiedade seria claramente perceptível. Enfileirando palavras em uma velocidade que só os seus 19 anos poderiam permitir, conta que chega a dormir com o celular debaixo do travesseiro e acorda quando ouve o barulho de uma nova mensagem para responder. O frenesi já rendeu até crise de choro no supermercado por ficar sem bateria no celular.

Outra característica dessa nova geração é a falta de paciência com os mais velhos. Renata confessa que chegar a fazer os trabalhos de faculdade sozinha quando fica em um grupo com algum colega muito mais velho:

– Geralmente faço a parte deles, senão fico muito nervosa e pensando “ah, por que essa pessoa é tão lenta?”.

COMO A NOVA GERAÇÃO MUDA O MUNDO

— O estudo o sonho Brasileiro, da Box1824, empresa de pesquisa especializada no mapeamento de tendências de comportamento, em parceria com o Instituto Datafolha, investigou jovens entre 18 e 24 anos e mostrou que 8% deles são caracterizados como jovens-ponte. Seriam estes os que vão canalizar todas as características para fazer algo que sempre foi dito como tarefa da juventude: mudar o mundo.

— A média das pessoas se relaciona de forma mais intensa com três ou quatro grupos: família, trabalho, estudo e mais algum. O jovem que está age pelo coletivo transita por muito mais grupos. Mais do que isto: recolhe ideias e pensamentos destes grupos, para evoluir seu próprio pensamento e suas ações.

— Seu papel mais importante é o de redistribuir estes pensamentos e ideias, conectando redes e pessoas que nunca se falariam.

— Não aceitam os discursos que velam o preconceito.

— Dá nova dimensão ao trabalho. Além da felicidade e realização pessoal, quer fazer diferença na sociedade por meio da sua profissão.

— A política partidária e institucionalizada não o representa. Vê muito mais sentido em agir politicamente no seu dia a dia, seja no consumo ou em atitudes mais proativas.

Viciados em comida chegam a gastar 60% do salário em restaurantes

A estilista Ana Paula Tieko, 28, no Attimo Foto: Julia Rodrigues/Folhapress

A estilista Ana Paula Tieko, 28, no Attimo Foto: Julia Rodrigues/Folhapress

Bruna Haddad, na Folha de S.Paulo

Rodrigo Saraiva, 29, sempre ouviu do pai que não se deve economizar com comida. “Acho que estou elevando esse conselho para outro patamar”, brinca o diretor de arte de cinema, que gasta cerca de 40% do salário em restaurantes.

Embora sempre tenha gostado de comer, o paranaense intensificou o hábito de frequentar restaurantes há um ano, quando passou a viver em São Paulo. Ao lado do namorado paulistano, sai, em média, cinco vezes por semana atrás de novos lugares.

Rodrigo gosta de comer, conhece lugares caros, gasta dinheiro com isso. Mas não é exatamente um gourmet –segundo o “Houaiss”, aquele “que se regala com finos acepipes e bebidas”.

Quem são os “foodies” paulistanos

Para definir tipos como ele, se popularizou na Inglaterra, nos anos 1980, o termo “foodie”, que descreve aficionados de comida que não escolhem o restaurante pelo preço. Segundo o americano Paul Levy, coautor do livro “The Official Foodie Handbook” (manual oficial do “foodie”), de 1984, o significado se mantém atual. “Gourmets são elitistas e antiquados”, afirmou à sãopaulo.

Em comum, os “foodies” paulistanos têm menos de 30 anos, ganham salários entre R$ 3.500 e R$ 12 mil e não têm filhos. Esse é o perfil dos entrevistados que se assumiram como viciados em comida.

Em vez de gastar com carros, eletrônicos ou arte, “investem” em entradas, pratos principais e sobremesas. Alguns chegam a dedicar até 60% da renda mensal para bancar experiências gastronômicas.

A cidade, famosa pela gastronomia desde o século 19, favorece esse hábito. Hoje, segundo a Abrasel (Associação Brasileira de Bares e Restaurantes), temos 13 mil restaurantes.

Para Nina Horta, escritora e dona do bufê Ginger, São Paulo é a terra dos “foodies”. “Isso está mudando, mas no Rio, por causa do calor, o forte são os botequins”, afirma a colunista da Folha.

Já para Marcelo Traldi, professor e pesquisador de gastronomia do Senac, a capital tem uma caracterização diferente em termos de comportamento de consumo –aqui, o mercado é muito desenvolvido. “A cidade tem docerias baratas e caras, especializadas em brigadeiro, quindim… O mercado maduro faz com que o consumidor aceite experimentar coisas novas.”

E é o que o ele tem feito. A publicitária Mariana Ferreira, 23, troca balada, cinema e teatro pelo ritual que se desenrola entre o momento em que chega a um restaurante e o instante em que paga a conta. Gosta especialmente de saborear pratos feitos com cuidado e conversar com a pessoa à sua frente. “É um tempo que me escapa no dia a dia”, afirma Mariana, que dedica 40% da renda mensal ao hábito. Quando viaja,
separa 70% para isso.

A estilista e “cool-hunter” Ana Paula Tieko, 28, mora em São Paulo, mas se divide entre temporadas de trabalho em Tóquio, Hong Kong e Xangai. Na semana anterior à conclusão desta reportagem, almoçou no The Gourmet Tea (Pinheiros) na segunda, jantou no Takô (Liberdade) na terça e, na quinta, comeu no Lamen Kazu (Liberdade) e no Suri (Pinheiros).

A estilista evita fins de semana para escapar da espera. Entre os entrevistados, é consenso que os melhores dias são terça, quarta e quinta. No domingo, só com muita disposição.

Atair Trindade, 27, no Epice Foto:  Julia Rodrigues/Folhapress

Atair Trindade, 27, no Epice Foto: Julia Rodrigues/Folhapress

MESA PARA CINCO

Criada pela avó japonesa, Ana Paula passou a respeitar mais os alimentos após suas estadias na Ásia, onde, diz, “as refeições são sagradas”. Além de viagens, é comum a formação gastronômica dos “foodies” vir da família.

Na infância, a administradora e especialista em saquês Ana Toshimi, 29, costumava sair para jantar com os pais e o irmão toda sexta-feira. Até hoje ela se lembra do aniversário de 12 anos, comemorado com a família e as amigas no Baby Beef Rubaiyat, no Paraíso.

Também guarda na memória os momentos em que provou lagosta –”nem sabia por onde começar”–, ovas, “escargot”, sushi de vieira e “crema catalana”, o doce da Catalunha semelhante ao “crème brûlée”.

Hoje, Ana Toshimi, ao lado do marido, sai ao menos uma vez de segunda a sexta e sempre aos fins de semana. “Não que seja bom para o bolso e nem que eu meu orgulhe”, brinca. Quando morava com os pais, chegava a deixar metade do salário em restaurantes. Hoje, a quantia diminuiu –ambos têm cozinhado mais em casa.

O publicitário Atair Trindade, 27, também lembra de experiências gastronômicas de quando era “moleque”, como “polpettone”. “Gosto de comida desde criança”, conta ele, que reserva 40% para suas descobertas gastronômicas mensais. “Sempre que experimento algo novo, penso: ‘Nossa, como pude viver tanto tempo sem isso!’”, afirma.

Vitor Leal, 13, vive um período semelhante. Filho de psicólogos que “trabalham para comer”, o adolescente enumera os quitutes que provou na primeira visita à Feirinha Gastronômica da Vila Madalena, no domingo passado (24) –taco, casquinha de siri, pastel, sanduíche de pastrami, polvo na grelha, uma tortinha de chocolate com paçoca e sorvete.

“Não tínhamos esse acesso”, conclui a mãe, Andrea Leal, que costuma levar o filho a restaurantes como o Famiglia Mancini, na Bela Vista. “Ele adora, experimenta tudo e sempre repara em detalhes do ambiente.”

A CONTA, POR FAVOR

Os “foodies” endossam o coro de que a cidade está cara demais. Mas dizem que os valores são relativos –depende se o restaurante “entrega” o que cobra. “Em qualquer bistrô não deixo menos de R$ 140. Caro, para mim, é mais que R$ 400″, diz Ana Paula, que gasta isso em dias especiais.

Quando a experiência impressiona, o publicitário Marcelo Colmenero, 29, não liga para a conta. “A degustação do Maní não é barata [R$ 310], mas eles são competentes. Dá gosto pagar, é uma forma de, como cliente, dizer que eles estão no caminho certo.”

Delimitar quantias mensais ajuda a evitar a falência. Ana Toshimi fez um orçamento do quanto gasta com comida. Marcelo acompanha as faturas on-line do cartão de crédito. Perdulários, glutões? Ele não se lembra de ter ouvido piadas. “As pessoas veem como eu me empolgo, os olhos brilham, eles sabem que é importante pra mim.”

Uma das diferenças, por definição, entre gourmets e “foodies” é que estes não vão só a estabelecimentos refinados. Parte da graça está em “descobrir”. “Quando descobre um lugar bom e barato, o ‘foodie’ de verdade não vai pensar em status”, define Nina Horta. Casas fora do circuito são alvos de disputas discretas. “Sempre rola um ‘vou te falar um lugar que duvido que você tenha ido’”, brinca Atair.

Ir a casas menos óbvias é uma opção para os que têm baixo orçamento. Outras alternativas são a comida de rua, não regulamentada na capital, e eventos como Chefs na Rua, que atraiu uma multidão na Virada Cultural.

“A gastronomia é voltada para um público mais velho, porque pessoas de 20 e poucos anos não têm grana”, diz Danilo Nakamura, 27, formado na área e colaborador de publicações especializadas. Ele diz visitar restaurantes até sete vezes por semana, pagando do próprio bolso. Já chegou a gastar 60% do salário.

“Ter acesso a um tipo de alimento significa conhecer outros tipos de cultura”, diz Marcelo Traldi, do Senac. Ele reconhece que São Paulo tem um cenário desenvolvido, mas perde para outras metrópoles: “Um nova-iorquino já provou quase tudo porque encostou em carrinhos na rua”. Por “carrinhos”, refere-se aos “food trucks”, restaurantes em caminhões.

Maurício Schuartz, organizador do Chefs na Rua e da Feirinha Gastronômica, ouviu, durante o evento que promoveu na praça Ramos, em janeiro, a frase que para ele melhor define o cenário atual. Observava dois meninos de uns 15 anos na fila de uma barraca do Così quando um disse para o outro: “Mano, curto muito pato”. Eram dois “foodies” em formação.

Idosa com síndrome rara não consegue tirar músicas da cabeça

Aos 84 anos, Cath Gamester ouve seis músicas em sua cabeça todos os dias, sem parar

Aos 84 anos, Cath Gamester ouve seis músicas em sua cabeça todos os dias, sem parar

publicado no UOL

Aos 84 anos, a aposentada britânica Cath Gamester sofre de uma síndrome rara que anualmente afeta apenas um em cada dez mil sexagenários. Trata-se da ear syndrome, ou síndrome do ouvido musical, embora no Brasil o tema seja tratado simplesmente pelo termo “alucinações musicais”.

Os idosos que sofrem com o problema tendem a ouvir uma lista de seis a dez músicas que se repetem constantemente em suas cabeças. Eles contam que o transtorno começa desde que acordam e vai evoluindo ao longo do dia, passando por suas tarefas diárias, como assistir TV.

O problema só termina pouco antes de dormir. O pior é que as músicas são sempre as mesmas.

No caso de Gamester, a lista inclui “Parabéns a Você”, o hino nacional britânico e hinos religiosos, sempre na voz de um tenor masculino – que, ao menos, é do seu agrado.

“É um tenor, uma voz de homem. E é uma voz bonita, muito forte e alta, com música de som de fundo”, conta.

Dentre as seis canções que ela ouve sem parar, uma delas é, sem dúvida, a pior. ”A música “Parabéns a Você” – a cada dois minutos estou desejando feliz aniversário para alguém – odeio essa!”, disse Gamester à repórter da BBC.

A aposentada explica que tudo começou há dois anos, quando sua irmã morreu e ela começou a tomar antidepressivos. Mas mesmo depois de interromper o tratamento as músicas não cessaram.

“Fui dormir, e quando acordei, por volta das 8h, logo ouvi a música e era o hino nacional [da Inglaterra]. Olhei por todos os lugares, abri a porta de casa. Achei que eram os vizinhos, mas me dei conta de que estava dentro da minha cabeça”, diz.

Continue lendo

Cajadada?

Felipe Costa, no Mero Cristianismo

Desde que comecei a frequentar uma igreja evangélica ouço o termo cajadada incluso na seguinte expressão: O pastor deu uma cajadada em fulano.

Sempre entendi que essa frase queria dizer que o pastor havia repreendido alguém por ter cometido algum erro. Mas com o tempo percebi que muitos dos que levavam uma cajadada se distanciavam dos outros irmãos, por vergonha ou porque os irmãos passavam a evitar alguém que tomasse a tal cajadada. Não era incomum que com o tempo estes saiam da igreja. Ouvi histórias de pessoas que saíram de gabinetes pastorais aos prantos após uma conversa com algum pastor. O cajado tomou forma de porrete.

Muitas vezes a cajadada era coletiva. Todo mundo dividia o coro que o pastor aplicava do alto do púlpito. Isso muito me lembrava de quando era pequeno e um dos irmãos aprontava, os três apanhavam. Com o microfone numa mão e a Bíblia na outra, alguns pastores costumam descascar fiéis por motivos sérios ou banais, em muitos casos. Já ouvi um pastor cobrar os irmãos de que na reunião anterior havia recolhido pouca oferta e, assim, distribuiu meia hora de cajadada. Nesta ocasião uma pessoa que estava sentada ao meu lado disse, “olha a cajadada!”. E sorriu como que concordando com a repreensão. Afinal de contas, o homem que estava com o microfone nas mãos era “o pastor” e, por conseguinte, o portador do cajado.

No entanto, o Salmo 23 nos diz que o cajado do pastor não é usado para machucar as ovelhas que cometem “delitos”. Este salmo é uma poesia construída em duas experiências diferentes, a do “Pastor e Ovelha” e, a do “Fugitivo e o Anfitrião”. A história do Anfitrião e o Fugitivo (v. 5 e 6) fundamenta-se na experiência de um homem que provavelmente seria condenado pela sua comunidade, por ter violado algum tipo de conduta em seu clã (ver Dt 19:1-7). Às vezes tal individuo fugia errante pelo deserto enquanto a comunidade ainda dormia. Logo pela manhã ao sentirem sua ausência, o clã enviava alguns homens a sua captura, caso ele sobrevivesse a fuga do deserto – como nas histórias de Moisés e Jacó, que fugiram.

O fugitivo chegava quase morto em uma estrutura que havia sacerdotes. Ali era recebido pelo Anfitrião que proporcionava acolhimento integral, no qual depois de um banho, uma taça de vinho transbordava sobre a mesa. Neste lugar tal Fugitivo era honrado com perfume sobre a cabeça. O sacerdote que o recebia em sua casa nada lhe perguntava, simplesmente o recebia, mesmo sabendo que ele estava ali por ter cometido algum delito grave. Quando seus perseguidores se aproximavam e percebiam onde estava, nada poderiam fazer, pois a hospitalidade era sagrada no Oriente e por isto inviolável. Então, o salmista brinca com seus inimigos diante da hospitalidade proporcionada pelo Anfitrião – “prepare-me uma mesa diante dos meus inimigos“.

Depois de alguns dias quando seus perseguidores percebiam que não poderiam captura-lo, iam embora. O sacerdote colocava duas escoltas (homens) para acompanhá-lo a uma nova tribo para que o então Fugitivo iniciasse nova vida. O salmista novamente faz desta escolta a Misericórdia e Bondade do Senhor-Anfitrião que o acompanharão todos os dias de sua vida. E ainda deixa em aberto a possibilidade de ter que desfrutar deste acolhimento em dias futuros. Ou seja, o perdão é renovável.

O cajado do pastor de verdade não machuca. Ele tem duas extremidades: com a circunflexa, resgata a ovelha caída; com a pontiaguda, dá toques leves em suas patas frágeis para que as ovelhas tomem seu caminho e na eventualidade de lobos atacarem, defende as ovelhas. Como disse o salmista “o teu cajado me consola“. Consolo este que vem acompanhado da Misericórdia e Bondade, sem jamais machucar as ovelhas com autoritarismo. Sem as duas escoltas dadas pelo nosso Senhor-Anfitrião, não existe cajado que consola. Apenas cajadadas.

“Deus cometeu um erro, eu deveria ser uma menina”

foto: Facebook [via International Business Times]

título original: Transtorno de identidade sexual na infância divide especialistas

Carolina de Andrade, na Folha de S.Paulo

Aos quatro anos, um menininho inglês que se chamava Jack disse para a mãe: “Deus cometeu um erro, eu deveria ser uma menina”.

Aos oito, ele mandou um e-mail para as pessoas da escola onde estudava (e sofria bullying) avisando ser “uma menina presa em um corpo de menino”. E passou a se vestir como garota. Aos dez, disse à mãe que se mataria se começasse a “virar homem”.

Aos 11, Jack teve uma overdose e fez outras seis tentativas de suicídio antes de completar 16 anos.

Como a lei inglesa não permite cirurgia de mudança de sexo antes dos 18, Jack foi operado na Tailândia, aos 16.

A história de Jack, que a rede de TV britânica BBC exibiu nesta semana, mostra

Jackie Green, primeira transexual finalista do concurso de Miss Inglaterra [foto: Steve Meddle/Rex Features]

os contornos e as dores do transtorno de identidade sexual na infância. Jackie Green tem agora 19 anos, é modelo e foi a primeira finalista transexual do concurso de Miss Inglaterra.

A OMS define o fenômeno como o desejo, manifesto antes da puberdade, de ser (ou de insistir que é) do outro sexo. O termo “transexualismo” só é usado para adultos.

Não há estatísticas de incidência do fenômeno. Entre pessoas acima de 15 anos, estima-se que um a cada 625 mil seja transexual, segundo o psiquiatra Alexandre Saadeh (leia entrevista abaixo).

De acordo com Carmita Abdo, do programa de estudos em sexualidade da USP, a experiência clínica mostra que só um terço das crianças com o transtorno serão transexuais.

Na visão da psiquiatria, transexualidade não é escolha, como querem alguns setores. Como psiquiatra, é claro que Alexandre Saadeh defende o diagnóstico de transtorno de identidade sexual na infância –embora critique seu uso estigmatizante.

Professor da PUC-SP e coordenador do Ambulatório de Transtorno de Identidade de Gênero e Orientação Sexual do Hospital das Clínicas de São Paulo, ele conta como a medicina caracteriza o problema, à luz das últimas pesquisas.

*

Folha – Como saber se a criança sofre de transtorno de identidade de gênero?

Alexandre Saadeh – Pode ser que a criança esteja só brincando de assumir um papel, o que é comum entre os quatro e os seis anos, faz parte do desenvolvimento. Para constatar o transtorno é preciso que o comportamento ocorra por tempo prolongado.

Quais são os indícios?

Não é só o uso de roupas ou a criança se chamar por nome do outro gênero. Ela apresenta outros sinais: fica deprimida, irritada e agressiva se é obrigada a se comportar segundo o sexo anatômico. A necessidade de ser tratada como se fosse do outro gênero é constante. Muitas percebem que o comportamento incomoda os pais, aí o escondem.Os primeiros indícios surgem na infância, mas são raros os casos em que é claro desde o início se tratar de transexualismo.

Nem toda criança com o transtorno fará cirurgia de mudança de sexo quando adulta. Mas todo transexual teve o transtorno. A criança deve ser avaliada por profissionais para evitar diagnósticos equivocados.

Quais são as causas?

Há evidências de que a diferenciação cerebral intrauterina pode ser influenciada por níveis de andrógenos [hormônios que desenvolvem as características sexuais masculinas] circulantes na gestação, o que pode gerar um cérebro masculino ou feminino, independentemente da anatomia já definida. Apesar da importância do ambiente e da cultura, não há evidências de como esses fatores se acrescentam aos fenômenos biológicos.

Quais são as alternativas após o diagnóstico da criança?

Pais e profissionais devem ajudar a criança a vivenciar o transtorno e, se for o caso, superá-lo; se não, a vivenciá-lo de maneira integral, sem censura. Não é fácil para nenhum pai ou mãe se adaptar a essa transformação, mas quando se pensa em respeito e aceitação pela diferença e por quem é de verdade o filho ou filha, fica mais palatável.

No Brasil, a cirurgia só pode ser feita após os 21 anos, mas o uso dos hormônios pode começar a partir dos 18. Se tivermos certeza de que o adolescente já é um transexual, é possível tentar autorização junto ao Conselho Federal de Medicina para começar o tratamento hormonal antes.

Os efeitos do tratamento hormonal para impedir a puberdade são reversíveis?

Há a possibilidade de se bloquear o desenvolvimento das características masculinas ou femininas do adolescente, ou já fazer o tratamento hormonal específico para o gênero desejado. Alguns efeitos são reversíveis, outros não, por isso a controvérsia e a responsabilidade da indicação desse tipo de intervenção, o que aumenta mais a importância do diagnóstico.

Sou a favor do bloqueio e do tratamento hormonal, já que impedem que a pessoa passe pelo sofrimento de desenvolver caracteres sexuais de seu sexo anatômico e não de sua identidade de gênero.

A visão do transexualismo como transtorno é unânime?

Para os [profissionais] que se preocupam em se atualizar nas pesquisas, é, sim. O problema é confundir transexualismo e homossexualidade ou tratar como doença mental. É um transtorno do desenvolvimento cerebral. As explicações psicológicas clássicas não conseguem mais caracterizar o fenômeno. As ciências humanas tendem a ser contra o diagnóstico e o consideram estigmatizante, do que discordo. Pode haver esse uso do diagnóstico, mas não é essa a finalidade.

Qual sua opinião sobre os movimentos pela “despatologização” do transexualismo?

Acredito no diagnóstico como delineador, não como estigmatizante. Como psiquiatra, não posso achar que o transexualismo seja questão de escolha. É questão de desenvolvimento embrionário, relacionada ao desenvolvimento cerebral na fase de diferenciação entre cérebro masculino e feminino.

Como vê o “gender-neutral parenting”, essas tentativas de criar uma educação sem estereótipos sexuais, a exemplo de uma escola na Suécia que não usa “ele” ou “ela” para se referir às crianças?

A sociedade funciona com diferenciação de gêneros. A criança terá contato com os gêneros cedo ou tarde e isso pode gerar confusão.