Os felizes e os desgraçados

trapezistas

Ricardo Gondim

Bem-aventurados os contentes com a vida.
Neles qualquer migalha divina
será bênção dividida.
E toda alegria,
a negação da rotina.

Bem-aventurados os que têm fome e sede de beleza.
Neles encarna o Filho do Poeta.
Seus versos entrarão na sala da realeza
E só eles perceberão, no inefável,
uma partitura completa.

Bem-aventurados os trapezistas.
Eles no alto circo balançam.
No perigo de viver,
destilam nos mortais, pistas
que só os riscos aguçam.

Bem-aventurados os maratonistas.
Eles correm sem o prêmio esperar,
buscam metas
pela alegria das conquistas
que os anos querem temperar.

Bem-aventurados os impotentes.
Eles se sabem incapazes de amar,
se enxergam carentes,
e  só esperam o espírito depurar.

Mal-aventurado o africano.
A humanidade o ensinou a pescar
no rio do desengano.
Desgraçado o que aprendeu a descansar
no colchão desumano,
onde o piolho pica até cansar.

Mal-aventurada a mãe que chora
no morro carioca.
Ela que, em toda hora,
contempla o rés do chão traiçoeiro,
nunca terá desforra.
Não há cavalheiro
para o lenço estender
ou a face suavizar na
lágrima que lhe acalora.

Mal-aventurados os velhos.
Eles jazem alucinados
na impura enfermaria.
A cadeia os alucina aprisionados,
por malignos escaravelhos
que pendem nos lustres empoeirados.

Mal-aventurados os generais.
Eles festejam faustos feitos.
Mas, deles é o cálice pleno de ais.
Infelizes nos coitos, eles
sabem que suas mulheres são iguais
às meretrizes menos geniais.

Mal-aventurados os religiosos.
Eles, das verdades fazem dardos.
Deles nascem males rancorosos
que condenam seus convertidos
à eternidade dos medrosos.

Soli Deo Gloria

fonte: site do Ricardo Gondim

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O texto “proibidão” de Xico Sá

xicosa

título original: Xico Sá escreve à ombudsman

Vera Guimarães Martins, na Folha de S.Paulo

O jornalista e escritor Xico Sá enviou mensagem autorizando a publicação da coluna que acabou motivando seu pedido de demissão da Folha. O colunista conta que estava em viagem na Bahia, razão pela qual não se manifestou antes, e aproveita para esclarecer alguns pontos de vista divulgados em mensagens nas redes sociais.

Confira primeiro a mensagem e depois o texto original, na íntegra.

*

Mensagem de Xico Sá

“Li a sua coluna de ontem e achei muito correta.

No que diz respeito aos tuítes de maldizer, quando faço desabafos, foi tudo no tom do “jus esperneandis”, para usar o jurisdiquês.

Havia publicado, nesse sentido, um tuíte com um velho grafite do anarquismo espanhol (“Não compre jornal, minta você mesmo”), dai a sequência da mentira, quando digo que menti pelos veículos a quem prestei serviço.

Obviamente que jornalismo é uma versão (mais próxima possível) da realidade. É nesse sentido que coloco a mentira.

Minhas reportagens sempre foram muito concretas e na grandisissíma maioria das vezes com prova material do crime a tiracolo: revelava, por exemplo, onde estava PC Farias, e dias depois trazia o homem (rs) preso de Bancoc ao Brasil. Revelava que os empreiteiros de SP estavam fazendo bingo para decidir sobre licitações fraudadas e levava o fotógrafo para fazer a foto do telhado ao lado, além de fornecer o resultado da jogatina. Quase sempre assim.

Tomara que o leitor desta Folha tenha alguma memória disso, e a minha biografia, como no seu acertado temor ao final da coluna, não fique manchada.

Sobre o texto vetado no caderno de “Esporte”, não se trata de proselitismo político nem tinha como objetivo declaração de voto. Escrevi uma crônica chamada de “Fla x Flu eleitoral”.

Tratei do desequilíbrio na cobertura dos jornais, sempre a favor de uma candidatura “x”.

Defendo que os jornais brasileiros deveriam adotar a linha de jornais americanos, que declaram seus candidatos, ficaria um jogo mais limpo com leitores.

O mesmo vale para os colunistas tendenciosos. Nesse contexto, pedi perdão a Bakunin (anulei o voto várias vezes por causa do pendor anarquista histórico) e, com humor típico da minha coluna, abri o voto em Dilma. O que julguei uma atitude mais limpa com meus leitores.

Recusei publicar o texto em muitos veículos que me procuraram, inclusive veículos concorrentes da Folha. Também não quis publicá-lo nas redes sociais. Em respeito a você, libero a crônica, caso deseje publicar, na íntegra e com o título, no seu espaço e somente no seu espaço.

Saudações gutenberguianas

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Fla-Flu eleitoral

Se no primeiro turno foi Brasileirão de pontos corridos, agora, camarada, é Copa do Brasil, mata-mata

Amigo torcedor, amigo secador, mesmo com a obviedade ululante de PT x PSDB, eleição não é Fla-Flu, eleição não é sequer Atlético x Cruzeiro, Galo x Raposa, para levar a contenda para as Minas Gerais onde nasceram os dois candidatos do segundo turno.

Eleição não é um dérbi clássico como Guarani x Ponte Preta, eleição é tão mais rico que cabe, lindamente contra o voto, meus colegas anarquistas na parada, votar simplesmente no nada, nonada, como nos sertões de Guimarães Rosa, sempre na área.

Fla-Flu, embora exista antes do infinito e da ideia de Gênesis, nego esquece em uma semana. Futebol nego esquece no 25º casco debaixo da mesa, afinal de contas, como dizia meu irmão Sócrates Brasileiro, futebol não é uma caixinha de nada, futebol é um engradado de surpresas sempre dividido com amigos de todos os clubes.

Doutor Sócrates Brasileiro que foi mais pedagógico, um Paulo Freire da bola, com a Democracia Corintiana, do que muitas escolas. Doutor Sócrates, Casagrande e Vladimir nos ensinaram mais sobre a ideia grega do “poder do povo e pelo povo” do que toda aquela imposição de Educação Moral e Cívica dos generais das trevas.

Foi-se o tempo que viver era Arena x MDB, era Brahma x Antarctica. Até porque eles hoje são a mesma coisa, a mesma fábrica, a mesma Ambev que botou dinheiro de monte até na Marina evangélica –la não queria, mas o tesoureiro, talvez neopentecostal, pegou do mesmo jeito de todo mundo, vai saber, já era.

Eleição é coisa de quatro anos, no mínimo, pois até quem diz que não quer mais compra um aninho de luxúria e sossego iluminista em Paris, como já vimos no caso do FHC, comprovado em um dos maiores furos desta Folha, reportagem do grande Fernando Rodrigues, parlamentar comprado a preço de mensalão superfaturado.

Cadê a memória, a mínima morália, como diria Adorno, jornalismo safado?

Quem dera eleição fosse apenas o Fla-Flu que dizem. Quem dera fosse apenas um cordel que poderia ser resumido na peleja do playboy danadinho contra a mulher durona. É tudo mais complexo, ainda bem, e se no primeiro turno foi Brasileirão de pontos corridos, agora, camarada, é Copa do Brasil, mata-mata.

Como sou favorável à linha dos jornais americanos que declaram voto, coisa que meu jornal aqui teimosamente não encampa, queria deixar claro da minha parte: voto Dilma, apesar do meu pendor anarquista. Perdão, Bakunin, mas meu voto é contra a imprensa burguesa.

Digo que o jornal que me emprega não encampa e justiça seja feita: nunca me proibiu de dizer nada. Nem no impresso nem no blog. “Bota pra quebrar, meu filho”, lembro do velho sr. Frias nessa hora, que cabra!
Seria legal que todos os jornalistas, que têm lado sim, se declarassem. Quem se apresenta para tornar as coisas mais iluminadas?

Na Folha desde 1990,

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O homem resoluto e provisório – um conto

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Ricardo Gondim

Não! O homem esbravejou, contundente.

Enquanto caminhava, seguiu sem raiva.
Viajava com certa impaciência, sim.
Por isso, murmurou, insistindo consigo mesmo: Nunca!
Negar era seu jeito de procurar manter alguma lucidez.
Esperneou para não se ver enredado nas teias pegajosas da estrada imponderável.
Soltou um grito primitivo e pueril para fazer a catarse do negativo.
Mastigou palavras raras.
Contentou-se em repetir seu jamais todo próprio.
Logo a estrada bifurcou.
Ele empacou.
Notou o risco de escolher entre dois caminhos.
Pensou: Mais uma opção provisória.
Balbuciou com os dentes semicerrados um não a mais.

Andou bastante fora da trilha já aberta.
Pouco tempo depois, definitivo e obstinado, definhou.
Morreu se sentindo livre e feliz.

fonte: site do Ricardo Gondim

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Ator Dado Dolabella compara apoio a Dilma a ter ebola

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Publicado na Folha de S.Paulo

O ator Dado Dolabella disse nesta terça-feira (14) que alguém falar que “está com Dilma” é a mesma coisa que dizer que “está com ebola”.

A afirmação foi publicada em sua página pessoal do Facebook. Ele disse ainda que aqueles que apoiam a candidatura da petista à reeleição são marginais e deveriam ser isolados.

“Digno de pena e reclusão da sociedade. Um marginal. Diante de tanta corrupção comprovada!!!!”

Dolabella fez referência a Gregorio Duvivier, colunista da Folha e integrante do grupo humorístico Porta dos Fundos. O ator compartilhou um texto do diretor de mídias digitais da Globo, Erick Brêtas, que também em sua página pessoal na rede social criticou a coluna “Terra estrangeira”, de Duvivier, neste caso com argumentos, não agressões.

Na coluna, o humorista relata a experiência de ter sido agredido verbalmente por pessoas que achavam que ele é petista. No texto, ele critica o comportamento dessas pessoas e fala sobre o sentimento de deslocamento diante das manifestações de apoio ao PSDB no Rio de Janeiro.

O ator finaliza seu comentário criticando o colunista com as hashtags #gregoriofail e #baixounivel.

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A preguiça é necessária

Para surgirem ideias, é preciso não fazer nada. Na madrugada, fumo charuto e deixo o pensamento fluir

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Walcyr Carrasco, na Época

Sempre me perguntam sobre como é meu processo de criação. Como surgem personagens, textos? Pois bem, eu não seria nada se não fosse preguiçoso. A preguiça é uma vantagem para a sobrevivência, que faço questão de exercer.

Desde menino, ficava acordado até mais tarde, escondido de meus pais. De manhã, não conseguia levantar para ir à escola, a não ser depois de ameaças de minha mãe – como jogar um balde d’água na cama. Pior, quem dorme até tarde é tratado como preguiçoso, no pior dos sentidos. Em certa época de minha vida, trabalhei numa revista, onde ficava dois dias por semana até as 4 horas da manhã. Chegava em casa às 5 horas, tomava um banho, deitava lá pelas 6. Às 10, minha mãe (se estava de visita) batia na porta do meu quarto, gritando:

– Acorda, preguiçoso!

Não sossegava até me arrancar da cama.

Talvez por ser chamado de preguiçoso desde pequeno, me organizei para isso. Tratei de conseguir empregos onde entrava de tarde, para dormir de manhã. Isso me ajudou bastante ao longo da vida profissional, pois meus trabalhos eram menos burocráticos, exigiam ideias. Alguém que dá ideias tem mais oportunidades, seja onde for.

Para surgirem ideias, é preciso não fazer nada. Claro, a gente sempre tem uma atividade. Quando escrevo uma novela, trabalho pesado, no diálogo dos personagens, na construção de cenas etc. A história, porém, acontece quando sento para fumar meu charuto, já de madrugada, e fico pensando no nada, deixando o pensamento fluir. Ou de tarde, após uma agradável aula de pilates, quando sento para tomar um cafezinho, e a mente vaga sem objetivo. Não só na questão das novelas. Já resolvi um número imenso de questões da vida pessoal ou financeira simplesmente não fazendo nada. Diz a lenda que Newton descobriu a lei da gravidade quando, deitado debaixo de uma árvore, uma maçã caiu sobre sua cabeça. Gosto de imaginar que foi realmente assim. E que ele estava nesse estado, em que a mente viaja. Agora, imaginem se ele estivesse colhendo maçãs em cima de uma escada, sob o sol, suando. Não descobriria lei da gravidade nenhuma. Muitas grandes descobertas, até matemáticas, acontecem depois de uma noite de sono, quando o cérebro passeia, sem objetivo predefinido.

Conheço gente ferozmente empenhada em seu trabalho, que nunca teve uma ideia na vida. As empresas, a grande maioria ainda, apreciam a ideia de tirar o sangue do funcionário. Quanto mais trabalha, melhor ele é. Até ser substituído por alguém com boas ideias que, de alguma maneira na vida, encontrou espaço para relaxar. As empresas de internet descobriram que o funcionário precisa de horas vagas. Soube de uma que fez até uma pista de skate. Também abdicaram de roupas formais. Cada um vai como quer. Já trabalhei numa firma que pegou pesado com uma funcionária que usava decotes grandes demais, vestidos transparentes. Há empresas que incentivam a meditação – uma boa forma de tirar o cotidiano da cabeça e descobrir algo novo. Acredito muito no home office. Em boa parte dos empregos, não há necessidade nenhuma de o funcionário comparecer à empresa todo dia. Trabalha em casa, bem tranquilo, sem sapatos, come quando quer. Tenho uma prima que foi dona de uma corretora de produtos químicos durante anos. Fazia tudo por telefone. Vi-a várias vezes sentada na praia, ao sol, de celular na mão, combinando a retirada e entrega de caminhões de algum produto. Nunca houve um erro. Nunca perdeu um cliente.

Sofro para explicar a meus amigos que trabalho quando não faço nada. Como sabem que escrevo de madrugada, me ligam para um jantar. Digo que não vou. O argumento:

– Mas você vem, janta, bate um papo, depois vai escrever.

– Não é assim. Preciso ficar sem fazer nada. Sem conversar também, só comigo mesmo.

Do outro lado, um silêncio de horror. Para muita gente, a ideia de ficar consigo mesmo é aterrorizante. Preferem falar com estranhos. As empresas também gostam do que chamam de “organização”. Adoram cartões de ponto, horários, métricas. Chamam isso de “produtividade”. Se dariam melhor se dessem aos funcionários seus momentos de preguiça diários. Não falo só de trabalhos da área artística, mas também técnica. Uma boa ideia na área técnica não economiza milhões?

Olhar a parede com a cabeça solta é excelente. As pessoas, e as empresas também, ainda descobrirão o valor da preguiça. Torna a vida mais leve. E, muitas vezes, mais lucrativa.

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