O homem resoluto e provisório – um conto

conto-gondim

Ricardo Gondim

Não! O homem esbravejou, contundente.

Enquanto caminhava, seguiu sem raiva.
Viajava com certa impaciência, sim.
Por isso, murmurou, insistindo consigo mesmo: Nunca!
Negar era seu jeito de procurar manter alguma lucidez.
Esperneou para não se ver enredado nas teias pegajosas da estrada imponderável.
Soltou um grito primitivo e pueril para fazer a catarse do negativo.
Mastigou palavras raras.
Contentou-se em repetir seu jamais todo próprio.
Logo a estrada bifurcou.
Ele empacou.
Notou o risco de escolher entre dois caminhos.
Pensou: Mais uma opção provisória.
Balbuciou com os dentes semicerrados um não a mais.

Andou bastante fora da trilha já aberta.
Pouco tempo depois, definitivo e obstinado, definhou.
Morreu se sentindo livre e feliz.

fonte: site do Ricardo Gondim

Leia Mais

Ator Dado Dolabella compara apoio a Dilma a ter ebola

14289266

Publicado na Folha de S.Paulo

O ator Dado Dolabella disse nesta terça-feira (14) que alguém falar que “está com Dilma” é a mesma coisa que dizer que “está com ebola”.

A afirmação foi publicada em sua página pessoal do Facebook. Ele disse ainda que aqueles que apoiam a candidatura da petista à reeleição são marginais e deveriam ser isolados.

“Digno de pena e reclusão da sociedade. Um marginal. Diante de tanta corrupção comprovada!!!!”

Dolabella fez referência a Gregorio Duvivier, colunista da Folha e integrante do grupo humorístico Porta dos Fundos. O ator compartilhou um texto do diretor de mídias digitais da Globo, Erick Brêtas, que também em sua página pessoal na rede social criticou a coluna “Terra estrangeira”, de Duvivier, neste caso com argumentos, não agressões.

Na coluna, o humorista relata a experiência de ter sido agredido verbalmente por pessoas que achavam que ele é petista. No texto, ele critica o comportamento dessas pessoas e fala sobre o sentimento de deslocamento diante das manifestações de apoio ao PSDB no Rio de Janeiro.

O ator finaliza seu comentário criticando o colunista com as hashtags #gregoriofail e #baixounivel.

Leia Mais

A preguiça é necessária

Para surgirem ideias, é preciso não fazer nada. Na madrugada, fumo charuto e deixo o pensamento fluir

Gato-preguiçoso-e1359293637584

Walcyr Carrasco, na Época

Sempre me perguntam sobre como é meu processo de criação. Como surgem personagens, textos? Pois bem, eu não seria nada se não fosse preguiçoso. A preguiça é uma vantagem para a sobrevivência, que faço questão de exercer.

Desde menino, ficava acordado até mais tarde, escondido de meus pais. De manhã, não conseguia levantar para ir à escola, a não ser depois de ameaças de minha mãe – como jogar um balde d’água na cama. Pior, quem dorme até tarde é tratado como preguiçoso, no pior dos sentidos. Em certa época de minha vida, trabalhei numa revista, onde ficava dois dias por semana até as 4 horas da manhã. Chegava em casa às 5 horas, tomava um banho, deitava lá pelas 6. Às 10, minha mãe (se estava de visita) batia na porta do meu quarto, gritando:

– Acorda, preguiçoso!

Não sossegava até me arrancar da cama.

Talvez por ser chamado de preguiçoso desde pequeno, me organizei para isso. Tratei de conseguir empregos onde entrava de tarde, para dormir de manhã. Isso me ajudou bastante ao longo da vida profissional, pois meus trabalhos eram menos burocráticos, exigiam ideias. Alguém que dá ideias tem mais oportunidades, seja onde for.

Para surgirem ideias, é preciso não fazer nada. Claro, a gente sempre tem uma atividade. Quando escrevo uma novela, trabalho pesado, no diálogo dos personagens, na construção de cenas etc. A história, porém, acontece quando sento para fumar meu charuto, já de madrugada, e fico pensando no nada, deixando o pensamento fluir. Ou de tarde, após uma agradável aula de pilates, quando sento para tomar um cafezinho, e a mente vaga sem objetivo. Não só na questão das novelas. Já resolvi um número imenso de questões da vida pessoal ou financeira simplesmente não fazendo nada. Diz a lenda que Newton descobriu a lei da gravidade quando, deitado debaixo de uma árvore, uma maçã caiu sobre sua cabeça. Gosto de imaginar que foi realmente assim. E que ele estava nesse estado, em que a mente viaja. Agora, imaginem se ele estivesse colhendo maçãs em cima de uma escada, sob o sol, suando. Não descobriria lei da gravidade nenhuma. Muitas grandes descobertas, até matemáticas, acontecem depois de uma noite de sono, quando o cérebro passeia, sem objetivo predefinido.

Conheço gente ferozmente empenhada em seu trabalho, que nunca teve uma ideia na vida. As empresas, a grande maioria ainda, apreciam a ideia de tirar o sangue do funcionário. Quanto mais trabalha, melhor ele é. Até ser substituído por alguém com boas ideias que, de alguma maneira na vida, encontrou espaço para relaxar. As empresas de internet descobriram que o funcionário precisa de horas vagas. Soube de uma que fez até uma pista de skate. Também abdicaram de roupas formais. Cada um vai como quer. Já trabalhei numa firma que pegou pesado com uma funcionária que usava decotes grandes demais, vestidos transparentes. Há empresas que incentivam a meditação – uma boa forma de tirar o cotidiano da cabeça e descobrir algo novo. Acredito muito no home office. Em boa parte dos empregos, não há necessidade nenhuma de o funcionário comparecer à empresa todo dia. Trabalha em casa, bem tranquilo, sem sapatos, come quando quer. Tenho uma prima que foi dona de uma corretora de produtos químicos durante anos. Fazia tudo por telefone. Vi-a várias vezes sentada na praia, ao sol, de celular na mão, combinando a retirada e entrega de caminhões de algum produto. Nunca houve um erro. Nunca perdeu um cliente.

Sofro para explicar a meus amigos que trabalho quando não faço nada. Como sabem que escrevo de madrugada, me ligam para um jantar. Digo que não vou. O argumento:

– Mas você vem, janta, bate um papo, depois vai escrever.

– Não é assim. Preciso ficar sem fazer nada. Sem conversar também, só comigo mesmo.

Do outro lado, um silêncio de horror. Para muita gente, a ideia de ficar consigo mesmo é aterrorizante. Preferem falar com estranhos. As empresas também gostam do que chamam de “organização”. Adoram cartões de ponto, horários, métricas. Chamam isso de “produtividade”. Se dariam melhor se dessem aos funcionários seus momentos de preguiça diários. Não falo só de trabalhos da área artística, mas também técnica. Uma boa ideia na área técnica não economiza milhões?

Olhar a parede com a cabeça solta é excelente. As pessoas, e as empresas também, ainda descobrirão o valor da preguiça. Torna a vida mais leve. E, muitas vezes, mais lucrativa.

Leia Mais

O caminho menos trilhado

caminhando

Ricardo Gondim

Preciso da divina companhia de quem se atreve acompanhar-me por uma rota deserta chamada vida. Firo, magoo e decepciono muitas vezes. Sofro se não expresso gratidão. Afasto gente querida. Atropelo companheiros. Como sei a dor de olhar para trás e ter remorso de não ter celebrado mais instantes, vez por outra luto para não lacrar as janelas da existência.

Contudo, seguir na estrada menos pavimentada parece tanto meu flagelo como minha fortuna. Não é fácil andar comigo. Perseguir horizontes pouco nítidos –  nebulosos – me desafia desde sempre. Mesmo quando acho difícil desvelar os enigmas herméticos, insisto em esmiuçar a sutil revelação da transcendência. Acho tudo complicado e quero saber o porquê.

Solitário – sem escolher a solidão – subo desfiladeiro. Não me interesso por descidas. Minha alma se interessa por conquistar as escarpas das serras. Cavalgo por prados selvagens sem atentar para os buracos perigosos. Nado na contramão da enxurrada que empurra toras de madeira enquanto cava rochas. Perto de mim, canhoto, as pessoas entendem o significado mais profundo de ser sinistro.

Meu corpo pede quietude, todavia, não cesso de espernear por dentro. Sou todo desassossego, todo alvoroço, todo rebuliço. Se recuo diante de acenos inquisitórios é devido ao meu destemor dos patrulheiros dos bons modos. No banquete dos bem comportados, necessito de espaço para os cotovelos. Meu ímpeto de escrever não tolera a cisma de escandalizar. Quero devanear como um poeta: alucinado com a beleza imarcescível, apaixonado pelo mistério inesgotável e alumbrado com a solenidade do sagrado.

Sei que não devo tentar explicar-me. Não por descaso, mas por me faltarem palavras. Como descrever a imensidão submersa de um coração apaixonado? Eu também tenho um caso de amor com a vida.

Minha interioridade é só minha. Mesmo assim continuo estrangeiro de mim mesmo. O homem que me encara de dentro do espelho mal sabe quem eu sou. Meus pensamentos se agitam, insubmissos. Os sentimentos colidem em noites insones. Constantes terremotos misturam medo e ousadia, ternura e raiva, fé e dúvida, empenho e fadiga. Na areia do tempo, me desconheço cada dia mais. Sou ambíguo e lógico, sensível e ríspido, melancólico e cheio de esperança.

Se insisto em não precisar de ninguém, no mesmo fôlego choro por companhia. Procuro o deserto só para morrer de saudade. Entre retroceder e avançar nos afetos, fico tensionado como elástico de estilingue. Acendo os faróis para o futuro e, ao mesmo tempo, lanço âncora. Rasgo mapas, roteiros, bulas, dogmas, contudo, gosto do rito do encontro. A antiga eucaristia do pão rasgado e do vinho tinto me enchem de significados novos. Cafuné, abraço e pequenos parágrafos carinhosos se tornam tão essenciais quanto o vento – o espírito – que me anima com eternidades. Na senda pouco povoada por onde viajo, confesso carência de intimidade.

Soli Deo Gloria 

fonte: site do Ricardo Gondim

Leia Mais

‘O pastor Silas Malafaia terá influência no governo Marina?’

bezerramarina

Sérgio Pavarini

Em meio ao tiroteio político nas redes sociais, militantes dos partidos alvejam sem piedade (e, muitas vezes, sem noção) outros candidatos. A situação se agrava quando jornalistas  acrescentam em suas receitas ingredientes como a desinformação e o preconceito, desandando a massa. Infelizmente, com trocadilho.

A pergunta que duas colegas fizeram nesta semana a um assessor de Marina Silva ilustra a série de equívocos no tratamento dispensado ao rebanho durante a campanha eleitoral. Segundo o chavão insanamente repetido, “os evangélicos podem decidir as eleições”. #zzzz

Apesar de o texto (excelente) do Ricardo Alexandre na CartaCapital ter mais de 103 mil likes, muitos jornalistas parecem não ter apre(e)ndido as lições e continuam tratando os crentes como um bloco ignaro monolítico. Embora seja meio constrangedor, é hora de fazer novamente uma confissão pública: somos desunidos e, pior, marcados por (in)diferenças.

Apressados na hora da pesquisa, alguns veem no Google que Malafaia é da Assembleia de Deus, a maior igreja pentecostal brasileira. Quase isso.  Malafaia é figura controvertida e contestada dentro da própria denominação. Basta pesquisar vídeos no Youtube para vê-lo surtado (como sempre) porque seus produtos eram boicotados na rede de lojas da denominação.

Com a morte do sogro em 2010, Malafaia assumiu a igreja Assembleia de Deus da Penha (RJ) e marotamente trocou o nome para “Vitória em Cristo”, o mesmo de seu programa de TV. Em números, a Convenção das Assembleias de Deus tem mais de 12 milhões de membros. Malafaia, 25 mil. O nome é o mesmo, porém o sobrenome e o grupo são beeem diferentes. Fácil entender os decibéis de seus tuitaços.

Dizer que Marina e Silas são assembleianos (e, por maldade eleitoreira inferência, muito parecidos) equivale a afirmar que Marisa Monte e Valesca Popozuda são cantoras. Campanhas pré- eleições sempre confirmam o provérbio iídiche que “uma meia-verdade é uma mentira inteira”.

Para reforçar um pouco mais a questão das divisões, quem conseguiria promover um prosaico aperto de mão entre Edir Macedo e o cunhado R.R. Soares? Vídeos da Universal mostram ~demônios~ dizendo que gostam da Mundial, igreja liderada por Valdemiro Santiago, outro desafeto máster de Macedo. Interpretações bíblicas nos separam e brigas denominacionais criam inimizades que só devem ser resolvidas na vida eterna. Qualquer que seja o destino das partes envolvidas.

charge: Internet
charge: Internet

Uma ilustração recorrente diz que “A igreja é como a arca de Noé, cheia de animais esquisitos” (de perto ninguém é normal, né, Caetano). Essa “fauna” reúne gente como Anivaldo Padilha, perseguido por sua luta pela democracia durante o regime militar, atletas como Kaká, David Luiz e Victor Belfort e celebridades como Heloísa Perissé, Claudia Leitte e Marlene Mattos.  Para confirmar a diversidade, não podemos nos esquecer de gente como Gretchen, Monique Evans e Kid Bengala (Kid Varão?) que (para desespero de alguns) em diferentes momentos testemunharam sobre sua relação com igrejas evangélicas. É ou Noé?

Em exames de sangue, uma amostra é suficiente para fazer a análise. O mesmo não acontece com o rebanho. Por favor, não tipifiquem os pastores usando os 5 que aparecem na lista da Forbes. Não tentem rotular os políticos cristãos tendo como parâmetro o histrionismo jeca de Marco Feliciano (até hoje chamado de “Marcos” por jornalistas distraídos).

Como acredito que política e religião se discutem (apenas o meu desmatado Palmeiras é assunto proibido), selecionei alguns trechos de uma matéria mega interessante publicada na Impacto. A revista circula há 15 anos e a última edição tem o duo às vezes desafinado “política e evangélicos” como tema.

Por aquele tipo de acaso que no dialeto brega-cristão é chamado de “jesuscidência”, quem assina a matéria também é o Ricardo Alexandre. Ele entrevistou meu amigo Carlos Alberto Bezerra Jr (deputado estadual pelo PSDB-SP) e Marina Silva, colunista do Pavablog, entre outros predicados de responsa. A entrevista aconteceu antes do acidente que vitimou Eduardo Campos.

O site da revista traz um trecho maior e, claro, os detalhes para adquirir (ou assinar) a publicação. #recomendo

ed79A liberdade, por exemplo, é um valor cristão. As sociedades que foram “salgadas” pelo evangelho normalmente experimentam mais liberdade. O respeito aos que pensam e vivem de forma diferente da nossa é uma realidade muito presente no Evangelho e isso de forma até revolucionária. O cristão que envereda pelo caminho da política precisa ter isso em mente. (Marina Silva)

Minha fé vale mais do que qualquer posição política, mas o que vejo nas bancadas religiosas não me parece reflexo dos princípios bíblicos. A contribuição evangélica na política precisa exceder o campo moral e a defesa de privilégios para impérios eclesiásticos. (Carlos Alberto Bezerra Jr)
 
Meu entendimento sobre a política como um serviço de natureza republicana e meus princípios pessoais, orientados pela fé que professo, me ensinam que devo procurar, nas ações políticas, o benefício de todas as pessoas, independentemente de suas diferenças políticas, socioculturais e religiosas. (Marina)
 
Sonho com o dia em que os cristãos do país farão “marchas para Jesus” pelas mulheres vítimas de violência, pela erradicação da miséria, da exploração sexual de crianças e do trabalho escravo. (Bezerra)
 
Ao longo de minha vida pública, tenho tido o cuidado de não fazer de púlpitos palanques e nem falar em palanques como se fossem púlpitos, por mais que essa mistura possa parecer pragmaticamente vantajosa em termos eleitorais. (Marina)
 
Onde sobra discurso, falta ação – não foi à toa que Jesus chamou de “guias cegos” aqueles que coavam mosquitos e engoliam camelos. Precisamos nos importar com temas morais. Mas é preciso ir além. Às vezes, parece que a única maneira de fazer com que certas bancadas evangélicas se importem com a corrupção, por exemplo, é tornando-a atentado ao pudor. (Bezerra)
 
Política é serviço. A visão republicana da política é servir ao bem comum. E a Bíblia orienta para que façamos isso com integridade, pois o sal evita a degradação, e com justiça, que é respeitar e defender direitos de todos. É defender o que traz luz para as trevas da injustiça. Às vezes, “ser sal e luz” significa nos posicionar em defesa dos interesses dos pobres, dos que não têm voz como os índios ou os negros, os que perambulam pelas ruas sem moradia. Às vezes, significa defender a integridade dos biomas, os “jardins” citados em Gênesis 2.15. Às vezes, é lutar por uma ideia mais do que por coisas práticas. (Marina)

Leia Mais