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Sermão do Monte – o cristianismo heróico

O cristianismo não deve ser apresentado como uma consolação vulgar, mas como uma promoção do homem… É vocação para viver como filho de Deus, na condição humana plenamente aceita, por conseguinte, para remodelar continuamente o mundo, todas as formas sociais, todas as instituições, de modo que deem uma imagem menos imperfeita do que deve ser uma comunidade de filhos de Deus…

O cristianismo é um chamado ao heroísmo…

Não há vantagem nenhuma, bem ao contrário, em nos determos no cristianismo dolente e lacrimoso que quer apoiar nas “bem aventuranças” os que apreciam o artificialismo nas coisas espirituais. Como se Cristo se dirigisse aqui a almas feridas!… Que falseamento das máximas decisivas pelas quais Jesus condena, sem apelo, a felicidade barata e as alegrias fáceis, dá-nos o sentido de nossa verdadeira grandeza e ensina-nos que é nosso próprio apetite de felicidade que deve ser transformado…

Nietzsche não errou em salientar tudo o que se insinua preguiça, de medo de esforço, de desejo de um repouso covarde, e acrescentaremos, de egoísmo com todas as suas taras, no desejo espontâneo de felicidade mesmo num cristão. A felicidade à altura de uma alma aproximadamente heroica é a única que Cristo oferece aos que querem segui-lo.

O primeiro trabalho do cristianismo é dar-nos, por mais que tenha de buscar-nos, uma alma desse quilate. Assim não se propõe a nós como uma receita para ser infalivelmente feliz, mas como uma iniciação à verdadeira grandeza.

[Y. de Montecheuil – Mélanges théologiques, p. 183  - citado por François Varillon em Elementos de Doutrina Cristã - Duas cidades - 1]

fonte: site do Ricardo Gondim

imagem: internet

O caminho de volta

Ricardo Gondim

Há algum tempo procurei achar o caminho de volta. Não, não queria retornar a antigas conceituações ou a reflexões que perderam o sentido dentro de mim. Eu precisava achar a trilha que me devolvesse ao esplendor. Já publiquei a fadiga que me baqueou na meia idade.Cheguei aos quarenta, com a sensação de que vira tudo, fizera tudo, presenciara tudo. Tomado por uma câimbra espiritual, meus nervos sentimentais travaram e os músculos existenciais, encarquilharam.

Incorporei um pedacinho do Eclesiastes cada vez que repeti para mim mesmo: “É tudo um tédio só! É uma mesmice sem tamanho! Nada tem sentido!… O que foi será novamente, o que aconteceu acontecerá de novo. Não há nada novo neste mundo. Ano após ano, é sempre a mesma coisa. Se alguém grita: ‘Ei, isso é novo!’, não se anime – é a mesma velha história!” (1.9-11- na Mensagem)

Senti as espetadas de opositores, bem como os desgostos das bobagens que eu mesmo capitaneei. Arqueado sob o horror da violência disfarçada de piedade – que jamais supus possível entre as pessoas que me rodeavam – eu queria parar. Eu não me vitimizei porque estava consciente que também havia pecado; sacrifiquei gente em nome de meus idealismos. Depois de muita confusão, eu me via enamorando do ceticismo que nasceu de minha inquietação – nunca entendi o porquê do ódio de quem acha que deve proteger a verdade, pretensamente, absoluta.

Os anos se apressaram.  Em cada agressão dada e sofrida, engrossei a crosta defensiva. Vi-me diante de dois caminhos: continuo a repetir, profissionalmente, conceitos, desgrudando a minha história do que ensino; permaneço devoto, mas, cínico? Ou pulo fora do barco de minha vocação e, amargurado, me encantono em alguma cidade para revelar os podres da vida alheia? No derradeiro degrau da inocência, acordei: deveria arranjar outra escada. Todavia, minha transformação tinha que ser completa, radical. Ou trocava de companhia, de livro e de premissa ou ficava na sinuca da “não-escolha”, entre o cinismo e a amargura.

Dei meia volta e  passei a garimpar uma rota de fuga. Consciente, sabia que insistir na antiga trilha seria suicídio; vagaroso, mas, suicídio.

Achei a literatura. Comecei pela prosa. Li como um condenado prestes a subir o patíbulo. Romances, novelas, contos, crônicas, tudo me servia de alimento. Depois, pouco a pouco, veio a poesia. Ela me oxigenou depois de décadas mergulhado nos livros técnicos. A estética da linguagem se tornou soro intravenoso em minha convalescência. O verso cadenciado, a metáfora desconcertante e a entrelinha insinuante me devolveram à vida. Mas além do romance e da poesia, conheci o escritor e o poeta; esses, sim, me tomaram pela mão.

Eu havia me acostumado a um universo ordenado por intermináveis normas. Gastei anos com companheiros que adoravam citar os textos da Bíblia que os tratavam como “santos”. Escutei gente se gabando de ser “nova criatura”. Não conto as vezes que ouvi pregações que repetiam a quatro ventos: “nascemos de novo para uma vida incorruptível”. Mas o que recitavam, simplesmente, não condizia com o que eu presenciava. Alguns desses mais ortodoxos eram, na verdade, materialistas ambiciosos; sequer escondiam a inveja do estilo de vida de novos ricos. Outros, implacáveis, se muniam de versículos bíblicos para fiscalizar a sexualidade de rapazes e moças – e eles faziam dessa tutela uma masturbação mental. (Rapazes e moças se obrigam, em muitas igrejas, a uma vida sexual clandestina para, no futuro, viverem uma sensualidade patológica) Falava-se em santidade mas não se denunciavam os politiqueiros, os medonhos articuladores de futricas, os especialistas em fofocas, os grandes demônios do falso testemunho.

Minha enxaqueca foi grande.  Eu amargava essa ressaca quando, de repente, notei a trajetória leve dos bordadores de versos, dos fiandeiros da palavra. Notei que escritores e poetas, ao seu modo, desfiavam a vida. Sem o ranço das proibições dos doutores da lei, eles ornavam as mantas que usamos para nos cobrir do frio. O poeta, sim, ele mesmo, de carne e osso, com todas as ambiguidades dos mortais, trazia o Divino para mais perto de minha alma. O escritor parecia conhecer os corredores da alma humana melhor que o hábil teólogo – frio matemático do divino.

Como desejei, em noite insones, frequentar tertúlias, saraus, bate papos literários. Eu só queria conversar com alguém com alguma leveza d’alma. Eu precisava de espaço para falar de minha tristeza sem levar um sermão sobre a felicidade. Haveria ambiente onde a gente pode brincar, ser irônico, e não escandalizar? Passei a buscar uma roda de amigos que não se assustasse com meus devaneios – alguns até meio bobos – sobre o Mistério.

Filho de outra cultura, domesticado na linguagem religiosa, vi que esse mundo estava longe, muito longe, do meu alcance. E se eu o frequentasse, destoaria. Assim, passei a escrever.

Todo escritor é um ermitão. Mas a minha escrivaninha virou um eremitério por razões diversas. Isolei-me e passei a escrever porque ambicionava me incluir no mundo dos escritores. Eu queria ficar perto deles; eles pareciam tão próximos da vida. A honestidade deles, de encarar o mundo com sua loucura e beleza, me seduzia. Intui: a loucura dos poetas pode me salvar da casmurrice e a beleza dos romancistas pode me salvar das neuroses religiosas.

Rodeei-me de Dostoiévski, Thomas Mann, Machado de Assis, José Lins do Rego, Graciliano Ramos, William Faulkner, John Updike, Mario Benedetti, Muriel Barbery e vários outros. A maioria já morta.  Mas todos, aparentemente, dispostos a mentoriar-me no ofício de profeta-poeta menor. Depois, chegaram Pessoa e Vinicius; e eu me achei na poesia.

Em busca do alumbramento que poderia me devolver brilho nos olhos, ainda descobri a verdade de Sándor Márai: “A beleza é tudo. Não existe nada maior. A vida não pode dar mais”.  Agora estou certo: Deus usou a beleza para eu achar o caminho de volta e ele poder salvar-me.

Soli Deo Gloria

fonte: site do Ricardo Gondim