Arquivo da tag: tolerância

Ateu, não anti-Deus

Fachada da boate Kiss após o incêndio.

Fachada da boate Kiss após o incêndio.

Pablo Villaça, no Diário de Bordo

Eu não acredito em Deus.

Já acreditei. Muito. Nunca tive religião, mas considerava Deus um chapa. Eu não rezava, mas conversava com ele. Sentia conforto em pensar que ele me ouvia (não usarei as maiúsculas reverentes obrigatórias a não ser ao grafar seu nome). Tinha rituais.

Aos poucos, percebi que minha crença não era fruto de minha própria fé, mas de um condicionamento que começara na primeira infância através de vários “Deus te abençoe”, “se Deus quiser”, “Deus me livre”, “vai com Deus” e por aí afora. Meu Deus não era meu, mas uma herança cultural. O dia em que disse em voz alta “Sou ateu” pela primeira vez, senti-me livre como nunca antes. Minha vida passou a ser regida pela vontade de ser alguém melhor, não por elucubrações fantasiosas sobre o que há após a morte ou sobre regras divinas traduzidas por representantes dúbios.

Dito isso, sou filho de uma espírita. Médium, como se não bastasse. Meu primo Carlos Magno e sua esposa, que amo como se fossem meus irmãos, são evangélicos (ela mais do que ele). Meu tio favorito, Jones, tem seu pai de santo como conselheiro. Amo estas pessoas como a mim mesmo e respeito quem são.

Mas abomino a religião.

Nada tenho contra a crença em Deus. Entendo como o conceito de um “pai”, de um “criador”, pode ser reconfortante. Livrei-me da necessidade de crer em algo similar, mas não acho que aqueles que sentem Deus em suas vidas são menores ou tolos. Acho absurdo, acho fabulesco e acho infantil, mas não tolo ou reprovável. Sou um ateu que abraça o amor pelo Deus no qual você acredita. Jamais me ocorreria condenar o que te conforta.

Mas se há algo dispensável nesta equação é a religião. Pense: você é católico ou evangélico basicamente por um acaso geográfico e cronológico: se tivesse nascido na Índia ou no século 15, em vez de no Brasil no século 20, creio ser razoável supor que provavelmente não seguiria padres ou pastores. Como pode, então, atribuir tamanha importância, solenidade e reverência a algo tão frágil? Se Deus existisse, você realmente acredita que ele condenaria centenas de milhões de pessoas ao inferno apenas porque passaram a seguir regras e dogmas colocados no papel por humanos falhos?

E como são falhos. Todos os dias – sem exceção -, você encontra na mídia notícias sobre incidentes revoltantes envolvendo homens e mulheres que se dizem representantes terrenos do divino. Aqui, um padre é preso por pedofilia (algo que – como fartamente documentado pelo New York Times e pelos documentários Deliver Us From Evil Mea Maxima Culpa – o atual papa encobriu quando era cardeal); ali, um pastor é preso por dizer que seu pênis era algo “sagrado”. Em Israel, uma linda menina dona de uma voz sagrada (e, para mim, a Arte merece este adjetivo) é suspensa de sua escola por ter tido a temeridade de “cantar diante de homens”, ao passo que o islã cobre suas mulheres e as subjuga ainda mais do que a Igreja Católica (e isto é um feito difícil de alcançar).

Ora, basta estudar a História do mundo para constatar a atuação nefasta da religião e de seus representantes.

Olhamos hoje para as atitudes e ditos de papas, bispos, cardeais e fiéis dos séculos 17, 18, 19 e 20 e pensamos: “Como podiam ser tão atrasados?”. Pois não se iludam: nos séculos 21, 22 e 23, os pastores, padres, rabinos e aiatolás serão vistos com o mesmo espanto, como relíquias anacrônicas.

Creia em Deus se te faz bem. Mas não permita que um humano use isto para ganhar poder, dinheiro ou fama.

Apenas em 2012, nada menos do que 20,6 bilhões de reais foram arrecadados por grupos religiosos no Brasil. Uma quantia superior a – acreditem ou não – o orçamento anual de 15 dos 24 ministérios da União. Quanto pagaram de impostos? Zero. Por quê? Não faço ideia, mas isto se reflete curiosamente na lista publicada recentemente pela Forbes, que listou seis pastores brasileiros entre os homens mais ricos do mundo.

Aparentemente, são chapas de Deus.

Não, não morro de amores pela religião. Sim, há religiosos bem intencionados, mas o sistema ao qual servem é corrompido. O poder e o dinheiro ditam as regras, bem como um conservadorismo alarmante que, em 2013, insiste em tratar mulheres como seres inferiores e que diz que homossexuais são criaturas repugnantes.

Ora, a religião é, sim, uma questão de escolha; sua orientação sexual, não. Além disso, como condenar o amor? Não importa se você ama alguém com o mesmo sistema reprodutivo que o seu; num mundo já tão violento e tomado pelo individualismo, qualquer forma de amor deveria ser celebrada, abraçada, protegida. Se um homem quer beijar outro ou se uma mulher quer acariciar os seios de outra, qual a diferença? São seres humanos, mortais, cientes de sua finitude, buscando amparo, carinho, afeto e amor nos braços de um companheiro de espécie. Que lindo. Enxergar algo reprovável nisto apenas porque o par de cromossomos 23 dos amantes é idêntico é algo… que faria uma criança inclinar a cabeça  e perguntar o que há de errado com você.

Sou ateu.

Recentemente, uma pesquisa revelou que as duas minorias mais odiadas (reparem o verbo; não se trata de “reprovar”, mas “odiar”) pelos brasileiros eram homossexuais e ateus.

Branco, heterossexual e homem, finalmente pertenço a uma minoria hostilizada. Eba.

Se Deus existisse, teria sido responsável por minha criação. Por que me odiaria? A resposta óbvia é: não odiaria. Quem dita este ódio são aqueles que se apontam como seus representantes terrenos – e só o fazem porque enxergam religiões diferentes (ou a falta de religião) como concorrentes no mercado da fé. Infelizmente, estes representantes (felizes na lista da Forbes ou não tão ricos, mas confortavelmente amparados por doações isentas de impostos) exercem uma influência inegável sobre milhões de pessoas, que, acreditando agir em defesa de Deus (ele precisa?), acabam se transformando em criaturas capazes de atos absurdamente vis.

Mais de 230 pessoas morrem numa boate no Rio Grande do Sul e evangélicos de todo o país vão ao YouTube, a comentários de sites e a blogs para dizer que as vítimas estariam vivas caso não estivessem pecando.

Isto não é falar por Deus; é vomitar pelo Diabo.

(Não que acreditar no Diabo seja menos tolo; é incrível que qualquer adulto admita crer num ser tão absurdo sem sentir vergonha.)

Sou ateu. Mas não reprovo a crença em Deus. Reprovo, contudo, a tolice da religião. Você não precisa de intermediários terrenos, falhos, gananciosos e cruéis, para comungar com aquele que você julga ser seu criador. Conferir poder a estes indivíduos é temeroso na melhor das hipóteses; na pior, é um desastre absoluto.

Além disso, entenda algo: sua fé não passa de um conjunto de ideias formatado para se conformar a uma ideologia religiosa. Você a chama de “Fé” (com maiúscula), claro, mas ela se resume, em sua essência, a conceitos, ideias. E, como tal, pode ser questionada. Se alguém diz que os conceitos de concepção imaculada, ressurreição e andar sobre as águas é tolice, você não pode dizer que o indivíduo em questão está sendo “intolerante”.

O ateu nada mais é do que alguém que acredita num Deus a menos do que você.

Pense no Lorde Xenu da Cientologia ou no anjo Moroni do Mormonismo. Ora, pense em Maomé. Ou em André Luiz. A menos que você considere todos igualmente plausíveis e dignos de crença, você é tão ateu quanto eu. Bom, talvez não tanto, mas está a um deus de distância da descrença absoluta.

Não somos tão diferentes assim, você e eu. Na realidade, o que nos separa é basicamente o fato de que eu jamais ajudaria um ser humano profundamente falho e repleto de preconceitos a assumir a posição de influenciar outros apenas porque o considero uma espécie de telefonista de Deus.

E se você refletir com cuidado, perceberá que tampouco precisa deste telefonista. Deus ficará feliz em te atender pelo celular.

Não que ele exista.

dica do João Marcos

Os limites da pregação religiosa

Para o padre Anísio Baldessin, é melhor atrair pelo exemplo do que pelo discurso

Aline Viana, no iG

A situação é difícil: um colega de trabalho descobre uma doença grave ou perde um ente querido. A intenção é boa: o primeiro consolo que lhe vem à cabeça é de cunho religioso. Mas pode ser ofensivo “evangelizar” alguém neste contexto. E em outros contextos também.

Quem nunca ouviu que religião, política e futebol não se discutem? “Na verdade, esses assuntos não se condenam. Não tenho como julgar a escolha do outro, apenas me cabe respeitá-la”, redefine Janaína Depiné, coach em relacionamentos e especialista em etiqueta.

Para Janaína, os atritos ocorrem quando se desrespeita o direito do outro de pensar diferente ou se fica preso a uma interpretação literal de uma escritura. “Jesus pregava para leprosos e prostitutas. Por isso é estranho ver alguns pastores evangélicos condenando os homossexuais. Mesmo que o Antigo Testamento condene a prática do homossexualismo, a Bíblia também diz para respeitar todos”, pontua Janaína.

Junto ao respeito, há a questão da oportunidade. Por mais que se queira levar a palavra de Deus, Jeová, Ogum, Maomé, etc. a todos, existem hora e lugar certos para fazer isso.

“Usamos muito a expressão ‘a pessoa tal é uma pessoa de Deus’ porque não precisa pregar, as atitudes falam por si mesmas”, observa o padre Anísio Baldessin, autor do livro “Entre a Vida e a Morte: Medicina e Religião” (Editora Loyola). “É melhor atrair pelo exemplo do que pelo discurso, porque se o outro se sentir agredido jamais ficará interessado em conhecer mais sobre a sua religião”, concorda Janaina.

Intolerância ao pé da letra

Paulo Vinicius passou por uma saia justa incomum no velório do pai: em vez de confortá-lo, membro da igreja que ele deixara de frequentar ignorou-o
foto: Gustavo Magnusson/ Fotoarena

No velório do próprio pai, o auxiliar judiciário Paulo Vinicius Mendes Ananias, 29, se sentiu agredido pelo comportamento de um irmão de sua antiga igreja. Ele tinha sido Testemunha de Jeová e, segundo as leis da igreja, os fiéis não podem mais manter contato com quem se afasta.

“No velório do meu pai, estávamos eu, minha mãe e a minha namorada. Chegou um irmão da igreja e cumprimentou todo mundo, menos eu. Apertou a mão da minha mãe, dos outros e passou direto por mim. Só tinha eu de filho lá na hora. E ele é um ancião, uma figura de autoridade da igreja. Eu me senti humilhado e mais triste do que já estava”, relembra Paulo.

Ele pontua que nem todos os religiosos agiram assim na ocasião. “Havia outras pessoas da igreja que me cumprimentaram, conversaram e tentaram me confortar. Mas foi justamente com aquele que não me cumprimentou que eu tive um relacionamento mais próximo, porque foi ele quem me passou os ensinamentos da religião quando eu era criança”, conta. “Hoje eu não vou mais a nenhuma igreja porque não acredito mais em nada.”

O que não fazer

Sugerir um momento de oração em local de trabalho ou de estudo pode ter a melhor das intenções, mas sair pela culatra e criar um clima de isolamento para quem não quer participar. Se uma única pessoa se sente constrangida ou desconfortável, é melhor respeitar e deixar a prática para outro momento.

Dar presentes de cunho religioso sem conhecer bem o outro também é arriscado. Se a pessoa não comunga da mesma fé, pode se ofender.

Convites para cultos também devem ter contexto adequado. Esteja pronto para ouvir um “não”. “O próprio Jesus Cristo sempre propôs: ‘se você quiser me seguir’, ‘se você quiser entrar no Reino dos Céus’…”, diz o padre Anísio.

Mas se uma pregação fora de hora ou de lugar ofender, não responda. Uma discussão não vai mudar a opinião do outro, nem torná-lo mais tolerante. Se isso acontecer, será por meio de um processo mais longo, não de um bate-boca.

Que deselegante!

A ex-primeira-dama Rosane Collor , em entrevista à edição de maio da revista “Marie Claire”, disse que a atual mulher do ex-marido, Caroline Medeiros, foi punida por Deus por ter lhe roubado Fernando Collor. Segundo Rosane, essa é a razão de uma das filhas gêmeas do ex-presidente com Caroline ter nascido com problemas de saúde.

Além de deselegante, a declaração não encontra respaldo no próprio pensamento religioso. “Deus não conserta um erro com outro erro. No Antigo Testamento, pensava-se que doença era um castigo. Mas no Cristianismo é inconcebível que os pais cometam um erro e que os filhos paguem por ele”, diz o padre Anísio.

Segundo Anísio, as dificuldades da vida serão as mesmas para os fiéis de qualquer religião – e para quem não tem nenhuma. “Ter ou não ter uma religião não livra da doença, do desemprego. E religião não é para resolver o problema de ninguém, mas sim para pôr Deus em contato com as pessoas”, conclui.

dica do Fábio Davidson

A dura vida dos ateus em um Brasil cada vez mais evangélico

A parábola do taxista e a intolerância. Reflexão a partir de uma conversa no trânsito de São Paulo. A expansão da fé evangélica está mudando “o homem cordial”?

Por Eliane Brum, publicado orinalmente no site da Época

Jornalista, escritora e documentarista. Ganhou mais de 40 prêmios nacionais e internacionais de reportagem. É autora de um romance - Uma Duas (LeYa) - e de três livros de reportagem: Coluna Prestes – O Avesso da Lenda (Artes e Ofícios), A Vida Que Ninguém Vê (Arquipélago Editorial, Prêmio Jabuti 2007) e O Olho da Rua (Globo). E codiretora de dois documentários: Uma História Severina e Gretchen Filme Estrada. elianebrum@uol.com.br @brumelianebrum

Jornalista, escritora e
documentarista. Ganhou mais
de 40 prêmios nacionais e
internacionais de reportagem.
É autora de um romance -
Uma Duas (LeYa) – e de três
livros de reportagem: Coluna
Prestes – O Avesso da Lenda
(Artes e Ofícios), A Vida Que
Ninguém Vê (Arquipélago
Editorial, Prêmio Jabuti 2007)
e O Olho da Rua (Globo).
E codiretora de dois
documentários: Uma História
Severina e Gretchen Filme
Estrada.
elianebrum@uol.com.br
@brumelianebrum

O diálogo aconteceu entre uma jornalista e um taxista na última sexta-feira. Ela entrou no táxi do ponto do Shopping Villa Lobos, em São Paulo, por volta das 19h30. Como estava escuro demais para ler o jornal, como ela sempre faz, puxou conversa com o motorista de táxi, como ela nunca faz. Falaram do trânsito (inevitável em São Paulo) que, naquela sexta-feira chuvosa e às vésperas de um feriadão, contra todos os prognósticos, estava bom. Depois, outro taxista emparelhou o carro na Pedroso de Moraes para pedir um “Bom Ar” emprestado ao colega, porque tinha carregado um passageiro “com cheiro de jaula”. Continuaram, e ela comentou que trabalharia no feriado. Ele perguntou o que ela fazia. “Sou jornalista”, ela disse. E ele: “Eu quero muito melhorar o meu português. Estudei, mas escrevo tudo errado”. Ele era jovem, menos de 30 anos. “O melhor jeito de melhorar o português é lendo”, ela sugeriu. “Eu estou lendo mais agora, já li quatro livros neste ano. Para quem não lia nada…”, ele contou. “O importante é ler o que você gosta”, ela estimulou. “O que eu quero agora é ler a Bíblia”. Foi neste ponto que o diálogo conquistou o direito a seguir com travessões.

- Você é evangélico? – ela perguntou.
- Sou! – ele respondeu, animado.
- De que igreja?
- Tenho ido na Novidade de Vida. Mas já fui na Bola de Neve.
- Da Novidade de Vida eu nunca tinha ouvido falar, mas já li matérias sobre a Bola de Neve. É bacana a Novidade de Vida?
- Tou gostando muito. A Bola de Neve também é bem legal. De vez em quando eu vou lá.
- Legal.
- De que religião você é?
- Eu não tenho religião. Sou ateia.
- Deus me livre! Vai lá na Bola de Neve.
- Não, eu não sou religiosa. Sou ateia.
- Deus me livre!
- Engraçado isso. Eu respeito a sua escolha, mas você não respeita a minha.
- (riso nervoso).
- Eu sou uma pessoa decente, honesta, trato as pessoas com respeito, trabalho duro e tento fazer a minha parte para o mundo ser um lugar melhor. Por que eu seria pior por não ter uma fé?
- Por que as boas ações não salvam.
- Não?
- Só Jesus salva. Se você não aceitar Jesus, não será salva.
- Mas eu não quero ser salva.
- Deus me livre!
- Eu não acredito em salvação. Acredito em viver cada dia da melhor forma possível.
- Acho que você é espírita.
- Não, já disse a você. Sou ateia.
- É que Jesus não te pegou ainda. Mas ele vai pegar.
- Olha, sinceramente, acho difícil que Jesus vá me pegar. Mas sabe o que eu acho curioso? Que eu não queira tirar a sua fé, mas você queira tirar a minha não fé. Eu não acho que você seja pior do que eu por ser evangélico, mas você parece achar que é melhor do que eu porque é evangélico. Não era Jesus que pregava a tolerância?
- É, talvez seja melhor a gente mudar de assunto…

Taxi cab signO taxista estava confuso. A passageira era ateia, mas parecia do bem. Era tranquila, doce e divertida. Mas ele fora doutrinado para acreditar que um ateu é uma espécie de Satanás. Como resolver esse impasse? (Talvez ele tenha lembrado, naquele momento, que o pastor avisara que o diabo assumia formas muito sedutoras para roubar a alma dos crentes. Mas, como não dá para ler pensamentos, só é possível afirmar que o taxista parecia viver um embate interno: ele não conseguia se convencer de que a mulher que agora falava sobre o cartão do banco que tinha perdido era a personificação do mal.)

Chegaram ao destino depois de mais algumas conversas corriqueiras. Ao se despedir, ela agradeceu a corrida e desejou a ele um bom fim de semana e uma boa noite. Ele retribuiu. E então, não conseguiu conter-se:

- Veja se aparece lá na igreja! – gritou, quando ela abria a porta.
- Veja se vira ateu! – ela retribuiu, bem humorada, antes de fechá-la.

Ainda deu tempo de ouvir uma risada nervosa.

A parábola do taxista me faz pensar em como a vida dos ateus poderá ser dura num Brasil cada vez mais evangélico – ou cada vez mais neopentecostal, já que é esta a característica das igrejas evangélicas que mais crescem. O catolicismo – no mundo contemporâneo, bem sublinhado – mantém uma relação de tolerância com o ateísmo. Por várias razões. Entre elas, a de que é possível ser católico – e não praticante. O fato de você não frequentar a igreja nem pagar o dízimo não chama maior atenção no Brasil católico nem condena ninguém ao inferno. Outra razão importante é que o catolicismo está disseminado na cultura, entrelaçado a uma forma de ver o mundo que influencia inclusive os ateus. Ser ateu num país de maioria católica nunca ameaçou a convivência entre os vizinhos. Ou entre taxistas e passageiros.

Já com os evangélicos neopentecostais, caso das inúmeras igrejas que se multiplicam com nomes cada vez mais imaginativos pelas esquinas das grandes e das pequenas cidades, pelos sertões e pela floresta amazônica, o caso é diferente. E não faço aqui nenhum juízo de valor sobre a fé católica ou a dos neopentecostais. Cada um tem o direito de professar a fé que quiser – assim como a sua não fé. Meu interesse é tentar compreender como essa porção cada vez mais numerosa do país está mudando o modo de ver o mundo e o modo de se relacionar com a cultura. Está mudando a forma de ser brasileiro.

Por que os ateus são uma ameaça às novas denominações evangélicas? Porque as neopentecostais – e não falo aqui nenhuma novidade – são constituídas no modo capitalista. Regidas, portanto, pelas leis de mercado. Por isso, nessas novas igrejas, não há como ser um evangélico não praticante. É possível, como o taxista exemplifica muito bem, pular de uma para outra, como um consumidor diante de vitrines que tentam seduzi-lo a entrar na loja pelo brilho de suas ofertas. Essa dificuldade de “fidelizar um fiel”, ao gerir a igreja como um modelo de negócio, obriga as neopentecostais a uma disputa de mercado cada vez mais agressiva e também a buscar fatias ainda inexploradas. É preciso que os fiéis estejam dentro das igrejas – e elas estão sempre de portas abertas – para consumir um dos muitos produtos milagrosos ou para serem consumidos por doações em dinheiro ou em espécie. O templo é um shopping da fé, com as vantagens e as desvantagens que isso implica.

É também por essa razão que a Igreja Católica, que em períodos de sua longa história atraiu fiéis com ossos de santos e passes para o céu, vive hoje o dilema de ser ameaçada pela vulgaridade das relações capitalistas numa fé de mercado. Dilema que procura resolver de uma maneira bastante inteligente, ao manter a salvo a tradição que tem lhe garantido poder e influência há dois mil anos, mas ao mesmo tempo estimular sua versão de mercado, encarnada pelos carismáticos. Como uma espécie de vanguarda, que contém o avanço das tropas “inimigas” lá na frente sem comprometer a integridade do exército que se mantém mais atrás, padres pop star como Marcelo Rossi e movimentos como a Canção Nova têm sido estratégicos para reduzir a sangria de fiéis para as neopentecostais. Não fosse esse tipo de abordagem mais agressiva e possivelmente já existiria uma porção ainda maior de evangélicos no país.

Tudo indica que a parábola do taxista se tornará cada vez mais frequente nas ruas do Brasil – em novas e ferozes versões. Afinal, não há nada mais ameaçador para o mercado do que quem está fora do mercado por convicção. E quem está fora do mercado da fé? Os ateus. É possível convencer um católico, um espírita ou um umbandista a mudar de religião. Mas é bem mais difícil – quando não impossível – converter um ateu. Para quem não acredita na existência de Deus, qualquer produto religioso, seja ele material, como um travesseiro que cura doenças, ou subjetivo, como o conforto da vida eterna, não tem qualquer apelo. Seria como vender gelo para um esquimó.

Tenho muitos amigos ateus. E eles me contam que têm evitado se apresentar dessa maneira porque a reação é cada vez mais hostil. Por enquanto, a reação é como a do taxista: “Deus me livre!”. Mas percebem que o cerco se aperta e, a qualquer momento, temem que alguém possa empunhar um punhado de dentes de alho diante deles ou iniciar um exorcismo ali mesmo, no sinal fechado ou na padaria da esquina. Acuados, têm preferido declarar-se “agnósticos”. Com sorte, parte dos crentes pode ficar em dúvida e pensar que é alguma igreja nova.

Já conhecia a “Bola de Neve” (ou “Bola de Neve Church, para os íntimos”, como diz o seu site), mas nunca tinha ouvido falar da “Novidade de Vida”. Busquei o site da igreja na internet. Na página de abertura, me deparei com uma preleção intitulada: “O perigo da tolerância”. O texto fala sobre as famílias, afirma que Deus não é tolerante e incita os fiéis a não tolerar o que não venha de Deus. Tolerar “coisas erradas” é o mesmo que “criar demônios de estimação”. Entre as muitas frases exemplares, uma se destaca: “Hoje em dia, o mal da sociedade tem sido a Tolerância (em negrito e em maiúscula)”. Deus me livre!, um ateu talvez tenha vontade de dizer. Mas nem esse conforto lhe resta.

Ainda que o crescimento evangélico no Brasil venha sendo investigado tanto pela academia como pelo jornalismo, é pouco para a profundidade das mudanças que tem trazido à vida cotidiana do país. As transformações no modo de ser brasileiro talvez sejam maiores do que possa parecer à primeira vista. Talvez estejam alterando o “homem cordial” – não no sentido estrito conferido por Sérgio Buarque de Holanda, mas no sentido atribuído pelo senso comum.

Me arriscaria a dizer que a liberdade de credo – e, portanto, também de não credo – determinada pela Constituição está sendo solapada na prática do dia a dia. Não deixa de ser curioso que, no século XXI, ser ateu volte a ter um conteúdo revolucionário. Mas, depois que Sarah Sheeva, uma das filhas de Pepeu Gomes e Baby do Brasil, passou a pastorear mulheres virgens – ou com vontade de voltar a ser – em busca de príncipes encantados, na “Igreja Celular Internacional”, nada mais me surpreende.

Se Deus existe, que nos livre de sermos obrigados a acreditar nele.

dica da Irla Costa e do Will Carvalho

dezenas de comentários dos evangélicos ao texto são uma dureza. com trocadilho. 

Hereges e heresias

iraque 7 anos 7 7 anos de guerra no Iraque (70 fotos)

Ricardo Gondim

Com quantos argumentos se estabelece uma questão? Os nazistas souberam demonizar os judeus, já os comunistas habilidosamente desmontaram a lógica de Hitler. Os americanos organizaram uma estrutura filosófica que justificou o bombardeio sobre o Iraque (foto).

Richard Dawkins escreveu um livro em que ele criteriosamente procura desmascarar os evangélicos ocidentais. Mas já existem vários livros que denunciam a fragilidade dos argumentos deste ateu belicoso.

E assim se alongam as controvérsias.

Um debate de ideias, quando serve a propósitos escusos, tem vida longa e é, na verdade, interminável. Os polemistas assumem, muitas vezes, o perfil do torturador num interrogatório; ele não espanca porque busca extrair a verdade, mas para destruir a pessoa.

O que seria uma heresia? A negação de uma moldura teológica bem assumida por um grupo? Uma hegemonia dogmática? Uma outra interpretação que não se alinha à que pretende ser a melhor e mais autêntica ?

Ouso redefinir o conceito de heresia.

Heresia para mim é falta de reverência pela vida. Todo e qualquer sistema que não defenda os mais frágeis, os menos competentes, os mais indignos, é herética, por mais coerente que se mostre.

Heresia para mim é falta de consideração. As instituições, escolas teológicas e igrejas que descartam as pessoas com suas biografias e seu legado em nome de uma retidão conceitual são heréticas, mesmo que consigam repetir dogmas e catecismos.

Heresia para mim é falta de mansidão. Se a defesa de verdades complexas e excelentes, que extrapolam a capacidade humana, gerar pessoas soberbas, arrogantes e inclementes, isso é apostasia, mesmo que ninguém consiga discordar de seus pressupostos acadêmicos.

Heresia para mim é falta de integridade. Cada dia mais me convenço de que a linguagem religiosa camufla e dissimula a condição humana inadequada e pecaminosa. Não suporto ler tratados sobre santidade quando não percebo um mínimo de sinceridade em quem escreve de admitir suas próprias falhas.

Heresia para mim é falta de honestidade. Algumas pessoas falam de Sartre, Gustavo Gutierrez, Marx, Freud, sem nunca terem lido uma linha sequer do que escreveram. Tenho pena de quem não consegue comer peixe por ter medo de se engasgar com as espinhas. Esses, à priori, jogam pedra e preconceituosamente só se interessam em ler quem já criticou aquela ideia.

A tolerância nasce da admissão de que pode, sim, vir coisa boa de Nazaré, das mulheres, dos pentecostais e dos negros. Ouvir é uma arte e quem não se dispõe para o diálogo amoroso, para mim, é um herege, mesmo que esteja coberto de razão.

O que Deus requer das pessoas? Que sejam misericordiosos, que façam justiça e que andem humildemente com ele.

Esse tipo de vida não tem muito espaço para a heresia; é assim que desejo caminhar.

Soli Deo Gloria.

fonte: site do Ricardo Gondim

foto: Cogumelo Louco