Arquivo da tag: Tornou

Os parceiros dos exibidos

facebook

Por Ivan Martins, na Época

Tem gente que pira nas redes sociais. Você abre o Instagram e a pessoa está lá, se exibindo da forma mais escandalosa. Ah, como eu sou linda. Ah, como eu sou foda. Ah, meu deus, como eu sou feliz. No Facebook, ele publica fotos que deveriam ter sido deletadas, revela detalhes sobre a sua vida privada, se gaba de tantas coisas, e com tanta frequência, que faz a gente pensar que, na verdade, anda profundamente deprimido.

Não estou falando – vejam bem – de quem perde a mão de vez em quando e exagera na exposição de si mesmo. Isso acontece. A esta altura da sociedade do espetáculo, o mau gosto eventual tornou-se quase obrigatório. O problema com quem pira nas redes é que age sem pudor sistematicamente. É como o sujeito que bebeu demais toda vez que você o encontra. Ele é bêbado, né?

Com isso tudo estamos acostumados, porém. Os excessos nas redes sociais não são novidade. O que me fez escrever esta coluna foi a súbita percepção de que os superexibidos têm parceiros.

Cada vez que eles fazem um espetáculo de si mesmo sobra para quem está ao lado. O sujeito sobe uma foto da baladas às 3 da manhã e a namorada leva uma porrada quando abre o telefone, seis horas depois. Ou ela posta um comentário indiscreto logo cedo e ele passa o dia ouvindo ironias dos “amigos” comuns.

Parece inevitável que onde existe alguém obcecado em exibir-se haverá outro alguém juntando os caquinhos emocionais. Ninguém passa imune a esse tipo de streap tease.

Para quem não frequenta as redes sociais, esta conversa talvez pareça mi-mi-mi, mas juro que não é. O balanço entre público e privado tornou-se uma questão real para os casais. O que se mostra e o que não se mostra? Qual é o nosso combinado? Quando uma das partes tem compulsão de aparecer, fica mais difícil. Aí cabe a um conviver passivamente com a consequência dos excessos do outro – o que frequentemente é intolerável.

Uma pesquisa da Universidade do Missouri divulgada na internet sugere que quanto mais os casais usam o Facebook mais eles brigam. Em geral por causa de ciúme. Eu entendo perfeitamente.

Pouca gente lida bem com a documentação da vida dos parceiros. Antes, quando entravam num relacionamento sério, as pessoas tiravam da estante as fotos dos ex-namorados e colocavam a troca de email com eles numa pastinha escondida no computador. Agora existem as redes. Nelas estão as fotos dos três últimos namoros, assim como promessas de amor e os grunhidos sensuais trocados em cada um deles. Para todo mundo ver e compartilhar.

Se isso não fosse constrangimento suficiente, ainda vem uma torrente diária de novas imagens, novos amigos, renovados e ardorosos elogios – “que gato”, “que linda”, “cada vez melhor”… Haja desapego.

Relacionamentos, da forma como eu vejo, são construções para dois. Eles têm um forte componente social – dependem de amigos, família, colegas – mas, fundamentalmente, triunfam ou fracassam na intimidade. Quando uma das partes resolve viver em público, a relação fica enormemente vulnerável. Emoções que caberiam melhor na mesa da cozinha ou no banco da frente do carro acabam sendo exibidas diante de todos, como acontece com os artistas. Poucos aguentam esse tipo de exposição.

Ao final, quem procura atrair demais a aprovação de estranhos provoca insegurança no parceiro. Sugere que não bastam a atenção nem o aconchego que ele oferece. Se tudo tem de ser dividido com todos, o que há de especial e único nesta relação aqui? É algo a se pensar. E algo a se proteger. O ruído de aprovação das redes sociais, por mais intenso que seja, não preenche a nossa solidão. Ela se resolve apenas com relações reais. Amigos reais. Família real. Amor de verdade, com carne, ossos e defeitos, protegido por uma grossa camada de intimidade e de silêncio.

As 10 fotografias brasileiras mais famosas de todos os tempos

Publicado na Revista Bula

Para se chegar ao resul­tado fiz uma compilação de exposições, reportagens, listas publicadas por sites especializados em fotografia, es­por­tes, cultura pop, política e história. O objetivo de minha pesquisa era identificar quais são as 10 fotografias brasileiras mais famosas de todos os tempos. Participaram do levantamento as publicações: “Uni­verso Online”, “Arquivo Pú­blico do Estado de São Paulo”, “Folha de S. Paulo”, “O Es­tado de S. Paulo”, revista “Placar” revista “Isto é”, revista “Veja”, “Jornal do Brasil”, “O Globo”, “World’s Famous Photos”, “Al Fotto”, “Images e Visions”. Eis, em ordem classificatória, as 10 fotografias selecionadas baseadas nas pu­blicações pesquisadas.

1 — O coração do Rei (1970)

11

Fotografia feita em 30 de setembro de 1970, durante o jogo Brasil 2 x México 1, no estádio do Maracanã, Rio de Janeiro. Na imagem, o suor na camiseta de Pelé forma desenho de um coração. A versão que a foto teria sido simulada já foi desmentida dezenas de vezes. “Ainda hoje há quem me pergunte se não foi Photoshop, sempre tenho de explicar que isso nem existia naquela época”, afirma Luiz Paulo Machado. Fotografia: Luiz Paulo Machado.

2 — A piscada de Ayrton Senna (1989)

21

Fotografia feita em 26 de março de 1989, durante o Grande Prêmio Brasil de Fórmula 1, no Autódromo de Jacarepaguá, no Rio de Janeiro. Na fotografia, Ayrton Senna pisca o olho para o chefe de equipe da McLaren, Ron Dennis, sinalizando que estava pronto para correr. Fotografia: Evandro Teixeira.

3 — Serra Pelada gold mine (1986)

31

Fotografia feita em abril de 1986, no garimpo de Serra Pelada, no sul do Estado do Pará. Serra Pelada se tornou mundialmente conhecida por ter abrigado a maior corrida do ouro da era moderna, onde foram extraídas, oficialmente, 30 toneladas de ouro. Fotografia: Sebastião Salgado.

4 — A garota de Ipanema (1960)

41

Fotografia feita em março de em 1960 pelo fotógrafo francês Milan Alram, na praia de Ipanema, no Rio de Janeiro. Dois anos depois, a garota da foto, Eneida Menezes Paes Pinto Pinheiro (Helô Pinheiro), seria imortalizada por Vinícius de Moraes e Tom Jobim na canção “Garota de Ipanema”, uma das músicas mais executadas no mundo. Fotografia: Milan Alram.

5 — O suicídio de Vladimir Herzog (1975)

51

A fotografia, que tornou-se um símbolo da repressão promovida pela ditadura militar, foi feita em 25 de outubro de 1975 nas dependências do DOI-CODI (Destacamento de Operações de Informações — Centro de Operações de Defesa Interna), em São Paulo. Na fotografia, o jornalista Vladimir Herzog é encontrado enforcado com um cinto. Mais de três décadas depois, o fotógrafo Silvaldo Leung Vieira, autor do registro, afirmou, em entrevista a “Folha de S. Paulo”, ter sido usado pela ditadura para forjar uma cena de suicídio. Fotografia: Silvaldo Leung Vieira.

61

Fotografia feita em 15 de agosto de 1971 na ilha de Paquetá, no Rio de Janeiro. A imagem de Leila Diniz de biquíni — grávida de seis meses — escandalizou o Brasil e virou um clássico da iconografia feminina no país. A fotografia, na ocasião, despertou a ira dos conservadores. Fotografia: Joel Maia.

71

Fotografia feita em 5 de julho de 1982, no estádio Sarriá, em Barcelona, Espanha. Paulo Roberto Falcão comemora o gol de empate contra a Itália, na Copa do Mundo de 1982. A seleção brasileira, considerada uma das melhores da história das copas e favorita ao título, acabaria sendo desclassificada por 3 x 2. O jogo ficou conhecido como o Massacre do Sarriá. Fotografia: J.B. Scalco.

81

Fotografia feita em fevereiro de 1970, na cidade do Rio de Janeiro, onde Janis Joplin passou 10 dias acompanhada pelo pelo fotógrafo Ricky Ferreira e pelo cantor Serguei. “Creio que a viagem ao Brasil não foi uma boa experiência para ela. Foi muito maltratada. Acho que eles pensavam que a superstar Janis Joplin era mais uma das belezas do cenário hollywoodiano”, afirma o fotógrafo. Fotografia: Ricky Ferreira.

9 — JK e a inauguração de Brasília (1960)

Gervasio Batista (fotografo) Palacio do Planalto

Fotografia feita em 21 de abril de 1960. Gervásio Baptista, repórter fotográfico da revista “Manchete”, tinha ido a Brasília com a missão de fazer a foto de uma edição especial sobre a inauguração da nova capital. A fotografia, na subida da rampa do Palácio do Planalto, com Juscelino Kubitschek acenando com a cartola correu o mundo e virou um dos símbolos da cidade. Fotografia: Gervásio Baptista.

10 — Passeata dos Cem Mil (1968)

101

Fotografia foi feita em de 26 de junho de 1968, na cidade do Rio de Janeiro, durante uma manifestação popular de protesto contra a ditadura militar, organizada pelo movimento estudantil e que contou com a participação de artistas, intelectuais e setores da sociedade brasileira. Fotografia: Evandro Teixeira.

Qual baderna?

qual-badernaContardo Calligaris, na Folha de S. Paulo

Em agosto de 1792, Maria Antonieta devia achar que os que se juntavam na frente das Tuileries eram baderneiros ignorantes.

Em dezembro de 1773, o governador inglês da província de Massachusetts devia pensar a mesma coisa dos “filhos da liberdade”, que se disfarçavam de índios, subiam nos navios, jogavam o chá no mar e não queriam pagar os impostos.

Na época, Samuel Adams explicou que, mesmo se esses homens fossem apenas vândalos descontrolados, eles seriam, de fato, os defensores dos direitos básicos do povo das colônias.

A maioria dos paulistanos (e, suponho, dos brasileiros) pensa como Samuel Adams e deseja que as manifestações continuem, por uma razão que está muito além da tarifa dos ônibus: a relação do poder público com os cidadãos do Brasil é, sistematicamente, há muito tempo, de descaso e desrespeito, se não de abuso.

A escola e a saúde públicas são o destino resignado dos desfavorecidos. A insegurança se tornou uma condição existencial, tanto no espaço público quanto dentro da própria casa de cada um. O atraso da Justiça garante impunidades iníquas.

Claro, nossa arrecadação per capita é menos de um terço da dos EUA, por exemplo. Ou seja, talvez tenhamos os serviços públicos que podemos nos permitir.

Convenhamos, seria mais fácil aceitar essa triste realidade 1) se a corrupção não fosse endêmica e capilar, especialmente na administração pública, 2) se os governantes baixassem o tom ufanista de nossos supostos progressos e sucessos, 3) se a administração pública não fosse cronicamente abusiva e desrespeitosa dos cidadãos e de seus direitos.

Além disso, o dinheiro no Brasil compra uma cidadania VIP, na qual não só escola, saúde e segurança são serviços particulares, mas a própria relação com a administração pública é filtrada por um exército de facilitadores e despachantes.

A sensação de injustiça é exacerbada pela constatação de que muitos representantes procuram ser eleitos para ganhar acesso à dita cidadania VIP. Por isso, hoje, circulam aos borbotões, na internet, propostas de reforma política em que, por exemplo, 1) os membros do Legislativo e do Executivo seriam obrigados a recorrer, para eles mesmos e para seus filhos, aos serviços da educação e da saúde públicas, 2) os congressistas não teriam nenhum regime privilegiado de aposentadoria, 3) os congressistas não poderiam votar o aumento de seus próprios salários etc.

Para piorar, os representantes parecem se preocupar pouco com os compromissos de seu mandato e muito com sua própria permanência nos privilégios do poder. Por isso, por exemplo, eles compõem alianças que desrespeitam e humilham seus próprios eleitores.

Nesse contexto espantoso, é patética a indignação com os “baderneiros” e mesmo com a margem de delinquentes comuns que se agregaram às manifestações.

O poder, quando não é efeito de graça divina, vem dos próprios cidadãos e é condicional: só posso reconhecer e respeitar a autoridade que me reconhece e me respeita. Uma autoridade que me desrespeita merece uma violência equivalente à que ela exerce contra mim.

Além disso, é bom não perder o senso das proporções. “Olhe, olhe!”, grita um repórter, enquanto a tela mostra alguém que foge de uma loja saqueada levando algo no ombro. Tudo bem, estou olhando e não estou gostando, mas minha indignação é mais antiga e por saques muito maiores.

Outro repórter pensa nos coitados que perderão o avião, em Cumbica, por causa dos manifestantes que bloqueiam o acesso ao aeroporto. Mas o verdadeiro desrespeito é o de nunca ter construído uma linha de trem entre São Paulo e o maior aeroporto do país.

O ministro Antonio Patriota se declarou indignado com o vandalismo contra o Palácio do Itamaraty. Com um pouco de humor negro, eu poderia suspeitar que os apedrejadores talvez tenham precisado um dia dos serviços de um consulado no exterior. Mas, deixemos. Apenas pergunto: se esses forem vândalos, então o que são, por exemplo, os latifundiários desmatadores da Amazônia?

Enfim, à presidenta Dilma gostaria de dizer: não acredito que os “baderneiros” das últimas semanas tenham envergonhado o Brasil — nem mesmo quando alguns depredaram o patrimônio público. Presidenta, você sabe isto mais e melhor do que muitos de nós: o que envergonha o Brasil é uma outra baderna, bem mais violenta, que dura há 500 anos e que gostaríamos que parasse.

dica do Nilton Medeiros

17 problemas que você não tem desde os anos 90

Clara Fagundes e Léo Lima, no Guia Ingresse

O texto original do post a seguir é do More Beans.

Ah, como o tempo voa.

Embora Dawson’s Creek não tenha nos dado um drama atemporal ou um realismo corajoso, não foi de todo mau.

Michelle Williams levou um Oscar, Katie Holmes se casou (e se divorciou) do cientólogo mais famoso do planeta, e Dawson aos prantos se tornou um dos melhores memes que vimos em eras.

Sério, o meme dos problemas dos anos 90 nos faz desejar os dias em que assistíamos a VHS e ligávamos para os nossos amigos pelo telefone de casa.

Bons tempos aqueles… Tão simples!

1.
Montagem 1

2.
Montagem 2 (1)

3.
Montagem 34.

4.
Montagem 4

5.
Montagem 5 - Corrigida

6.
Montagem 67. 

7.
Montagem 7- corrigido

8.
Montagem 8

9.
Montagem 9

10.
Montagem 10 - Corrigida

11.
Montagem 11

12.
Montagem 12 - corrigida

13.
Montagem 13

14.
Montagem 14

15.
Montagem 15

16.
Montagem 16 - Corrigida

17.
Montagem 17

dica do Sidnei Carvalho de Souza

Karen Armstrong: “Não espere muito do papa Francisco”

A mais importante historiadora das religiões diz que o novo pontífice não será capaz de reformar a Igreja Católica

TRANSCENDENTE Karen Armstrong, em São Paulo. Para ela, Deus responde à necessidade humana de alcançar o inexplicável (Foto: Alexandre Severo/ÉPOCA)

TRANSCENDENTE
Karen Armstrong, em São Paulo. Para ela, Deus responde à
necessidade humana de alcançar o inexplicável
(Foto: Alexandre Severo/ÉPOCA)

Luís Antônio Giron, na Época

A britânica Karen Armstrong, de 68 anos, tornou-se freira em 1962, num gesto de revolta contra o materialismo de sua família. Seus ideais religiosos se desfizeram nos sete anos em que esteve no convento. Quando desfez os votos, depois de se formar em letras na Universidade Oxford, já não acreditava em Deus. Passou a estudar as religiões para tentar recuperar a fé. Tornou-se a mais eminente historiadora das religiões da atualidade. Escreveu duas dezenas de livros sobre o tema. Foi pela ciência que ela diz ter reencontrado Deus. Há duas semanas, ela participou da série de debates Fronteiras do Pensamento, em Porto Alegre e São Paulo. Falou com ÉPOCA sobre intolerância religiosa, fundamentalismo e ateísmo. Para ela, Deus não existe se não é praticado.

ÉPOCA – O papa Francisco promoverá mudanças importantes na Igreja Católica?
Karen Armstrong –
A chegada de um papa latino-americano está dando um ar novo ao Vaticano, um local que precisa se livrar da poeira. O cardeal Jorge Mario Bergoglio conviveu com a pobreza na Argentina. A escolha do nome Francisco comprova seu compromisso com um voto de pobreza. Gostei de vê-lo se hospedar num hotel modesto de Roma. Foi um gesto natural e bonito. Mas ele continua a ser conservador, escolhido pelo mais retrógrado dos papas, João Paulo II. Não espere muito do papa Francisco. Não só porque é difícil romper com a rigidez e a decadência do Vaticano, mas também porque seu perfil é austero. Ele não realizará as reformas radicais de que a Igreja Católica precisa.

ÉPOCA – Uma reforma poderia abrir a Igreja à maior participação das mulheres. Se a senhora fosse eleita papisa num conclave, quais seriam suas primeiras medidas?
Karen –
Seria impossível. Mas começaria fazendo aquilo que Bergoglio deveria ter feito no instante em que apareceu à multidão do balcão da igreja de São Pedro: pedir desculpas pelos pecados que a Igreja cometeu nos últimos anos. Pediria perdão às crianças assediadas sexualmente por sacerdotes. Pediria perdão às vítimas, porque o papa João Paulo II ocultou esses problemas, incentivando a pedofilia no seio da Igreja. Eu me desculparia com as freiras, por elas sempre ocuparem um lugar secundário tanto nas missas como na hierarquia da Cúria romana. Decretaria, além da participação das mulheres religiosas em todos os níveis da Igreja, o fim do celibato e o direito à opção sexual dos religiosos. Isso traria uma renovação espiritual ao catolicismo. O celibato clerical surgiu arbitrariamente, no século XI, por decreto do papa Gregório VII. Esse decreto está mais do que na hora de cair. É impossível manter a Igreja com proibições que vão contra a natureza humana. O resultado são escândalos sexuais em todos os lugares envolvendo padres.

ÉPOCA – O aborto e o casamento entre pessoas do mesmo sexo podem ser aceitos por alguma igreja cristã?
Karen –
A permissão do aborto e do casamento gay será muito difícil, senão impossível, pois são temas tabus, que chocam milhões de pessoas. Para ser sincera, considero o aborto e o homossexualismo reflexo da civilização egoísta, materialista e consumista em que vivemos. São temas pouco relevantes numa revolução religiosa. Há coisas mais urgentes a fazer, como as que citei anteriormente.

ÉPOCA – Seu livro 12 passos para uma vida de compaixão afirma que a solução para os conflitos mundiais está em aplicar a “regra de ouro”, de Confúcio: “Não trate os outros como você não gostaria de ser tratado”. É suficiente?
Karen –
Sim, porque a regra de ouro é prática. Ela implica uma ação. Ela sugere a prática de um valor que está em quase todas as religiões: a compaixão – palavra que significa “colocar-se no lugar de outra pessoa e sentir o que ela sente”. Daí nasce a atitude altruísta, que pode mudar a história. As religiões são disciplinas que levam seu praticante a agir.

“Alcançar Deus requer disciplina
e desprendimento. Não combina com a era tecnológica”

ÉPOCA – Um dos passos que a senhora arrola para viver em compaixão é bem difícil de praticar: “Ame seus inimigos”. Como é possível?
Karen –
Quando Cristo prega que precisamos amar o inimigo, ele não sugere que você se entregue a ele. Na realidade, ele aconselha evitar o ódio e a vingança. Nelson Mandela (ex-presidente da África do Sul) e o Dalai-Lama (líder espiritual tibetano) são exemplos atuais de homens que não praticaram o revanchismo nem o ódio em relação a seus inimigos. Mandela buscou a reconciliação, mesmo depois de ter permanecido na prisão por 27 anos. O Dalai-Lama não condenou os algozes do budismo, os chineses. Os dois não se vingaram. Preferiram a vida da compaixão.

ÉPOCA – No ensaio Em defesa de Deus (2009), a senhora associa a intolerância, o fundamentalismo e o ateísmo, como movimentos que reduzem o sentimento religioso. Como explica esse entrelaçamento?
Karen –
Um fenômeno leva ao outro. O ateísmo contemporâneo de Richard Dawkins (zoólogo inglês) e Sam Harris (neurocientista americano) é resultado do fundamentalismo religioso. Tanto ateístas como fundamentalistas são intolerantes, pois condicionaram a existência de Deus a provas factuais e materiais. Para eles, Deus deixou de envolver a transcendência.

ÉPOCA – Num mundo regido pela ciência, a visão reducionista de Deus pode ser contagiante. Seus estudos nas mais variadas religiões constituíram uma maneira de encontrar Deus. Onde podemos encontrar Deus nos dias de hoje, afinal?
Karen –
Há um Deus comum às três grandes religiões monoteístas, que surgiram na era que chamo “axial”. Foi então que os grandes filósofos, também teólogos, chegaram à ideia de Deus. Deus está no ar, nos pássaros, nas plantas. Deus está em você neste instante. Ele não existe dessa forma, não é o sujeito barbudo das representações pictóricas. Deus é o símbolo da transcendência, uma necessidade humana de alcançar o inexplicável. Nesse aspecto, religião e arte são atividades parecidas. Ambas tentam explicar de forma não racional o que não pode ser explicado, como a mortalidade, a injustiça e a dureza da vida. Parece algo simples, mas alcançar Deus requer disciplina e desprendimento. Não combina com a era tecnológica. Mas Deus pode retornar, pois uma revolução espiritual terá de acontecer. As religiões podem ajudar nessa mudança.

ÉPOCA – Os atentados a bomba na maratona de Boston, em 15 de abril, trouxeram de volta a questão do fundamentalismo. Os irmãos Tamerlan e Djokhar Tsernaev cometeram os atentados por excesso de fé?
Karen –
Eles não sabiam nada de islamismo. Não cumpriram nenhum decreto islâmico, não fazem parte de nenhum culto organizado. Fundamentalismo foi um desculpa esfarrapada. Os dois não professavam a fé islâmica, e sim participavam de grupos de discussão e redes sociais por motivação totalmente política. Tamerlan tinha o visto de trabalho, Djokhar é cidadão americano, ambos estavam entrosados na cultura americana, com seus valores consumistas e tudo o mais.

ÉPOCA – Muitos analistas associaram o atentado à vingança islâmica.
Karen –
É uma tendência ocidental associar o terrorismo político ao fundamentalismo religioso. Não há uma frase no Corão que pregue a violência e a destruição de outro ser humano. Osama Bin Laden morreu com fama de profeta maometano, mas agiu como um militante político contra a política internacional dos Estados Unidos e de Israel. Os manifestos de Osama tinham conteúdo materialista e militante. Ele menciona os “cruzados”. Esse termo não tem, em árabe, uma conotação religiosa. É o modo como os árabes se referem às tropas ocidentais. Quando dizia “sionistas”, referia-se ao Exército israelense. Osama lutava contra a interferência do Ocidente na Palestina, na Arábia Saudita e no Iraque. Os conflitos no Oriente Médio são seculares. Não existe uma luta pela supremacia de uma religião sobre a outra. Trata-se de uma guerra tradicional, por territórios e poder.

>> O filho de dois Franciscos  

ÉPOCA – Diante de sua atual visão não religiosa em relação ao conflito entre Oriente e Ocidente, como a senhora explica sua afirmação, publicada no livro de memórias A escada espiral (2004) de que o 11 de setembro mudou o curso de sua vida e sua visão sobre religião?
Karen –
Afirmei isso porque, a partir de então, o debate sobre o choque de culturas e religiões tornou-se central. Até 2001, não se falava tanto nisso. Trabalhava mais ou menos tranquila, à sombra das bibliotecas de universidades. De repente, comecei a ser chamada a falar sobre religião. Aí me dei conta de que uma historiadora da religião, como eu, passava a ser importante para as pessoas pensarem sobre o mundo contemporâneo. Fiquei surpresa. E me tornei uma viajante mundial, não porque goste disso – odeio avião –, mas porque fui levada a me manifestar.