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Aposentadoria faz mal à saúde, diz estudo

A aposentadoria pode gerar prejuízos para a saúde física e mental, revelou uma nova pesquisa.

foto: Internet

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Publicado originalmente por BBC Brasil

O estudo, publicado pelo centro de estudos Institute of Economics Affairs (IEA) com sede em Londres, descobriu que a aposentadoria leva a um “drástico declínio da saúde” no médio e longo prazos.

Segundo a IEA, a pesquisa sugere que as pessoas devem trabalhar por mais tempo por razões de saúde e também financeiras.

O estudo, realizado em parceria com a entidade beneficente Age Endeavour Fellowship, comparou aposentados com pessoas que continuaram a trabalhar mesmo após terem alcançado a idade mínima para a aposentadoria e também levou em conta possíveis fatores

Philip Booth, diretor da IEA, disse que os governos deveriam desregular os mercados e permitir que as pessoas trabalhassem por mais tempo.

“Trabalhar mais não será apenas uma necessidade econômica, mas também ajudará as pessoas a viverem vidas mais saudáveis”, disse ele.

Edward Datnow, president da Age Endeavour Fellowship, acrescentou: “Não deveria haver uma idade ‘normal’ para a aposentadoria no futuro”.

Na Grã-Bretanha, o governo já planeja elevar a idade mínima para a aposentadoria.

“Mais empresários precisam pensar sobre como podem capitalizar em cima da população mais velha e aqueles que querem se aposentador devem refletir duas vezes sobre essa questão”.

O estudo, focado na relação entre atividade econômica, saúde e política pública de saúde na Grã-Bretanha, sugere que há uma pequena melhora na saúde imediatamente depois da aposentadoria, mas constata um declínio significativo no organismo desses indivíduos no longo prazo.

Segundo a pesquisa, a aposentadoria pode elevar em 40% as chances de desenvolver depressão, enquanto aumenta em 60% a possibilidade do aparecimento de um problema físico.

O efeito é o mesmo em homens e mulheres. Já as chances de ficar doente parecem aumentar com a duração da aposentadoria.

Cão ajuda a aliviar o estresse no trabalho

Vanessa Queiroz e a golden retriver Bumi no Estúdio Colletivo; até os clientes se derretem pelos animais
Vanessa Queiroz e a golden retriver Bumi no Estúdio Colletivo; até os clientes se derretem pelos animais

Carla Uerlings, no UOL

Uma lambida aqui, um carinho ali… Assim é a rotina do Colletivo, estúdio multidisciplinar que atua nos mais diversos segmentos do design. Bumi, Amy, Billie Jean e outros cães fazem a alegria de todos, que podem trazer para o trabalho seus bichos de estimação.  Vanessa Queiroz, uma das sócias, conta que um funcionário começou e depois outros compraram a ideia. “Sempre adorei cachorro, mas meus pais não queriam no apartamento. Quando fui morar sozinha, comprei a Bumi e comecei a trazê-la comigo para a agência. Isso já faz cinco anos.”

Alexandre Pessoa é outro adepto dos cachorros no trabalho. Ele traz todos os dias a Amy, sua vira-lata de dois anos.  “Meu avô encontrou a Amy abandonada em uma estrada, ainda filhote. Ela vem para o Colletivo desde bebê”, conta enquanto a cachorra corre agitada, brincando com a golden retriever Bumi.

Em outros países, como Canadá e Inglaterra, essa prática é mais comum. Nos Estados Unidos, há até uma campanha, a “Take Your Dog to Work Day”, propondo que empregadores permitam o acesso de animais ao local do trabalho.

Estudos apontam que a presença de animais de estimação no trabalho traz bem-estar e diminui o estresse do dia a dia. Pesquisadores da Universidade Virginia Commonwealth (EUA) colheram amostras de saliva de 450 funcionários de uma empresa de varejo durante uma semana. Cerca de 30 pessoas levaram seus cachorros para o trabalho pelo menos um dia. Nesse grupo, o nível de estresse caiu da manhã para a noite, diferente das pessoas que deixaram o bicho em casa. Quem não tinha qualquer animal apresentou maiores quantidades de cortisol, um dos hormônios associados ao estresse.

O psiquiatra Elko Perissinotti, vice-diretor do Hospital Dia, do Instituto de Psiquiatria (IPq-HCFMUSP) afirma que a interação do ser humano com animal é fundamental. Segundo ele, a troca de carinho com o cão libera no organismo os neurotransmissores endorfina, ocitocina e serotonina, que proporcionam sensação de bem-estar.  “Essas reações – psicológica e química – trazem uma mudança benéfica ao organismo que funcionam como antiestresse”, explica o psiquiatra.

Com certeza, no Colletivo o clima é menos estressante por conta das cachorras. Elas têm completa liberdade, circulam por todas as salas do estúdio, que fica em uma casa de dois andares com um quintal bem agradável. “A galera dá muita risada com as brincadeiras que a Bumi e Amy fazem. Até os clientes gostam da ideia, quando vêm aqui para reuniões eles se derretem”, comenta Vanessa Queiroz, garantindo que as “colegas de trabalho” trazem aconchego ao ambiente.

PetDay

A SimGroup, que desenvolve ações motivacionais para empresas em São Paulo, também percebeu os benefícios de ter bichos uma vez por semana em seu “território”. O “PetDay”, que ocorre toda sexta-feira, começou este ano e causou euforia. A diretora-executiva, Sueli Brusco Aftimus, tomou conhecimento da pesquisa americana e resolveu aplicá-la na agência. “No início, o pessoal quase brigava para ver quem traria o pet. Começamos com sorteio e agora temos uma escala dos bichos”, relembra a assessora de imprensa Thais Volkweis. Segundo ela, a lista já teve até cobra e papagaio!

Muitas vezes, o animal é um estímulo para quebrar barreiras que surgem no dia a dia. O assistente comercial César Martiniano teve essa percepção quando trouxe sua cachorra. “Colegas que eram de outros setores, que eu não conhecia bem, vieram falar comigo, perguntar sobre a raça, o nome dela. Foi um dia gostoso e de total integração”, conta o tutor de Cindy, garantindo que para a cadela a paparicação também foi muito gratificante.

O psiquiatra Perissinotti explica que o cachorro funciona como um catalisador nas relações entre as pessoas seja no trabalho, durante a terapia assistida em um hospital ou apenas passeando na rua. “Atualmente, as pessoas não estão mais acostumadas a se aproximar umas das outras. O cão acaba sendo um agente, um facilitador, o objeto que canaliza a amizade”, conclui.

O grupo da SimGroup acredita que essa simples ação diminui a ansiedade e eleva a autoestima, além de tornar as pessoas mais afetivas. “Foi uma ideia fantástica. O ambiente fica mais leve e lúdico, pois o cão traz alegria e descontração”, ressalta a redatora Lígia Prada, que já teve cachorro e agora curte o dos outros durante uma criação e outra.

Nem sempre é possível

Tanto a SimGroup quanto o Estúdio Colletivo estão instalados em casas, o que dá a liberdade de se trazer os cães para trabalhar.  Outras empresas já não podem se dar a esse luxo. Muitas ficam em condomínios comerciais cujos estatutos não permitem animais em seus andares ou salas.

Esse é o caso do Google, considerada uma das melhores empresas para se trabalhar no Brasil e nos Estados Unidos, que não pode implantar aqui a mesma prática adotada em Mountain View, na Califórnia .  Lá, o prédio é próprio e a presença dos pets é liberada a qualquer hora. Em São Paulo, os funcionários trabalham em andares de um edifício e não têm a mesma chance dos colegas norte-americanos.

ONG RECOMENDA ALGUNS CUIDADOS AO LEVAR OS ANIMAIS AO TRABALHO

Leandro Moraes/UOL

Local deve ser adequado e confortável

A ARCA Brasil (Associação Humanitária de Proteção e Bem-Estar Animal) acredita que levar o pet para o trabalho pode ser uma ótima ideia, em especial para animais que sofrem com a chamada “síndrome da ansiedade da separação”, nome dado quando o bicho de estimação começa a dar sinais de estresse ao ser deixado sozinho ou ser separado da pessoa com quem ele é mais apegado. Algo que acontece muito com quem trabalha fora o dia todo e deixa o pet sozinho em casa.

Mas os tutores devem estar atentos e tomar alguns cuidados ao levarem seus bichos de estimação para as empresas:

  • O local deve ter área compatível e confortável, onde o animal possa se deitar e observar o ambiente à sua volta;
  • É importante passear uma ou duas vezes durante o dia, em especial para os pets hiperativos;
  • Os animais devem estar em bom estado de saúde, com as vacinas em dia e ter boas maneiras.

Bruno Schuveizer, da área de Comunicação, acredita que essa prática aumenta os laços entre as pessoas e os bichos e também pode significar mais chances de adoção em todo país. A própria ARCA Brasil já teve uma experiência nesse sentido.

Durante anos, a ONG manteve em sua sede administrativa o mascote Tingo, cão retirado das ruas pelo presidente Marco Ciampi. Além de ganhar um lar, Tingo virou uma espécie de celebridade. “Nos 10 anos em que ficou aqui, ilustrou inúmeros cartazes, folders e cartões de Natal, além de matérias em jornais e revistas”, recorda-se Bruno Schuveizer.

Coragem macunaímica

Ricardo Gondim

Coragem é uma virtude menos importante. Para ser intrépido ninguém precisa de caráter, basta atrevimento. Muitas vezes o corajoso, ao embarcar em alguma empreitada, necessita desvencilhar-se de certos escrúpulos. O arrojado abre mão da cautela. Na lógica do valente, quanto mais afoito, mais bem sucedido, pois coragem prescinde da prudência – daí os jovens se tornarem tão bons soldados e tão maus motoristas.

Outra característica dos audazes é a pressa. Arriscam-se porque não se dispõem ao longo processo de construir projetos passo a passo -acham melhor arriscar que trabalhar. Sérgio Buarque de Holanda afirmou que o processo de colonização, na verdade exploração, dos trópicos aconteceu pelo empenho do aventureiro e não do imigrante, que deseja construir um novo mundo: “Não se processou, em verdade, por um empreendimento metódico e racional, não emanou de uma vontade construtora e enérgica: fez-se antes com desleixo e certo abandono”. Abandono, marca típica dos corajosos.

A raiz brasileira foi macunaímica – do herói sem caráter. Os puritanos não conseguiram inserir religião ou cultura, embora tenham tentado em Pernambuco e no Rio de Janeiro. Os tipos que desembarcaram no vasto litoral da ilha de Santa Cruz só enxergavam a generosa amplitude da terra, vulnerável ao desvirginamento (estupro).

O Brasil se fez com poucos trabalhadores e com atrevidos aos montes. As incursões, que se diziam em nome do progresso nacional, tiveram protagonistas intrépidos – mas sempre restritos à ética da aventura. O Brasil engatinhou por séculos em esboçar uma ética do trabalho. Tais personagens no Brasil colonial só atribuíram valor moral positivo às ações que sentiam ânimo de enfrentar.

O atrevimento que alavancou a colônia, depois o império e mais tarde a república, prescindia do tipo trabalhador, que abraça a terra como sua. Eles ficavam mais próximos das qualidades do aventureiro, como detectou Buarque de Holanda: “audácia, imprevidência, irresponsabilidade, instabilidade, vagabundagem – tudo, enfim, quanto se relacione com a concepção espaçosa do mundo, característica desse tipo”.

Essa ética do aventureiro fez o caminho inverso dos puritanos na Nova Inglaterra. Por aqui buscava-se a recompensa imediata com o esforço mínimo. Sérgio Buarque notou que nas raízes do Brasil, os protagonistas viam o trabalho árduo, que busca uma existência estável, justa, solidária, como vicioso e desprezível. O historiador chegou a dizer que “na obra da conquista e colonização dos novos mundos coube ao ‘trabalhador’, no sentido aqui compreendido, papel muito limitado, quase nulo… a época predispunha aos gestos e façanhas audaciosos, galardoando bem os homens de grandes vôos”.

“O que o português vinha buscar era, sem dúvida, a riqueza, mas riqueza que custa ousadia, não riqueza que custa trabalho”. Para ser Bandeirante ninguém precisava necessariamente ser decente. Valentia bastava. O projeto colonialista se resumia a violentar nações indígenas com o intuito único de arrancar delas e do solo o máximo de pedra preciosa, de ouro e de prata – e depois voltar para a “civilização” para usufruir, pelo resto da vida, os dividendos da empreitada.

Séculos depois, a situação perdura. Brasileiros continuam engatinhando na ética do trabalho, embora se mantenham arrojados quando vislumbram qualquer chance de riqueza. Desperdiça-se energia em descobrir um “jeitinho” para a prosperidade. O atalho para o sucesso ou o macete para não ter que trabalhar, seduz.

Muita água já correu por baixo das pontes desde que retalharam o país em Capitanias Hereditárias. O mundo dos Bandeirantes enfronhados pelos sertões tropicais já não existe. Mas o país continua exposto a vigaristas parecidos com os de outrora. Nos quatro cantos do país sobram espertalhões ávidos em achar um novo filão de esmeraldas.

O meio religioso parece o mais fragilizado. Não faltam pregadores prometendo mundos e fundos. “Quem conseguir a sorte de ver-se apadrinhado pelo Todo Poderoso desfrutará o melhor dos mundos”. Então para que estudar ou trabalhar de sol a sol? Com uma oração forte Deus abre janelas e faz ricos – mais ricos que Salomão. Para que ter um currículo, montado tijolo por tijolo? Basta fé.

Talvez, como aconteceu com Israel no tempo do cativeiro da Babilônia, o Brasil só encontrará o seu caminho depois que bater no fundo do poço. Mas isso não seria bom. Uma enorme crise colocaria em risco o estado democrático e de direito. E nas grandes crises o chão se torna fértil para que surjam novos monstros: ditadores, torturadores, facínoras. Se faz parte do código genético cultural brasileiro querer levar vantagem em tudo, carecemos então de uma nova cultura. Resta continuar resistindo, denunciado e prendendo esses grandes corajosos que ainda povoam o nosso dia a dia – eles têm grande chance de serem corruptos, embusteiros e charlatões.

Soli Deo Gloria

Fonte: site do Ricardo Gondim

Foto: Elza Lima

A história de Valdeni: ex-escravo brasileiro conta sua vida

Valdeni da Silva Medeiros

Valdeni da Silva Medeiros

Depoimento a Carolina Motoki, publicado no Desinformemonos.org

Meu nome é Valdeni, nasci em Colinas, norte do estado do Tocantins. Só tive mãe, não conheci meu pai. Tenho oito irmãos. Morei na terra de um padrasto durante um bom tempo, até chegar uma idade de 18 a 20 anos. Então aconteceu que minha mãe teve que separar. A gente não tinha pra onde ir e teve que ir pra um bairro da cidade, construir barracão de palha e morar lá. Não tinha estudo, então comecei a trabalhar na juquira [limpeza de pasto] pra poder manter a despesa da cidade pois não tinha mais onde plantar. Os gatos [aliciadores de trabalhadores] vinham, contratavam a gente, abonavam, levavam pra trabalhar e a gente ia fazer roçado ou serviço que fosse combinado. Fiquei impossibilitado de ter algum conhecimento, nem de direito, nem de autoridade.

Rocei muita juquira, me desgastei, senti que não aguentava mais fazer o serviço adequado que os fazendeiros exigiam. Os patrões eram muito durões. Se não aguentasse trabalhar da forma que eles exigiam então era dispensado e terminava ou trabalhando sujeito sem aguentar ou tinha que passar fome, necessidade. Eu fui trabalhar uma certa vez para um fazendeiro. Depois que eu tinha feito todo o serviço, me pagou menos da metade do prometido, ainda cobrando as passagens de ida e volta. E disse que não pagava mais porque eu já tinha ganhado muito, e que não adiantaria eu ir procurar Justiça ou advogado porque advogado não ia advogar pra gente pobre. Não tinha conhecimento dos meus direitos, recebi o pouco que ele quis pagar e fiquei quieto. Minha esposa teve uma perca [aborto], então eu fui conversar com ele que queria um tempo pra cuidar dela. Ele virou pra mim e disse que vaca velha com aftosa não segurava cria.

Eu simplesmente ficava calado. Sentia um pouco de raiva, mas não poderia fazer nada. Também tinha medo de falar mais sério pra ele. Falava algumas vezes pra gente que peão era do jeito dele. Então, devido não ter conhecimento, terminava me humilhando e ficando quieto. Assim não foi só pra um, mas pra vários fazendeiros. Fui muito, muito escravizado na época. Mas eu não sabia. Pra mim viver naquele tipo era a maneira que tinha que viver mesmo, não tinha noção do trabalho escravo. Pra mim era normal viver aquilo.

Naquele tempo eu bebia muito. Sempre que ia receber as prestações de conta eu ia bêbado. Eu sempre devia, eu nunca tinha saldo. Devido eu ter sido criado naquele regimento dos pais – ó, meu filho, a gente tem que ser homem, tem que pagar o que deve, não pode sujar o nome –, achava que a pinga pra mim poderia ser uma derrota, mas nem tanto como meu nome sujo. Minha preocupação era pagar as contas e partir de uma fazenda pra outra. Na época pra mim era o normal. Eles estão me devendo um bom dinheiro, não é? Se for juntar tudinho que eles tiraram de mim…

Eu estava com 32 anos, eu casei. Minha esposa teve três percas, na última teve que operar. Foi na época que aconteceu esse fato com aquele fazendeiro, ele tratou ela como vaca. E daí por diante eu decidi não trabalhar mais pra fazendeiro.

Comecei a procurar outra maneira de viver, fazer salgado, vender pipoca, depois vender picolé… Em final de 2007, ingressei numa construção civil lá em Colinas, trabalhando de servente. O meu interesse era aprender a ser um pedreiro pra exercer uma profissão melhor. Trabalhei seis meses nessa construção, o patrão não quis assinar minha carteira. Num certo dia, carregando umas vigas de cimento, me baqueei muito. Foi no sábado, não aguentei de dor, não aguentei ir trabalhar, feriu meu ombro, eu fiquei debilitado. Fui na parte da tarde pra receber. O patrão ficou bravo um pouco, expliquei pra ele porque num pude ir. Foi quando ele falou umas coisas, como se eu fosse um cabra mole: se eu não aguentava trabalhar, eu tinha que procurar outro rumo. E fez o pagamento pra mim. Eu recebi e dali eu voltei pra casa assim com uma mente já virada pra procurar outro rumo.

Aí por último agora, em 2008, a gente descobriu o assentamento Santo Antonio do Bom Sossego, terra pública da União. Foi criado em 2003, teve a portaria do Incra, pra 19 famílias. O Incra fez uma negociação estranha tirando dez famílias para dividir esses lotes entre três dos grileiros. Os grileiros alegam que pagaram pra eles regularizando no nome deles.

Eu já tinha sido informado desse assentamento pelos vizinhos, só que era perigoso. Mas tinha oportunidade, lotes vagos. Falei pra minha esposa: olha, não vou trabalhar mais pra ninguém daqui a diante. Vou observar essas posses, porque se a gente conseguir um chão pra gente trabalhar, eu não aguento mais trabalhar pros outros. Vou procurar uma maneira da gente viver por conta, mais livre, procurar viver aquela maneira que eu fui criado.

Eu fui com um vizinho, observamos o assentamento, agradei da terra, onde estou hoje. Eu reconheci que já tinha sido um local onde trabalhei sendo vítima do trabalho escravo. Cheguei a trabalhar lá pra esse fazendeiro, esse grileiro. Naquele mesmo local. Conheci pela cancela, conheci pela estrada velha, pelo local que a gente tinha trabalhado. Inclusive até hoje aquele trabalho ele nunca pagou pra gente. Estou recebendo agora que vou receber a terra. Lá foi roço de juquira e bater veneno. Eu conheci e disse: já tive nesse local aqui, moço, já trabalhei aqui! Essas posses são aqui? Então nós vamos enfrentar de verdade! Se precisar correr uma hora a gente corre, se precisar enfrentar nós vamos ter que enfrentar. Já trabalhei lá mesmo, já tem suor meu derramado, eu vou enfrentar isso.

Daí por diante começaram as ameaças, eu continuei lá com os companheiros. De repente eles perceberam que a gente também ia conversando, que a gente não queria abrir mão, e fomos nos fortalecendo no local. E individualmente cada quem foi fazendo plantio: uma mandioca, milho, subsistência. A gente foi plantando roça e isso foi crescendo com agressões.

Dentro desse período mais pra trás a gente teve conhecimento de acompanhamento da CPT [Comissão Pastoral da Terra], na pessoa do Silvano [Lima Rezende]. Teve mais o conhecimento da luta pela terra, então isso foi nos fortalecendo a lutar pelo nosso direito, porque a gente tinha certeza de que tinha esse direito. Era nosso direito lutar. Que não era errado lutar por aquilo porque era uma terra pública, considerada terra do governo e terra do governo é pra ser destinada pra reforma agrária, pra pessoas que não têm condições, trabalhadores. A gente foi tomando conhecimento dos direitos da gente.

Quando foi agosto do ano passado, a gente foi surpreendido por esse grileiro. Chegou armado, espingarda nas costas, revólver na cintura, sozinho, montado a cavalo. Falei pra ele o seguinte: você sabe que a gente está esperando essa decisão judicial, que o Incra ou a Justiça resolva o problema. Ele referiu pra mim que mesmo que o Incra desse direito pra nós, eu não ia morar naquela parcela, porque a qualquer momento minha boca poderia amanhecer cheia de formiga. Tranquilo, eu só nasci uma vez e com certeza eu vou morrer, mas tem uma coisa: desistir do meu direito que eu já tenho conhecimento eu não vou desistir.

A gente vê porque eles são tão justiceiros, querem ser acima de tudo, porque eles não são punidos pelos seus atos. Por isso que eles continuam dessa maneira. Porque as autoridades não têm tomado suas providências para averiguar essas situações dando direito ao trabalhador, à trabalhadora, ou seja, ao cidadão. A gente vê que as autoridades são muito lentas e terminam dando oportunidade para que aconteçam atos como muitos assassinatos de famílias de trabalhadores. Porque os ricos, os fazendeiros, os que dizem fazer justiça com as próprias mãos não têm punição.

A área hoje encontra-se num conflito feio. As famílias encontram-se amedrontadas porque tem vários pistoleiros dentro da área. São vários disparos de arma, várias queimas de barraco, vários prejuízos, várias perseguições. As crianças todas sofrem terrores, são atemorizadas, porque constantemente são assustadas com disparo de armas. E então a gente fica lá protegido somente por deus, e eles andam bem armados.

A gente vive lá sabendo que tem o direito de viver, mas correndo risco de vida. A gente tem muito medo, a gente teme pela vida da família. Algumas vezes, dependendo do acontecido, a gente pensa em desistir e voltar pra cidade, porque não tem aonde ir. A gente pensa duas vezes porque voltar pra cidade é voltar pra juquira, voltar pras mãos dos fazendeiros novamente. É voltar pras mãos da escravidão, do trabalho escravo. Então a gente pensa em não desistir, a gente volta atrás, porque lá é onde a gente consegue criar, plantar e colher e sobreviver.

A luta pela terra pra mim hoje é um direito do trabalhador. Direito de dignidade, direito de viver, de trabalhar e também da libertação, ser liberto do trabalho escravo, viver uma vida digna, poder plantar, colher, sobreviver, sem precisar de estar sendo obrigado, sendo mandado, sendo gritado, trabalhando sem poder.

Hoje eu tenho meu paiol de arroz, tenho meu paiol de feijão, tenho minha criação de galinha. Hoje a gente já vive 90 por cento independente da cidade. Hoje só depende do açúcar, do café, do óleo e outros temperos, outras coisas mínimas. Mas, numa linguagem sertaneja, o grosso da roça a gente já tem no paiol. Isso sem nenhum apoio do governo, simplesmente com o esforço da gente, esforço que a gente mesmo trabalha. Mesmo com todas as ameaças.

Apesar de ser vítima de um alvo perigoso de morte, eu considero minha vida melhor porque eu trabalho à vontade. Conforme a minha necessidade, eu tenho pra comer à vontade, tenho com sobra, com fartura. O dia que não posso trabalhar porque estou sentindo uma dor de cabeça, hoje minha coluna está zangada, eu posso ficar em casa. Tenho o que comer em casa, tenho o que beber em casa. Não preciso me preocupar que tenho que pagar o armazém, o armazém não quer mais me vender, ou o arroz está acabando tem que ir comprar. Não me preocupo com esta parte. Então eu tenho achado grande mudança na minha vida. Apesar de todo conflito, tenho achado grande melhoria.

O Valdeni realmente foi um personagem que antes era uma figura, ou seja, um desenho, e hoje se tornou realidade. Porque antes ele passava pela vida, hoje o Valdeni vive a vida. Hoje tem um conhecimento mais amplo, hoje já tem o conhecimento do que é viver a vida, que a vida não é só passar por ela. A vida foi feita pra viver, com liberdade, com direitos. A vida foi feita pra viver ela disponivelmente, ter seu direito de viver tranquilo. A vida não foi feita pra viver escravizado. Porque segundo as escrituras a vida é uma dádiva de deus, a vida foi dada por deus e deus deu a vida de graça. Então se ela foi dada de graça é pra viver em liberdade.

Eu posso contar como um novo nascimento a partir primeiro da minha cura, da minha libertação: deus me libertou. Tive esse novo nascimento, acompanhado depois que tive conhecimento dos meus direitos. Eu fui conhecedor que tinha direito de viver tranquilo, meu direito de trabalhar pra viver, viver igualmente qualquer outro cidadão. Eu tinha esse direito. A vida não era normal viver daquela maneira. É um pouco assim.