Garoto de 13 anos constrói reator nuclear e quebra recorde

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Publicado no Gizmodo

Você lembra qual foi seu maior feito aos 13 anos de idade? Bem, não importa o que seja, porque Jamie Edwards o superou: este jovem cientista é a pessoa mais nova a realizar fusão nuclear.

Há alguns anos, Jamie gastou todo o seu dinheiro de Natal em um contador Geiger, que serve para medir radiação. Então, ele elaborou uma proposta ambiciosa para construir seu próprio reator nuclear – você pode baixá-la aqui.

Após apresentá-la ao diretor da escola, ele recebeu da própria escola um orçamento de 2.000 libras (quase R$ 8.000) para realizar seu projeto – um fusor de Farnsworth-Hirsch. Trata-se de um dispositivo que usa um campo elétrico para acelerar íons e gerar a fusão nuclear.

Funciona assim: uma máquina cria tensão elétrica entre duas peças de metal, entre as quais há um tubo de vácuo. Através dele, fluem íons de carga positiva. Quando a tensão cai, esses íons ganham velocidade e colidem no centro da máquina, fundindo-se em uma só partícula. É possível detectar quando isso acontece usando o contador Geiger.

Mas isso não é perigoso? Na verdade, Jamie explica que a radiação é fácil de conter: basta usar um pedaço de chumbo; e ao desligar o fusor, ele para de emitir radiação. O maior problema aqui é o vácuo, porque partes de vidro no fusor podem quebrar – daí o uso de óculos protetores. E para evitar choques elétricos, basta “colocar uma das mãos no bolso”, diz ele.

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Jamie conseguiu, aos 13 anos, colidir dois átomos de hidrogênio para formar hélio através de fusão nuclear. Ele detalhou seu progresso ao longo do caminho, e você pode conferir tudo no blog dele.

O recorde de “físico nuclear mais jovem” pertencia a um garoto americano, que tinha 14 anos ao realizar a proeza. Jamie fará 14 anos neste final de semana, por isso ele correu contra o tempo. E o que o futuro reserva para Jamie? Assim como todo jovem nessa idade, ele promete criar um mini colisor de hádrons. [BBC]

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O verão em que aprendi a boiar

Quando achamos que tudo já aconteceu, novas capacidades fazem de nós pessoas diferentes do que éramos

Ivan Martins, na Época

Sei que a palavra da moda é precocidade, mas eu acredito em conquistas tardias. Elas têm na minha vida um gosto especial.

Quando aprendi a guiar, aos 34 anos, tudo se transformou. De repente, ganhei mobilidade e autonomia. A cidade, minha cidade, mudou de tamanho e de fisionomia. Descer a Avenida Rebouças num táxi, de madrugada, era diferente – e pior – do que descer a mesma avenida com as mãos ao volante, ouvindo rock and roll no rádio. Pegar a estrada com os filhos pequenos revelou-se uma delícia insuspeitada.

Talvez porque eu tenha começado tarde, guiar me parece, ainda hoje, uma experiência incomum. É um ato que, mesmo repetido de forma diária, nunca se banalizou inteiramente.

Na véspera do Ano Novo, em Ubatuba, eu fiz outra descoberta temporã.

Depois de décadas de tentativas inúteis e frustrantes, num final de tarde ensolarado eu conquistei o dom da flutuação. Nas águas cálidas e translúcidas da praia Brava, sob o olhar risonho da minha mulher, finalmente consegui boiar.

Não riam, por favor. Vocês que fazem isso desde os oito anos, vocês que já enjoaram da ausência de peso e esforço, vocês que não mais se surpreendem com a sensação de balançar ao ritmo da água – sinto dizer, mas vocês se esqueceram de como tudo isso é bom.

Nadar é uma forma de sobrepujar a água e impor-se a ela. Boiar é fazer parte dela – assim como do sol e das montanhas ao redor, dos sons que chegam filtrados ao ouvido submerso, do vento que ergue a onda e lança água em nosso rosto. Boiar é ser feliz sem fazer força, e isso, curiosamente, não é fácil.

Essa experiência me sugeriu algumas considerações sobre a vida em geral.

Uma delas, óbvia, é que a gente nunca para de aprender ou de avançar. Intelectualmente e emocionalmente, de um jeito prático ou subjetivo, estamos sempre incorporando novidades que nos transformam. Somos geneticamente elaborados para lidar com o novo, mas não só. Também somos profundamente modificados por ele. A cada momento da vida, quando achamos que tudo já aconteceu, novas capacidades irrompem e fazem de nós uma pessoa diferente do que éramos. Uma pessoa capaz de boiar é diferente daquelas que afundam como pedras.

Suspeito que isso tenha importância também para os relacionamentos.

Se a gente não congela ou enferruja – e tem gente que já está assim aos 30 anos – nosso repertório íntimo tende a se ampliar, a cada ano que passa e a cada nova relação. Penso em aprender a escutar e a falar, em olhar o outro, em tocar o corpo do outro com propriedade e deixar-se tocar sem susto. Penso em conter a nossa própria frustração e a nossa fúria, em permitir que o parceiro floresça, em dar atenção aos detalhes dele. Penso, sobretudo, em conquistar, aos poucos, a ansiedade e insegurança que nos bloqueiam o caminho do prazer, não apenas no sentido sexual. Penso em estar mais tranquilo na companhia do outro e de si mesmo, no mundo.

Assim como boiar, essas coisas são simples, mas precisam ser aprendidas.

Estar no interior de uma relação verdadeira é como estar na água do mar. Às vezes você nada, outras vezes você boia, de vez em quando, morto de medo, sente que pode afundar. É uma experiência que exige, ao mesmo tempo, relaxamento e atenção, e nem sempre essas coisas se combinam. Se a gente se põe muito tenso e cerebral, a relação perde a espontaneidade. Afunda. Mas, largada apenas ao sabor das ondas, sem atenção ao equilíbrio, a relação também naufraga. Há uma ciência sem cálculos que tem de ser assimilada a cada novo amor, por cada um de nós. Ela fornece a combinação exata de atenção e relaxamento que permite boiar. Quer dizer, viver de forma relaxada e consciente um grande amor.

Na minha experiência, esse aprendizado não se fez rapidamente. Demorou anos e ainda se faz. Talvez porque eu seja homem, talvez porque seja obtuso para as coisas do afeto. Provavelmente, porque sofro das limitações emocionais que muitos sofrem e que tornam as relações afetivas mais tensas e trabalhosas do que deveriam ser. Sabemos nadar, mas nos custa relaxar e ser felizes nas águas do amor e do sexo. Nos custa boiar.

A boa notícia, que eu redescobri na praia, é que tudo se aprende, mesmo as coisas simples que pareciam impossíveis.

Enquanto se está vivo e relação existe, há chance de melhorar. Mesmo se ela acabou, é certo que haverá outra no futuro, no qual faremos melhor: com mais calma, com mais prazer, com mais intensidade e menos medo.

O verão, afinal, está apenas começando. Todos os dias se pode tentar boiar.

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Desassossego existencial

sorisoRicardo Gondim

Alguns têm tudo para viver dias despreocupados. Mesmo descontando o desgaste dos impostos, a violência urbana, o emburrecimento da televisão e a falência dos processos políticos – o custo Brasil –  a gente consegue ir levando. Dá para se adaptar? Vive-se na medida do impossível.

Vinga o estereótipo de que as ambições pequeno-burguesas prevaleceram sobre os ideais. O palanque do comício, virou palco do showmício, a sacristia cedeu lugar para o camarim e o laboratório se transformou em negócio. O aeroporto despacha milhões para as primeiras compras em Miami. O governo não permite que a indústria automobilística perca o embalo. Carrinho novo, com prestações a perder de vista, forma engarrafamentos também a perder de vista.

Por que tanto desassossego? A propaganda não promete que banco xis garante sorrisos até a terceira idade? Felicidade se atrela à relação direta da liberdade de escolha? De onde vem o sentimento trágico que sufoca o peito? Homens e mulheres aguardam seus quinze minutos de fama. No morro artificial – marketing puro –  do otimismo, os sorrisos se plastificam. Esperança, transformada em frase de efeito, vira recurso piedoso de recriar o mundo de Poliana.

Dúvidas? Ninguém tem, em hipótese alguma. Certezas, sempre. Importa parecer inamovível. Fundamentalismo, outrora uma patologia religiosa, se estende à política, entre neo-ateus e na militância do terceiro setor. As redes sociais favorecem o recurso da farsa. O teclado virou trincheira. Mobilização, só nos dedos. Cresce a virulência dos que se escondem no anonimato de um fake.

A vida real continua intocada. Os processos de alienação são eficientes. A indústria da propaganda tem força. Poucos atentam para os danos do fast-food nas artérias da alma. Milhões morrem de fome no sul do Sudão, nas ilhas paupérrimas das Filipinas, no demonizado Afeganistão, enquanto multidões deliram com os octógonos – modernas arenas – onde gladiadores se destroem por dinheiro.

Faltam sonhos. Fernando Pessoa foi honesto ao anotar: meu passado foi só a vida mentida/ de um futuro Imaginado! A competição que o consumismo promove empurra para frente, mas cobra um preço alto. De que vale o homem ganhar o mundo inteiro e perder a alma? Nossa casa agora precisa de guarita, temos medo.

A constante prontidão, o encarar a vida como batalha, seria responsável por essa fadiga quase universal? O imperativo de vencer não passa de vampiro, com apetite por sangue venoso. Muitos jogam a toalha, simplesmente. Desistem de dar certo ou estar certos e optam pelo cinismo. Com as bandeiras dobradas, seguem pelos corredores dos shoppings em busca do que nem sabem nomear. Passeiam sem fazer questão de imaginar o mundo que deixarão para os netos.

Abatidos, perdem coragem e medo.
Conformados, caminham feito zumbis.
Disformes, descem a ladeira dos anos.

Espalha-se por todos os lados a morbidez dos vencidos. Tantos acordam antes da madrugada clarear, baixam persianas e recusam a visita do sol. Ligam o computador, acreditam ter amigos e se desacostumam com o calor da pele. Algo está errado quando a melhor companhia for o cursor piscando numa tela.

De tudo, resta uma verdade que pode parecer bobeira: a vida é preciosa demais para se perder. Temos que fazer alguma coisa antes que seja tarde demais.

Soli Deo Gloria

fonte: site do Ricardo Gondim

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Lições tardias para um coração ávido

Melting_Clock09Ricardo Gondim

O tempo tudo destrói. A poeira da história, tangida pelo fluir inevitável do tempo, cobre tudo. Na mitologia, Kronos, um titã, devorava os filhos. Depois de séculos, impérios outrora avassaladores, enchem os atuais alunos secundaristas de tédio. Napoleão virou nome de cachorro. Exércitos desapareceram. Templos magníficos hoje não passam de escombros. Livros importantes jazem nas bibliotecas. Nós também passaremos.

Vergílio Ferreira, escritor português, percebeu que tratados escritos sobre infância, juventude e idade adulta se fala de ir. Vai-se aonde? - pergunta. Ao futuro- responde.  Que futuro nos aguarda? Vergílio Ferreira conclui: esse tal “ir” é rumar para a velhice. E quando lá chegarmos, velhice é estar. De fato, velhice é o estágio em que gastamos o resto da nossa vida. Existencialmente, não sobram muitas opções: ou se morre cedo, como Camelot, ou se enfrenta a decrepitude. Desejos, sonhos e ambições nos impulsionam a caminhar. Rumamos, todavia, a um porvir que nos desfará em nada.

Embora não seja oficialmente idoso – ainda faltam alguns anos -, começo a me preparar para os derradeiros dias. Não pretendo viver a próxima etapa da existência, comendo o sobejo dos bons tempos já vividos. Reafirmo uma antiga crença: ninguém é velho enquanto estiver disposto a aprender. Na madureza, almejo continuar flexível. Quero sugar todo o conhecimento que puder. Sem nunca parar de repetir: Só sei que nada sei.

Treino despojar-me de falsas onipotências. Já confiei demais na própria capacidade de ordenar a vida. Imaginei certas convicções e práticas – principalmente as religiosas – capazes de me resguardar contra decepções, tristezas e contrapés. Contudo, como bem poetizou Chico Buarque, veio a Roda Viva e carregou o destino pra lá. Muitos dos meus pesares foram vãos, desnecessários. Tolo, superestimei a capacidade de aliviar o risco de viver. Arranhei a alma porque acreditei na possibilidade de blindar o corpo.

Abracei a mensagem religiosa que promete engrenar o cotidiano, garantindo vitória sobre vitória. Me esforcei ao máximo. Caso obedecesse regras, leis, preceitos, eu me livraria das dores que afligem tantas pessoas. Eu buscava a pureza espiritual que me abençoaria com um dia-a-dia protegido. Se fosse santo, viveria em estado nirvânico – na mais pura felicidade.

Depois de vários tombos, inúmeras bobagens, enormes desapontamentos e grandes decepções, acordei: a vida não se deixa encabrestar. Notei que nunca consegui alcançar a tal perfeição. Nessa busca, eu só me atolei na culpa – oprimido por um Superego cada vez mais gigante. Precisei criar espelhos distorcidos. A imagem que enxergava devia ser maior do que eu mesmo. Se a juventude engana e a meia-idade consegue ser um pouco mais coerente, a velhice se torna brutalmente honesta – ela nos esvazia dos delírios narcísicos.

Devido a minha sede de onipotência, idealizei auditórios. Acreditei na força da minha oratória. Eu me achava capaz não só de convencer como de arrebatar as multidões. Nas longas horas em que preparei sermões, pedi uma unção que me transformaria na extensão concreta e absoluta do próprio Deus. Eu não admitia ineficiência. Ambicionava converter indivíduos, transformar realidades e revolucionar o mundo. Confundi talento natural com eleição. Acabei inebriado com o meu discurso. Quando os meus cabelos começaram a pratear, dei-me conta: vários meninos e meninas da minha comunidade haviam desistido da fé; eu tinha sido chutado e espezinhado por colegas de ministério. Sofri. Toda a minha eloquência se mostrou, inapelavelmente, frágil.

Por me sentir um Atlas – com a responsabilidade de carregar o mundo nas costas – , raramente me permiti viver. Evitei alegrias e desperdicei momentos bonitos porque não os considerava úteis para o avanço da missão. Eu admitia o lazer caso servisse para me recompor, manter o vigor e me devolver ao trabalho. Poesia, nem pensar. Para minha vergonha, repeti inúmeras vezes que poesia não ajuda a argumentar.

Contentava-me em encaixar algum passeio na viagem missionária – com remorso. Celebrava o convite para falar em uma conferência, pela excelente ocasião de tirar uns poucos dias de férias. O correr dos anos minou esse ativismo messiânico. Agora aprendo a cantar com Almir Sater: Ando devagar porque já tive pressa/ E levo esse sorriso/porque já chorei demais/ Hoje me sinto mais forte,/ mais feliz quem sabe/ Eu só levo a certeza de que/ muito pouco eu sei, eu nada sei.

Minhas despedidas foram trágicas, os lutos, inconsoláveis e as decepções, amargas. Capitulei. Aceitei que a vida é frágil. Reconheci: não sou auto-suficiente. Ao confirmar a minha debilidade, reaprendi a ser grato. Gratidão nasce de uma memória modesta.

Pretendo seguir o restante da jornada com menos pretensão. Sem outros arroubos, quero conviver com as minhas frágeis intuições. Espero saber me gloriar nas fraquezas, nunca nos desempenhos. Anseio desvendar a beleza da confissão de Paulo: Porque, quando sou fraco, então é que sou forte (2Co 12.10).

Já dou de ombros ao imperativo religioso de superar a minha humanidade. Começo a reconhecer limites. Não sou anjo. Não me considero um conquistador das utopias – eu as guardo apenas como alavancas para novas iniciativas.

O tempo tudo desgasta. Paradoxalmente, o tempo avivou em mim a afirmação milenar do profeta: Ele te declarou, ó homem, o que é bom, e que é o que o Senhor pede de ti, senão que pratiques a justiça, e ames a misericórdia, e andes humildemente com o teu Deus – [Miqueias 6.8].

Soli Deo Gloria

fonte: site do Ricardo Gondim

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A incrível história da professora brasileira do MIT que largou tudo para dançar tango

Publicado no Gluck Project

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Toda a arte deste post foi feita pela designer e ilustradora gaúcha Laura Salaberry

A paulistana Daniela Pucci chegou cedo ao topo da carreira. Sempre foi uma excelente aluna – das que ficam em primeiro lugar da turma – e se formou em engenharia de computação na Unicamp com uma das melhores notas da história da universidade. Seu doutorado na prestigiada Standford University foi o melhor do ano, no seu departamento, e ganhou um prêmio internacional como o melhor de sua área, em 2002. Em 2003, aos 28 anos, Daniela foi aceita como professora do departamento de engenharia mecânica do MIT – considerado a melhor universidade do mundo pelo QS World University Rankings. Nessa época, Daniela ficou conhecida no Brasil e deu entrevistas contando sua trajetória de sucesso para grandes veículos de comunicação como a Folha de S. Paulo e a Veja. Mesmo com tudo isso, estava mergulhada em sofrimento e crise. Seu prazer era o tango que praticava cinco vezes por semana. Uma viagem à Buenos Aires lhe apresentou Luis Bianchi, dançarino profissional, e grande amor de sua vida. Depois de muita reflexão e planejamento, Daniela largou tudo para viver de dança ao lado do companheiro.

Conheça a incrível história da professora do MIT que virou dançarina de tango, na entrevista exclusiva abaixo.
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Vamos começar pela sua formação acadêmica. Você se formou na Unicamp como a melhor aluna da sala, né?
Sim, me formei em engenharia de computação em 1997 como a melhor aluna da turma. Na verdade, em 2007, fui homenageada como um dos dois melhores alunos na história da engenharia elétrica. Meu doutorado foi na Stanford University, na Califórnia. Recebi dois prêmios no final do curso. Um foi dado pelo meu departamento (Management Science and Engineering) por ter tido o melhor rendimento acadêmico entre os alunos que se formavam naquele ano. O outro foi dado pelo INFORMS (Institute for Operations Research and Management Sciences) para a “melhor dissertação de doutorado do ano de 2002 em qualquer área de pesquisa operacional e ciências de gerenciamento que é inovadora e relevante para a prática”.

Depois do doutorado você virou professora do MIT, certo?
No último ano do doutorado, entrei no mercado para professores universitários. Os formandos se inscrevem para posições em todas as universidades onde haja vagas relevantes. Depois, alguns são chamados para entrevistas. Fiz entrevistas em varias universidades, entre elas o MIT – no departamento de engenharia elétrica e ciência de computação.Quando dei minha palestra, estava na audiência o chefe do comitê de busca para uma posição no departamento de engenharia mecânica. Quando terminei, ele veio falar comigo e incentivar-me para me inscrever para essa posição. Não pensei muito nisso porque nunca tive relação com a engenharia mecânica. Mas passado um mês, ele me mandou um email pedindo para eu me inscrever se tivesse algum interesse, pois já estava acabando o ano acadêmico e eles tinham que finalizar sua busca. Num ímpeto, mandei meus materiais, depois de poucos dias fui fazer a entrevista e, logo depois, veio a oferta! Recebi ofertas de Columbia, Cornell, Georgia Tech e MIT – além do laboratório de pesquisa IBM Almaden, em San Jose.

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Nessa época você deu entrevistas para vários sites, revistas e jornais no Brasil, né? Você estava se sentindo realizada?
Na verdade, os três anos que passei como professora acadêmica foram um período de muito sofrimento e crise. Entre 2001 e 2003, minha vida pessoal e profissional entraram em um choque profundo, pareciam completamente divergentes. Comecei a dançar tango em 1999, mas foi a partir de 2001 que passei a dançar mais, foi uma atividade salva-vidas com a qual me identificava completamente. Passei o verão de 2001 em Nova Iorque, fazendo um estágio no laboratório de pesquisas da IBM T.J. Watson, e aí comecei a dançar tango cada vez mais. Encontrei um outro mundo e me apaixonei, tanto pela cidade, quanto pelo tango. Então chegou 2002 e, ao final, havia duas ofertas de trabalho que estava considerando mais seriamente: MIT, a universidade de maior prestigio, com os alunos (potencialmente) mais talentosos; e Columbia, uma universidade excelente na minha área, em Nova Iorque. Uma escolha representava aposta total na minha vida profissional, a outra um certo equilíbrio entre vida profissional e pessoal. Passei semanas sem poder decidir até que me deram uma data final para responder. Acordei esse dia sem saber o que fazer e decidi jogar uma moeda. Saiu Columbia. Passei o dia inteiro jogando essa moeda. Ao final escolhi MIT, ou seja, minha carreira, e nunca pude realmente me perdoar por isso.

Todos os prêmios, famas e êxitos acadêmicos significavam pouco. No dia em que saiu a entrevista na Folha de Sao Paulo, acordei e abri meus e-mails: havia mais de 200 emails de fãs do Brasil que me escreviam de tudo; alguns dando parabéns, outros contando suas histórias, outros pedindo conselhos, alguns mandando fotos de seus gatos – já que saiu na matéria que eu os amava… E eu lia tudo isso e, mesmo sentindo um certo orgulho, isso não alterava minha profunda solidão e alienação, já que nenhuma dessas pessoas me conhecia de verdade, nem eu a eles, e no dia-a-dia eu me sentia num deserto emocional e uma estranha na minha própria vida.

Enfim, além de toda essa crise existencial que levou uns 6, 7 anos para eu superar, não podemos esquecer que meu doutorado foi em “tomada de decisões em regimes de incerteza”. Era muita ironia para mim que eu fosse considerada uma autoridade no assunto, quando na minha própria vida eu me sentia completamente despreparada para tomar decisões. Usando palavras de Ernesto Sabato (escritor e artista plástico argentino), sentia na pele que “a razão não serve para a existência”. E passava a encarar com muito ceticismo a vida científica e a questionar os sacrifícios da minha vida pessoal.

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E como você largou tudo isso para se tornar dançarina de tango?
Nunca pensei em ser bailarina profissional, mas sempre amei a dança, já com 7, 8 anos ficava vendo Margot Fonteyn (bailarina inglesa) na televisão. Um ano antes de sair do Brasil tive contato com as danças de salão e comecei a dançar forró – primeiro uma noite por semana, e em pouco tempo, já eram cinco vezes por semana, uma obsessão! Na dança me sentia livre, completamente feliz e identificada, cheia de prazer. Sinto que viver, e especialmente ser consciente de nossa condição, é incrivelmente difícil, é a carga do ser humano: viver sabendo da arbitrariedade do sofrimento, de nossa impotência diante da tragédia, doença, de todos os males que afetam os seres que amamos, viver lembrando de nossa própria mortalidade. A religião de alguma forma tenta resolver isso, oferece uma teoria, mas na minha mente (que até hoje funciona mais pela lógica), eu consigo ao máximo ser agnóstica, admitindo que não posso saber se tudo tem um motivo ou é completamente aleatório. Não é uma posição muito confortante ou satisfatória. Como alternativa, alguns de nos buscamos aliviar ou resolver essas questões pela ciência, que também está limitada em suas respostas. E o tango, ao final, não pode me dar nenhuma resposta, mas me dá outra coisa: faz com que todas essas questões se tornem “irrelevantes”. O tango tem esse poder de me ancorar no presente, no prazer físico do movimento, no prazer emocional do encontro com a música e com outra pessoa. Minha crise existencial se dissolve diante disso.

Então, nos 3 anos no MIT, vivi com um pé de cada lado: meus dias de semana de professora, em Boston, fazendo pesquisa, e os fins de semana em Nova Iorque, dançando tango. Nem me passava pela cabeça mudar de carreira, para mim o tango era atividade social e puro prazer. Em junho de 2005 fiz minha primeira viagem a Buenos Aires e no segundo dia conheci Luis Bianchi, meu parceiro na dança e na vida. Ele já era dançarino profissional. Tivemos uma linda historia “de verão” – se bem que era inverno – (risos ), mas eu não tinha nenhuma expectativa. Só que nos demos muito bem e decidimos manter o contato, pela internet. Com o passar dos meses, começamos a falar de trabalhar juntos.

Em um certo final-de-semana, vários meses depois, eu decidi ficar completamente quieta e não trabalhar. Eu vinha em um estado de bastante confusão há mais de dois anos nesse momento, indo à terapia uma ou duas vezes por semana e sem poder ter nenhuma clareza. Nesse fim-de-semana fiz uma coisa um pouco estranha: perguntei ao meu coração o que ele queria. E no silêncio encontrei a resposta: queria dançar.

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Muitas pessoas dizem que querem mudar de vida, mas tem medo. O que você acha que leva as pessoas a ficarem tantos anos vivendo uma vida que não lhes traz felicidade?
A incerteza dá muito medo. Deixar de lado um caminho que não é muito feliz, mas não chega a ser terrível para apostar em algo sem garantia de resultado não é fácil. A mudança é incômoda. Recomeçar do zero é árduo e acho que se no momento da decisão eu tivesse uma família, não sei se teria bancado a incerteza econômica. Se bem que eu acho que mesmo com as responsabilidades, valeria a pena.

Também tive um momento de epifania durante todo o meu processo de transformação. Foi em fevereiro de 2006, quando eu já tinha tomado a decisão de mudar de carreira. Fui passar uma semana no laboratório de pesquisa de IBM Almaden, onde tinha feito um post-doc de 9 meses. Sempre visitava esse laboratório para trabalhar com meu colaborador Nimrod Megiddo, uma pessoa muito destacada na área de pesquisa operacional. Durante meu post-doc, Nimrod havia se tornado não só um mentor mas também um amigo. Durante essa semana, comentei com ele pela primeira vez sobre meus planos de mudar de vida. Então, no último dia, quando nos despedimos, ele me deu um abraço, pedindo que eu me cuidasse. Nesse momento percebi meu espanto: sem saber, eu esperava perder seu afeto e amizade ao admitir que queria deixar a ciência para dançar. No entanto, sua amizade continuava, e isso era uma surpresa!

Nesse momento percebi que além do medo natural e as incertezas, há uma barreira muito importante para a mudança: as crenças que criamos sobre nossa identidade. Eu fui uma criança que ia muito bem na escola, que me destacava nas ciências exatas – que por algum motivo eram muito intuitivas para mim – e acreditava que aí estava meu valor.Foi só no momento em que meu amigo demonstrou sua preocupação comigo que comecei a ver que eu era muito mais que isso. Então, acredito que para a mudança, deve-se estar atento às “hipótese implícitas” que se formam sobre nossa identidade e valor. Até hoje sigo nesse labirinto de identidade já que ao romper essas crenças, passei por um período de desprezo pelo meu lado matemático. Ainda não entendo completamente minha dualidade e não sei como integrar os dois lados em um todo harmonioso, mas continuo tentando!

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