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Ozzy canta sobre disputa entre Deus e o diabo em “God Is Dead?”, nova do Black Sabbath; ouça

 A faixa foi divulgada simultaneamente em rádios do mundo todo e instantes depois já era um dos assuntos mais comentados no Twitter. 

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Publicado originalmente no UOL

Seis meses antes de vir ao Brasil, o Black Sabbath lançou na tarde desta quinta-feira (18) sua primeira música após o retorno aos palcos. “God Is Dead?” faz parte de “13″, primeiro álbum de estúdio da banda em 35 anos com Ozzy Osbourne no vocal, previsto para sair em 10 de junho. A faixa foi divulgada simultaneamente em rádios do mundo todo e instantes depois já era um dos assuntos mais comentados no Twitter.

Na música –a primeira a ser divulgada do novo trabalho–, Ozzy canta sobre uma disputa entre Deus e o diabo em tons sombrios. O tema religioso é um dos favoritos da banda desde o início da carreira.

“Estou perdido na escuridão”, diz no início. “Não acredito que Deus está morto”, diz no refrão, após um longo solo de Tony Iommi. A música é inspirada na mesma frase do filósofo alemão Friedrich Nietzsche, que aparece na capa do single. E também relembra os temas religiosos que os consagraram.

Com quase nove minutos, a música tem um ritmo lento, bastante similar ao estilo do trabalho solo de Ozzy Osbourne, mas com riffs mais intensos e um baixo marcante, especialmente nos refrões.

A voz do vocalista, com 64 anos, parece não ter sentido o efeito da passagem dos anos e é um dos principais destaques da faixa.

A ausência do baterista Bill Ward que saiu da banda no começo de 2012, é sentida especialmente nos trechos mais calmos da música, quando a voz de Ozzy se destaca. Mas o baterista do Rage Against the Machine, Brad Wilk, que o substituiu, consegue manter a qualidade do trabalho.

A partir do sexto minuto, a faixa apresenta uma mudança e traz os riffs que mais lembram a fase mais celebrada da banda, uma das fundadoras do gênero hoje conhecido como heavy metal.

No Twitter, fãs e famosos repercutem o lançamento. “A nova música do Sabbath é muito boa. Eu estou impressionado. É excelente!”, escreveu Slash, ex-guitarrista do Guns ‘n’ Roses.

A música termina com intensidade, demonstrando um trabalho que possivelmente estará no setlist da apresentação que virá ao Brasil em outubro.

Iommi: “Queríamos que soasse como antigamente”

Em entrevista ao jornal “Birmingham Mail”, Iommi falou sobre o álbum. ”Acho que ele encaixa em nossos três primeiros álbuns –’Black Sabbath’, ‘Paranoid’ e ‘Master Of Reality’”, disse. “Queríamos que soasse como a forma que tocávamos no começo, de volta ao básico, e nós gravamos quase tudo ao vivo, como uma banda”.

O guitarrista também comentou a saída em turnê enquanto trata um câncer. “Não estou pronto para ir ainda, ainda tenho muito o que fazer”.

O disco “13″ será o primeiro desde “Never Say Die!”, lançado em 1978, que terá a participação dos membros originais da banda Ozzy Osbourne, Tony Iommi e Geezer Butler. Em 1998, a formação clássica da banda se reuniu para gravar o álbum ao vivo “Reunion”, com apenas duas músicas inéditas.

“13″ será lançado em diferentes formatos, com uma versão clássica em CD, edição de luxo com dois discos (que incluirá uma edição com material extra de estúdio), vinil e uma edição com o documentário “Black Sabbath – The Reunion”.

O Black Sabbath tem shows marcados para outubro em São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre. Megadeth está escalado para fazer a abertura.

A letra do single pode ser conferida aqui.

dica do Israel Herison

Câmara dos EUA aprova a CISPA, que obriga Google, Twitter, Facebook a fornecer dados de usuários ao governo dos EUA

Serviços digitais como Google, Twitter, Facebook deverão fornecer os dados pessoais dos usuários ao governo em caso de solicitação.

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Por Rafael Bravo Bucco, no A Rede

A câmara dos representantes (deputados) dos EUA aprovou na manhã desta quinta-feira (18) o Cyber Intelligence Sharing and Protection Act (Cispa), projeto de lei que estabelece regras para aumentar a segurança cibernética no país às custas da redução da privacidade dos usuários da internet.

Segundo o texto, serviços digitais como Google, Twitter, Facebook deverão fornecer os dados pessoais dos usuários ao governo em caso de solicitação, dispensando necessidade de ordem judicial.

As empresas também estariam isentas de culpa caso terceiros ou o governo use os dados repassados de forma indevida, desde que ajam de “boa fé” ao repassar as informações. O Cispa recebeu apoio de Google, Twitter, Amazon, Tumblr e Facebook.

A aprovação da lei pode afetar a rede no Brasil, uma vez que o país ainda não possui uma legislação de uso de dados pessoais por empresas e serviços online. Na prática, a lei permitiria que informações de brasileiros sejam repassadas ao governo dos EUA, e as empresas daquele país que o fizerem, não podem ser acionadas na justiça estadunidense. As informações repassadas poderiam ser usadas para vigiar os usuários, sem consentimento.

O texto ainda precisa passar pelo Senado e, se aprovado, pela sanção de Barack Obama. Na internet, a mobilização pelo engavetamento do projeto no senado começou no começo do ano, quando o texto voltou à pauta do Congresso. Foram 288 votos a favor, e 127 contra, apesar de Obama ter ameaçado vetar o texto.

Contrária ao texto, a ONG Fight for the Future reuniu 1,5 milhão de assinaturas até ontem em petições para que os deputados indeferissem o projeto. Agora, a organização quer fazer a maior mobilização da história da internet contra o Cispa, com ajuda de pessoas do mundo todo. Para isso, vem reunindo emails e promete, nos próximos dias, organizar eventos presenciais.

A Electronic Frontier Foundation, ONG que também defende a privacidade dos usuários na rede, condenou a aprovação de hoje. Em seu site, escreveu que pretende continuar a luta derrubada do projeto no Senado. “Todos concordamos que os EUA precisam sanar questões urgentes de segurança na Internet, mas este projeto scarifica a privacidade online ao mesmo tempo em que falha ao tomar passos de senso comum para melhoria da segurança”, diz o advogado da EFF, Kurt Opsahl.

Justin Bieber é criticado por dizer que Anne Frank poderia ser uma ‘belieber’

Cantor adolescente foi ao museu na Holanda dedicado à memória de Frank. No livro de dedicatórias, Bieber escreveu que ela poderia ter sido fã dele.

(Foto: AP/Globo News)

(Foto: AP/Globo News)

Publicado originalmente no G1

O pop star adolescente Justin Bieber virou alvo nas mídias sociais após dizer que Anne Frank poderia ser uma “belieber”, nome pelo qual chama suas fãs.

A polémica começou após o museu Anne Frank House relatar que Bieber escreveu no livro de visitas da entidade esperar que a jovem vítima do Holocausto fosse uma “belieber”.

A entidade comunicou, por meio de seu perfil no Facebook, neste sábado (13) que Bieber havia visitado o museu na noite anterior e passado mais de uma hora, acompanhado de um grupo de amigos e guardas. Os fãs esperavam o astro do lado de fora por “um vislumbre dele”.

“Em nosso livro de visitas, ele escreveu: ‘Verdadeiramente inspirador poder vir aqui. Anne era uma grande menina. Esperançosamente ela teria sido uma belieber’”, disse o museu em sua publicação no Facebook.

A frase escrita no livro de visitas gerou centenas de comentários na rede social de pessoas reagindo negativamente à escolha de palavras de Bieber.

“Anne Frank uma belieber? Essa é de longe uma das coisas mais egoístas que eu já li, tipo sempre”, escreveu a usuária do Facebook, Tania Saez Pinto.

Comentaristas da mídia também se juntaram à polêmica. Scott Simon, apresentador da Rádio Pública Nacional dos EUA, disse no Twitter: “Anne seria sábia o suficiente para apenas rir”.

Um representante de Bieber não retornou as ligações ou um e-mail neste domingo a respeito da controvérsia sobre seu comentário no livro de visitas.

Anne Frank, que morreu aos 15 anos no campo de concentração de Bergen-Belsen em 1945, é uma das mais notórias vítimas judias do Holocausto.

Leitores em todo o mundo leram seu diário, publicado em 1947, e detalha privações e triunfos pessoais que ela e sua família passaram no tempo em que se esconderam da ocupação nazista na Holanda.

 

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Por Bruno Medina, no Instante Posterior

No ano de 2025, a vida real e a vida virtual encontram-se tão intimamente relacionadas que quase não há mais distinção entre as sociedades de fato e as redes sociais. Num contexto em que a inclusão digital alcançou 90% dos habitantes do planeta, e em que existem mais de 7 bilhões de perfis ativos no Facebook, o site de relacionamentos concebido 15 anos antes enfrenta um irônico e até então impensável desafio: sobreviver ao excesso de usuários. Com o intuito de assegurar que a rede não sucumba a um caos de convites e publicações indesejáveis, seus administradores resolvem pôr em prática um rígido código de conduta, medida que coincide com a instituição de um tribunal para julgar infrações e abusos cometidos pelos frequentadores:

– Caso 3742, Facebook contra Fernando Soares. Com a palavra, a acusação.

– Senhor Fernando, consta nos autos uma queixa apresentada pela senhorita Amanda Vasconcellos, de que o senhor a teria cutucado por diversas vezes num período de 2 semanas. A informação procede?

– Sim, procede.

– E qual foi o motivo que despertou um comportamento, digamos, tão compulsivo?

– Bom, a Amanda é minha colega de faculdade e, na aula de Psicologia dos  Avatares II, fiquei achando que ela também se interessava por mim. Por isso cutuquei, para facilitar a aproximação e ajudar a quebrar o gelo…

– Mas 7 vezes consecutivas??

– Como é que eu podia saber que ela não estava gostando? Ela me cutucava de volta!

– Não passou pela cabeça do senhor que a senhorita Amanda poderia apenas estar tentando ser educada?

– Como assim educada? Ela me “tagueou” numa foto…

– Onde estavam tagueadas outras 9 pessoas da turma!

– Ok, tudo bem, digamos que eu tenha abusado das cutucadas, mas no dia em que eu a chamei no chat ela foi enigmática, e foi isso que me levou a pensar que estava rolando um joguinho…

– O que exatamente configura a atitude da senhorita Amanda como enigmática?

– Ela disse: “Fernando, nós precisamos conversar”. Daí eu perguntei sobre o que, e a Amanda não respondeu mais. Fui levado a pensar que ela queria me convidar pra sair mas estava com vergonha…

– Em depoimento a senhorita Amanda alegou que na referida conversa pretendia pedir ao acusado que parasse de cutucá-la insistentemente, mas o sinal do 8G caiu, visto que ela digitava no interior de um avião que adentrava a estratosfera.

– Poxa, e ela nem postou uma foto disso? Eu ia curtir e compartilhar, com certeza!

– Numa outra queixa, o senhor foi denunciado por publicar em janeiro deste ano no Instagram a foto de uma sobremesa, o que, como sabemos, é terminantemente proibido desde 2015.

– Protesto, meritíssimo, meu cliente não comentará suas ações em outras redes sociais!

– Retiro, senhor Juiz. Prosseguindo: na semana passada o senhor foi acusado por diversas pessoas de praticar excesso de postagens sobre um mesmo tema…

– Ah, agora isso também?! Pô, a Apple compra a Grécia e eu não posso nem comentar o assunto com meus amigos? Aliás, que amigos esses, hein…

– O novo código vigente determina que o autor de 3 posts sobre um mesmo tópico seja advertido, e punido com suspensão sumária da conta caso insista com as publicações.

– Meritíssimo, posso me defender? O primeiro post foi o furo da notícia, o segundo, um vídeo do holograma do Steve Jobs comentando a aquisição; o terceiro e o quarto posts foram fotos da bandeira com a maçã mordida sendo hasteada em Atenas. Era relevante!

– Senhor Juiz, a lista de acusações é interminável, mas vamos nos ater a um último ponto: convites para eventos.

– Pronto, lá vem…

– Nos últimos 2 meses o senhor Fernando enviou a sua lista de amigos nada menos do que 19 convites para eventos, muitos destes estapafúrdios, tais como “Reunião dos Saudosos do Twitter” e “Festa de Aniversário da Suzy”, que vem a ser um avatar feminino criado por ele mesmo.

– Só quero deixar registrado que recebi várias confirmações pra festa da Suzy, ok?

– Precisamente 5, todas provenientes de perfis de avatares também criados pelo senhor. Já para o evento do Twitter…

– Bem, acho que cheguei a um veredito. Senhor Fernando, gostaria de dizer alguma coisa antes da sentença ser proferida?

– Sim, gostaria de perguntar ao Senhor Juiz se estou autorizado a fazer um vídeo deste momento…

Feliciano e Castro Alves

Castro Alves quando jovem. Fonte: Wikicommons

Castro Alves quando jovem. Fonte: Wikicommons

Carlos André Moreira, no Mundo Livro

Cada vez mais enrolado nas confusões provocadas a cada vez que expõe o pântano intelectual que é sua “teologia”, o pastor Marco Feliciano, inacreditável presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara, ganhou esta semana uma daquelas defesas que parecem ter sido escritas pelos adversários só para sacanear. Marisa Lobo, entre outras coisas autointitulada “psicóloga cristã” e proclamada responsável por “curas de homossexuais”, resolveu sair em defesa da tosquice institucional do pastor Feliciano. Em um blog gospel, ela publicou um texto que vem sendo bastante compartihado pelos defensores do deputado do PSC nas redes sociais – em número quase igual, os críticos ficaram um pouco perplexos, eu incluído.

No artigo, aqui, para quem quiser ler, Marisa Lobo vai buscar a mais improvável das defesas para Feliciano: os poemas abolicionistas de Castro Alves. Recapitulando o caso em um miniflashback: Marco Feliciano aventou no twitter, em 2011, que a população negra se tornou cativa da população branca porque os africanos descendem de um “ancestral amaldiçoado por Noé” – Canaã, para ser mais preciso. “Sobre o continente africano repousa a maldição do paganismo, ocultismo, misérias, doenças oriundas de lá: ebola, aids. Fome… Etc“, escreveu também o deputado. Que, de lá para cá, não mudou nada de ideia, tanto que já apresentou a mesma tese ao STF.

Marisa Lobo agora desencava Castro Alves, o “poeta dos escravos”, para defender as declarações de Feliciano, fazendo uma maçaroca descontextualizada de uma série de estudos críticos literários para sustentar seu ponto de vista. O que não deixa de ser ao mesmo tempo muito irônico – e muito errado.

Feliciano é um avatar das trevas que assolam o Brasil, e Marisa Lobo é alguém que contraria as próprias normas de sua profissão (não foram poucas as advertências que ela já recebeu, emitidas pelo conselho de seus pares), mas, tirando minha antipatia pessoal e minha manifestação de veemente crítica a tudo o que representam, não tenho muito o que fazer. Agora, dado o uso abastardado que ela faz da literatura em causa própria, acho que tenho uma ou duas coisas a dizer sobre isso.

Para começar: a poesia de combate ao escravismo escrita por Castro Alves era uma poesia militante e panfletária – e aqui estes termos não carregam o tom pejorativo que a palavra ganharia ao longo dos mais de cem anos que separam a morte do poeta dos dias atuais. Voltaremos a esse ponto. Como lembra Alberto da Costa e Silva, um dos maiores especialistas brasileiros em África e biógrafo do poeta para a coleção “perfis biográficos” da Companhia das Letras: “era como poeta político que ele gostava de falar às grandes plateias. E que ninguém censure esta expressão, poeta político. Castro Alves via-se como tal, desejoso de, com seus versos, mudar o país e a vida” (2006, p. 98). Castro Alves, era panfletário porque seus poemas eram assumidamente “peças de campanha”, fazendo com essa qualificação um desvio anacrônico de mais de século para usar este termo da linguagem político-publicitária contemporânea. Para mobilizar seus ouvintes, a poesia de Castro Alves era escrita com recursos formais da poesia épica e da mais refinada oratória – com o objetivo declarado de que cada verso vibrasse uma corda emotiva no ouvinte, provocando a compaixão quando ao destino dos escravos. Logo, acreditar que a poesia de Castro Alves, composta em situação de apoio a uma causa há mais de um século sirva para justificar tosquice intelectual em pleno século 21 (é Marisa Lobo quem diz que a poesia de Castro Alves “prova” que não há racismo nas manifestações do deputado) é levar a exegese um pouco longe demais.

Outro ponto a salientar é que, apesar da qualidade dos recursos retóricos e musicais de sua poesia, Castro Alves não manjava um ovo sobre a África e o negro que pretendia escrever – um argumento expresso pelo mesmo Costa e Silva na biografia citada há pouco. De acordo com Costa e Silva, embora animado por genuíno ímpeto solidário e ardendo de um fogo revolucionário legítimo que via no drama da escravidão uma das chagas da sociedade, Castro Alves não era o poeta dos escravos, mas o poeta da libertação dos escravos. A diferença é sutil, mas significativa, dado que a leitura atenta dos poemas compilados após a morte do autor no volume Os Escravos (e não Navio Negreiro, como Marisa Lobo o nomeia), mostra que o próprio ‘Homero da abolição” fazia uma ideia bastante equivocada daqueles em nome de quem falava, ou pretendia falar, e que sua visão do continente africano era ditada por um imaginário que via na imensidão heterogênea da África uma desconcertante homogeneidade em nada correspondente à realidade.

Castro Alves via, em seus versos, o africano, negro, escravizado no Brasil, como um produto de uma cultura que na verdade era a do norte da África, e não das nações de onde os escravos haviam sido trazidos. Os Escravos reúne 36 poemas, 24 deles de cunho abolicionista e, portanto, constitui um testamento da vocação política panfletária que o levara à tribuna em defesa da abolição. Porém, embora prorrompa em brados urgentes sobre a questão do negro, o que se tem em suas páginas é a visão com que o branco representa o sofrimento do negro. Castro Alves não fala do negro escravo brasileiro, algo que fica muito claro ao se tomar como exemplo o poema de título A Canção do Africano. Logo nas primeiras estrofes, Castro Alves faz um negro cativo lamentar de saudades de sua terra:

“Minha terra é lá bem longe
Das bandas de onde o sol vem;
Esta terra é mais bonita,
Mas à outra eu quero bem!
O sol faz lá tudo em fogo,
Faz em brasa toda a areia;
Ninguém sabe como é belo
Ver de tarde a papa-ceia!
Aquelas terras tão grandes,
tão compridas como o mar,
com suas poucas palmeiras
dão vontade de pensar.”

A terra de origem do africano do poema é descrita como uma imensidão arenosa castigada pelo sol árido. Um cenário, dizem os versos, de “poucas palmeiras”. O fato de ele qualificar a terra brasileira em que se encontra como “mais bonita” que a de origem é justificável pela licença poética, contudo, os demais pontos da descrição entregam o equívoco: sim, é a África, mas não necessariamente a África do negro trazido para o Brasil. Com tais detalhes, a paisagem descrita evoca outra região, não, por exemplo, Angola que também convive com clima semi-árido, porém, as amplidões do Saara. Castro Alves está, de fato, descrevendo o norte da África, sua paisagem desértica e mesmo seus habitantes, retratados antes como beduínos do que como os núbios escravizados no Brasil.

Também o entendimento a respeito de elementos da cultura e da identidade do africano sobre quem Castro Alves escreve é misturado com os próprios valores do poeta e da sociedade de seu tempo. O poema Mater Dolorosa, do mesmo livro, revisita um mote recorrente da poesia abolicionista do período: a mãe que, obrigada a ver o filho cair nas mãos do senhor para ser vendido, preferiria, em vez disso, matá-lo. É um poema em que Castro Alves faz uma mãe africana imaginar seu filho no céu, e pede perdão direto ao Deus cristão pelo seu ato, Esse céu é a ideia cristã e com evocações virgilianas do jardim celeste, bastante diversa do vários conceitos para a morte formulados no continente africano.Encontraremos situação semelhante no mesmo poema, quando Castro Alves volta a incorrer em uma representação aparentada com a religiosidade cristã e católica predominante em seu tempo:

Perdão, meu filho… se matar-te é crime…
Deus me perdoa… me perdoa já.
A fera enchente quebraria o vime.
Velem-te os anjos e te cuidem lá.

Outra vez encontramos elementos da iconografia e do imaginário simbólico cristão, como anjos velando as almas dos “inocentes” (o termo havia sido usado para definir o bebê morto já na estrofe anterior) e um Deus que perdoa atendendo a um pedido direto do suplicante – e não pelos complexos rituais de equilíbrio e compensação da África real. Em parte, isso pode ser atribuído ao papel panfletário dos versos de Castro Alves, uma vez que seus poemas eram peças de divulgação do ideário abolicionista que deveriam se comunicar com o público, e, portanto, deveriam apelar para o mundo como seus ouvintes o conheciam. Mas não se pode afastar também o imaginário do próprio poeta, um jovem entusiasmado e fruto de seu tempo.

Marco Feliciano, não tão jovem, também é fruto de seu tempo: é a ascensão de um pensamento conservador e  manipulador, que não titubeia em se apropriar do que parece conhecimento para justificar o que, no fundo, é apenas ignorância.