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Adolescente chinês é preso por ser retuitado

Estudante teve postagens compartilhadas e foi enquadrado em lei contra disseminação do rumores

adolescente-preso-china-retuitadoPublicado no O Globo

Na terça-feira, dia 17 de setembro, Yang Hui foi chamado da sua aula de matemática pelo vice-diretor da escola, segundo o jovem estudante do Ensino Médio relatou a um jornal estatal chinês. O rapaz de 16 anos rapidamente descobriu que tinha um grande problema. Três policiais à paisana e um uniformizado esperavam por ele no gabinete do diretor. Eles perguntaram pelo celular de Yang, depois o interrogaram e levaram para a delegacia para esclarecer outros pontos e, então, trancaram-no em um centro de detenção local. O crime? Ele foi retuitado.

Há duas semanas, o governo anunciou novas regras destinadas a conter o suposto aumento da disseminação de rumores que, de acordo com as autoridades, atrapalham o desenvolvimento harmonioso da internet no país.

Poucos chineses acreditam que as novas normas sejam muito diferentes da tentativa anterior – e mais pesada – de checar dissidências on-line e reassegurar o controle sobre o que a China pensa, fala e tuíta sobre seus líderes. Os termos estipulam que qualquer um cuja mensagem seja retuitada mais de 500 vezes em perfis chineses ou vista por mais de 5 mil usuários pode ser condenado a até três anos de prisão se a postagem original for falsa. Esta é uma das poderosas ferramentas da repressão governamental.

A aventura de Yang começou em 12 de setembro, em Zhangjiachuan, um condado remoto na província de Gansu. Naquela semana, o corpo de um homem foi encontrado perto de um clube de karaokê. Na China, esses locais são fortemente associados à prostituição e ao crime organizado. As autoridades disseram que o homem cometeu suicídio pulando do último andar da construção (versão suspeita, já que o prédio tinha apenas dois níveis, segundo o jornal “Los Angeles Times”). Em uma entrevista à imprensa chinesa, Yang contou ter ouvido de testemunhas que a vítima morreu depois de ter sido agredida por policiais.

Há cinco anos, Yang provavelmente teria guardado esta história. Mas ele faz parte da geração conectada às redes sociais e, dois dias depois da morte em frente ao karaokê, ele publicou o primeiro de seus posts, agora apagados, em dois serviços chineses de microblogs similares ao Twitter, o “China’s QQ” e o “Sina Weibo”. As mensagens questionavam a versão do governo, afirmavam que o dono do clube era um oficial de justiça (aparentemente, a informação não era verdadeira, e o karaokê pertencia à esposa de outro oficial) e convocava protestos (houve realmente um encontro, mas não ficou claro se ele foi gerado pelos apelos do jovem).

“Passaram-se três dias e duas noites desde o assassinato de Zhangjiachuan em 12 de setembro, e a polícia ainda não age, a mídia não reporta, e as pessoas não sabem a verdade”, denunciava uma das mensagens no QQ, de acordo com o jornal “Southern Metropolis Daily” que, embora estatal, é bastante independente do governo. “Ele, que morreu, pode descansar em paz, nós vamos buscar justiça por vocês!”

Até o dia 20 de setembro, a postagem havia sido compartilhada 962 vezes, conforme dados obtidos pelo “Southern Metropolis Daily”.

Em algumas ocasiões durante esta sequência de eventos – um pouco confusa pelas interpretações conflitantes e atividades on-line apagadas – a conduta de Yang descumpriu a lei contra a disseminação de rumores, pelo menos do ponto de vista do governo de Zhongjiachuan. Assim começaram a jornada ao gabinete do diretor e o que parecia ser uma passagem só de ida para a detenção administrativa, sistema que permite à polícia prender criminosos que cometeram ofensas leves por até 15 dias sem uma análise judicial.

Após protestos, jovem é libertado

A prisão do jovem acabou chamando a atenção: as notícias se espalharam na internet praticamente desde o momento da detenção. Boa parte da raiva das pessoas foi canalizada para a lei a respeito da disseminação de rumores e para o bullying feito contra Yang. A reação tomou proporções tão grandes que alguns termos associados ao caso – como “detenção administrativa” – foram bloqueados das buscas do “Sina Weibo”.

Uma das postagens de protesto dizia que o chefe de polícia local havia comprado o cargo e teve mais de 14.900 compartilhamentos e 5.600 comentários. Ainda assim, não foi deletado nem gerou qualquer forma de processo para o autor. Na verdade, eles surtiram efeitos, e Yang foi liberado da detenção na manhã do último domingo. No mesmo dia, o governo de Zhangjiachuan anunciou a suspensão do chefe de polícia denunciado pelos internautas e a prisão do superior dele.

Este é um pequeno progresso para a luta por liberdade de expressão na internet, afinal, trata-se de uma pequena localidade afastada de Pequim. As punições por lá aplicadas significam quase nada para os líderes nacionais que passaram os últimos dois meses aumentando o controle sobre a internet. A liberdade de Yang pode até ser usada como bandeira pelo partido, sob a alegação de que as regras serão usadas com critérios, diferente do que se teme.

Questionado sobre como a experiência o modificou, Yang respondeu à mídia chinesa:

- Eu vou continuar a seguir microblogs, mas minhas postagens serão mais prudentes, baseadas em evidências verificáveis e sem linguagem chula.

“Cadeia não tem como me segurar”, diz pastor acusado de estupros no Rio de Janeiro

Publicado no UOL

“A cadeia não tem como me segurar”, disse o pastor Marcos Pereira, direto do presídio do complexo de Gericinó, em Bangu, zona oeste do Rio de Janeiro, durante uma entrevista exclusiva ao repórter Roberto Cabrini, exibida na noite desta segunda-feira (2), no jornal “SBT Brasil”. A defesa do religioso, acusado de estuprar mulheres de sua própria igreja, alega conspiração.

“Não me sinto preso. Me sinto um homem que está fazendo a vontade de Deus. Se fui conduzindo para um presídio, vou continuar fazendo o mesmo trabalho que faço”, disse o pastor, que acrescentou: “Na hora que a trombeta tocar, o céu se abrir no Oriente e no Ocidente e um homem de branco descer, eu vou desaparecer.”

Além das acusações de estupro, Pereira é investigado por envolvimento com o tráfico, lavagem de dinheiro e participação em homicídio. As investigações sobre o pastor começaram há pouco mais de um ano, a partir de acusações que o coordenador da ONG AfroReggae, José Júnior, fez sobre o suposto envolvimento de Pereira com tráfico de drogas e lavagem de dinheiro.

Na entrevista, o pastou voltou a negar todas as acusações e chegou a dizer que nunca teve qualquer relação –mesmo que consensual– com qualquer fiel. A defesa completou a afirmação de Pereira e disse que as vítimas teriam sido coagidas a prestar depoimento contra o religioso.

E quanto ao comando dos ataques contra a sede da ONG AfroReggae, no Complexo do Alemão (RJ) –que foi atribuído a ele pelo titular da Dcod (Delegacia de Combate às Drogas), Márcio Mendonça Dubugras–, Pereira também negou. “José Junior me acusa desde 2012, sem prova e sem conteúdo.”

dica do Sidnei Carvalho de Souza

Juiz de Porto Alegre cita atriz em sentença e causa polêmica na web

Magistrado usa entrevista de Paolla Oliveira para fundamentar condenação.
Advogado vê ‘carência técnica’ e posta trecho polêmico nas redes sociais.

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Publicado no G1

A sentença de um juiz de Porto Alegre está provocando polêmica entre advogados e também entre leigos em direito nas redes sociais. Nela, o magistrado cita palavras da atriz global Paolla Oliveira para ajudar a fundamentar a condenação de um jovem por tráfico de drogas na capital gaúcha.

O documento é de março deste ano, mas só começou a ganhar repercussão a partir da postagem de um trecho no Facebook na quinta-feira (29). Até as 18h desta sexta (30), a publicação há havia sido compartilhada por mais de 3,3 mil pessoas e comentada por outras 45.

A declaração da intérprete de Paloma na novela “Amor à Vida” foi extraída de uma entrevista concedida por ela à revista Marie Clarie, com data de março de 2011. Na ocasião, Paolla Oliveira se manifestava sobre a ocupação policial do Morro do Alemão, no Rio de Janeiro.

“Direitos Humanos é para quem sabe o que isso significa. Não para quem comete atrocidades de forma inconsequente”, diz o trecho destacado na sentença assinada pelo juiz de direito Alex Gonzalez Custodio.

Ao ser avisado por amigos sobre essa sentença, o advogado Thiago Machado, também de Porto Alegre, decidiu reproduzir na internet a parte do texto que mais o intrigou. Segundo ele, a intenção é promover um debate sobre uma suposta “carência técnica” do Judiciário.

“A ideia era expor uma carência de técnica jurídica que se expressou em uma sentença criminal, mas que vários colegas de várias áreas do direito têm se deparado e que põe o Judiciário em descrédito. Minha irresignação foi para levar aos colegas a problemática da carência e as consequências maléficas, especialmente ao processo penal, e também a falta de comprometimento técnico com a nobre função de julgar”, explicou ao G1.

Com 50 anos de idade e 18 anos de magistratura, o juiz Custodio, titular da 1ª Vara Criminal do Foro Regional da Tristeza, na Zona Sul da capital, diz que não vê nenhum problema em usar a declaração da atriz. Segundo ele, o trecho é apenas um ponto de uma longa argumentação, expressa nas 15 páginas da sentença.

“O rapaz (advogado) teve o seu momento de celebridade nas redes sociais. Acho que ele não leu toda a sentença. Eu não vejo polêmica. É apenas um elemento dentro de um contexto maior. Eu falava sobre a questão dos direitos humanos, que muitas vezes supervalorizam os réus e esquecem das vítimas, muitas delas sequeladas, traumatizadas e violentadas em sua integridade física pela criminalidade na nossa sociedade”, rebateu o juiz.

Segundo Custodio, o réu no processo foi detido pela polícia portando quase 400 pedras de crack, mas a defesa dele alegou que as drogas eram para consumo próprio. Na sentença, o juiz fixou a pena de sete anos de reclusão em regime fechado ao jovem de 21 anos (à época do fato), por tráfico de drogas e associação para o tráfico. Ele continua preso.

Não é a primeira vez que uma sentença do juiz Alex Gonzalez Custodio repercute fora do Judiciário. Em maio, ele condenou em primeira instância o ex-jogador de futebol e empresário Assis Moreira – irmão de Ronaldinho Gaúcho – a pagar R$ 500 mil de indenização a um casal de vizinhos, por danos causados na propriedade deles provocados pela queda de um muro.

No texto, o magistrado reclamou da dificuldade em notificar o réu durante o processo e escreveu que a família Moreira acredita estar “acima da lei e da Justiça” por se considerar “melhor do que os simples mortais” e colocar a fama e o dinheiro à frente dos “princípios de humanidade e solidariedade”. A 19º Câmara Cível do Tribunal de Justiça manteve a condenação no julgamento do recurso.

Americana encontra pedido de ajuda de prisioneiro em produto ‘Made in China’

Julie Keith, que encontrou carta de prisioneiro em campo de trabalhos forçados dentro de decoração de Halloween, em Portland, Oregon

Julie Keith, que encontrou carta de prisioneiro em campo de trabalhos forçados dentro de decoração de Halloween, em Portland, Oregon

Publicado no The New York Times [via iG]

O pedido de ajuda, uma carta cuidadosamente dobrada dentro de um pacote de decoração de Halloween vendida em uma loja Kmart, viajou mais de 8 mil km da China até as mãos de uma mãe em Oregon, nos EUA.

Os rabiscos em um inglês vacilante diziam que o autor estava aprisionado em um campo de trabalho forçado numa cidadezinha do norte da China, onde se trabalha sete dias por semana, 15 horas por dia, sob vigilância de guardas sádicos.

“Se o senhor ocasionalmente comprar este produto, por favor, reenvie esta carta para a Organização Mundial de Direitos Humanos”, dizia o texto encontrado por Julie Keith em outubro. “Milhares de pessoas aqui, que estão sob perseguição do Partido Comunista, vão agradecer e lembrar para sempre.”

A carta chamou atenção internacional para o pouco transparente sistema chinês de “reeducação através do trabalho”, uma série de colônias penais em que pequenos criminosos, dissidentes religiosos e críticos do governo podem receber sentenças de até quatro anos sem julgamento.

Mas quem foi o autor da carta permaneceu um mistério, e foi objeto de especulação se ele era realmente um preso ou simplesmente um ativista criativo tentando chamar atenção para o problema.

Em maio, porém, durante uma entrevista sobre os campos de trabalho chineses, um ex-detento de Masanjia de 47 anos disse ser o autor da carta. O homem, morador de Pequim e membro do Falun Gong, grupo religioso banido, contou que aquela foi uma das 20 e poucas cartas que escreveu durante dois anos. Ele as colocava em embalagens de produtos com descrições em inglês, porque era provável que seriam enviadas ao Ocidente.

“Por muito tempo fantasiei sobre essas cartas sendo encontradas em outros continentes, mas com o tempo perdi minhas esperanças e me esqueci delas”, disse ele, que pediu para ser identificado apenas como Zhang.

Prédio administrativo do campo de trabalhos forçados de Masanjia, China

Prédio administrativo do campo de trabalhos forçados de Masanjia, China

Ele conhece bem as práticas do campo em questão. Sua letra e seu modesto conhecimento de inglês batem com os da carta. Se o que contou Zhang realmente explica a origem do pedido, o fato representa uma das mais bem-sucedidas campanhas dos seguidores do movimento Falun Gong, conhecidos por tentativas de constranger publicamente o governo da China, que os tornou ilegais em 1999.

Encorajados por um raro debate aberto sobre o futuro dos campos de reeducação através do trabalho na China, muitos ex-detentos vieram a público contar suas histórias. Em entrevistas com mais de dez que cumpriram penas nesses campos, eles descreveram um catálogo de abusos horríveis, incluindo espancamentos frequentes, privação de sono, e sobre prisioneiros acorrentados em posições dolorosas por semanas.

Muitos contaram sobre a morte de colegas, seja por suicídio ou por doenças não tratadas pelos responsáveis do local. “Às vezes os guardas me arrastavam pelos cabelos, ou colocavam bastões de choque na minha pele por tanto tempo que o cheiro de carne queimada enchia a sala”, conta Chen Shenchun, 55 anos, sentenciada a dois anos por cobrar salários não pagos de uma fábrica estatal.

Segundo os ex-presidiários, quase metade da população de Masanjia é composta de praticantes do Falun Gong ou membros de outras igrejas. Há também prostitutas, viciados em drogas e ativistas que causam problemas às autoridades. Todos concordam que os piores abusos eram destinados aos membros do Falun Gong que se recusavam a renunciar a sua fé.

As autoridades de Masanjia não responderam aos pedidos de entrevistas. Guardas abordados durante um intervalo de trabalho também se recusaram a responder perguntas. Um deles, no entanto, fez uma “correção” na forma em que a pergunta foi elaborada: “Não há prisioneiros aqui. São todos estudantes.”

Executivos da Sears Holdings, dona da Kmart, não quiseram dar entrevista. Em uma breve declaração, o porta-voz da companhia disse que a investigação interna lançada após a descoberta da carta não encontrou nenhuma violação das regras da companhia, que barram o uso de trabalho escravo. Ele se recusou a dar o nome da fábrica chinesa que produziu o item decorativo.

Os subterfúgios de Zhang para escrever a carta foram arriscados. Proibido de ter canetas e papéis, ele roubou alguns itens de um escritório durante uma limpeza que fez. Ele escrevia enquanto seus colegas de cela estavam dormindo. Ele enrolava as cartas e as escondia nas barras de ferro do beliche até que produtos destinados ao exterior estivessem prontos para ser embalados.

Julie comprou o produto em 2011, mas só o abriu no ano seguinte. “Quando abri a caixa e minha filha encontrou a carta, duvidei que fosse verdade. Mas então pesquisei no Google ‘Masharjia’ e vi que esse não era um lugar bacana”, conta. Em dezembro, ela enviou a carta para uma agência do governo americano, que informou que investigaria o caso. Um porta-voz, que alegou questões processuais para não poder confirmar se a investigação em andamento, afirmou que casos como esses costumam levar muito tempo para ser averiguados.

Por Andrew Jacobs

dica do Ailsom Heringer

Se um gay busca Deus, quem sou eu para julgar, diz papa

Francisco concedeu entrevista durante o voo de volta a Roma. O papa fez um balanço da viagem ao Brasil e surpreendeu ao tocar em temas delicados

O Papa Francisco desembarca nesta segunda-feira (29) no aeroporto Ciampino, em Roma (foto: Alessandro Bianchi/Reuters)

O Papa Francisco desembarca nesta segunda-feira (29) no aeroporto Ciampino, em Roma (foto: Alessandro Bianchi/Reuters)

Adriana Dias Lopes, na Veja on-line

O papa Francisco deu uma entrevista durante o voo de volta a Roma. O pontífice conversou com os jornalistas ao longo de uma hora e vinte e dois minutos, em pé. Francisco fez um balanço da viagem ao Brasil e surpreendeu ao tocar em temas delicados, como a reforma da Cúria Romana, o lobby gay e a evasão de fiéis. E, claro, falou de suas impressões sobre o Brasil.

“Boa noite. Foi uma bela viagem, mas estou bastante cansado”, disse o papa aos jornalistas.  ”A bondade e o coração do povo brasileiro são muito grandes. Esse povo é tão amável, é uma festa. No sofrimento (o povo) sempre vai achar um caminho para fazer o bem em alguma parte. É um povo alegre, um povo que sofreu tanto. É corajosa a vida dos brasileiros. Tem um grande coração, este povo.”

Respondendo a uma pergunta sobre lobby gay no Vaticano, Francisco disse: “Se uma pessoa é gay e procura Deus e tem boa vontade, quem sou eu, por caridade, para julgá-la? O catecismo da Igreja católica explica isso muito bem. Diz que eles não devem ser discriminados por causa disso, mas devem ser integrados na sociedade”.

Francisco também falou sobre a segurança durante a Jornada Mundial da Juventude. “Não teve um incidente em todo o Rio de Janeiro com estes jovens. Foi super espontâneo. Com menos segurança eu pude estar com as pessoas, saudá-los, sem carro blindado. A segurança é a confiança de um povo. Eu prefiro esta loucura, e ter o risco da loucura, que é uma aproximação. ”

O papa fez elogios à organização da JMJ: ”A parte artística, a parte religiosa, de música, foi muito bonita. Eles têm uma capacidade de se expressar. Ontem, por exemplo, fizeram coisas belíssimas. Aparecida para mim foi uma experiência forte, maravilhosa. Eu me lembro, durante a conferência, eu queria ter ido sozinho, escondido, mas não era possível. Depois, o numero de jovens. Hoje o governador falou de 3 milhões. Não posso acreditar. Isso é verdade, não sei se viram. Do altar até o final, toda praia estava cheia, até lá onde fazia a curva, havia tantos jovens.”

Confira abaixo alguns trechos da entrevista concedida por Francisco durante o voo de volta a Roma.

Nestes quatro meses, o senhor criou várias comissões no Vaticano. Que tipo de reforma tem em mente? O senhor quer suprimir o IOR (Instituto para as Obras de Religião, mais conhecido como Banco do Vaticano)? 

Alguns acham melhor que seja um banco, outros que sejam um fundo, uma instituição de ajuda. Eu não sei. Eu confio no trabalho das pessoas que estão trabalhando sobre isso. O presidente do IOR permanece, o tesoureiro também, enquanto o diretor e o vice-diretor pediram demissão. Não sei como vai terminar essa história. E isso é bom. Não somos máquinas. Temos que achar o melhor. A característica de, seja o que for, tem que ser transparência e honestidade.
O senhor enfrenta muitas resistências na Cúria?

Se há resistência, eu ainda não vi. É verdade que aconteceram muitas coisas. Mas eu preciso dizer: eu encontrei ajuda, encontrei pessoas leais.

O mundo mudou, os jovens mudaram. Temos no Brasil muitos jovens mas o senhor não falou de aborto, sobre a posição do Vaticano em relação ao casamento entre pessoas do mesmo sexo. No Brasil foram aprovadas leis que ampliam os direitos para estes casamentos em relação ao aborto. Por que o senhor não falou sobre isso?

A Igreja já se expressou perfeitamente sobre isso. Não era necessário falar sobre isso, como também falar de tantos outros assuntos. Eu também não falei sobre o roubo, sobre a mentira. Em relação ao aborto, a Igreja tem uma doutrina clara. Queria falar de uma coisa positiva no Brasil, que abre caminho aos jovens. Além disso, os jovens sabem perfeitamente qual a posição da Igreja.

Por que o senhor carrega a sua própria mala e o que leva dentro?

Não tinha a chave da bomba atômica dentro da mala… Eu sempre fiz isso. Quando viajo, levo minhas coisas. Tenho um barbeador, o livro da Liturgia das Horas, uma agenda e um livro para ler. O livro é sobre Santa Terezinha. Sou devoto de Santa Terezinha. Eu sempre carreguei minha maleta. Acho isso absolutamente normal.

Por que pede tanto para que rezem pelo senhor ? Não é habitual ouvir de um papa que peça que rezem por ele.

Sempre pedi isso. Quanto era padre, pedia, mas nem tanto e nem tão frequentemente. Comecei a pedir mais frequentemente quando passei a ser bispo. Preciso da ajuda do senhor. Eu, de verdade, me sinto com tantos limites, tantos problemas, e também sou pecador. Peço a Nossa Senhora que reze por mim. É um hábito, mas que vem da necessidade. Eu sinto que devo pedir.

O senhor tem um calendário definido para o próximo ano? 

Em outubro devo ir para Assis. Para fora da Itália, quero ir para Israel. O governo israelense fez um convite para ir a Jerusalém. E o da Palestina também. Também tenho um convite para ir a Fátima.

Às vezes, o senhor se sente aprisionado no Vaticano?

Eu gostaria de poder andar pelas ruas de Roma. Eu era um padre da rua. Os seguranças do Vaticano têm sido bons comigo. Agora, me deixaram fazer algumas coisas a mais. Mas claro que entendo que não posso andar pelas ruas.

O Brasil esta perdendo muitos fiéis. O senhor acha que o movimento carismático pode ser uma forma de impedir a fuga dos católicos para os pentecostais? 

Exatamente. Conversei ontem com os bispos sobre o problema da evasão de fiéis. Vou lhes contar uma história agora: no final dos anos 70 e 80, eu não os podia ver (movimento carismático). Certa vez, eu cheguei a afirmar que eles confundiam uma celebração litúrgica com escola de samba. Agora, acho que este movimento faz tanto bem para a Igreja. Neste momento da Igreja, acho que os movimentos são necessários. Os movimentos são uma graça do Espírito Santo. E digo mais: os movimentos não apenas servem para evitar a fuga de fiéis, mas são importantíssimos para a própria Igreja em si.

Qual sua relação de trabalho com Bento XVI ?

É como ter um avô em casa, em meio a uma família. Um avô venerado.

O senhor falou de misericórdia. A Igreja não deveria ter misericórdia com os casais divorciados e que se casam novamente? 

Um dos temas que deverão ser discutidos entre a comissão de oito cardeais que criei há alguns meses é como ir adiante na pastoral matrimonial. Esse será um dos assuntos do próximo sínodo.

O papel das mulheres na Igreja pode mudar? 

A questão da ordenação das mulheres é um assunto de portas fechadas. A Igreja diz não. No entanto, acredito que a mulher deve ter papéis mais importantes na Igreja. Uma igreja sem as mulheres é como o Colégio Apostólico sem Maria. A mulher ajuda a igreja a crescer. E pensar que Nossa Senhora é mais importante do que os apóstolos! Acredito, no entanto, que, até agora, não fizemos uma profunda teologia sobre a mulher. Há as mulheres que fazem a leitura, que são presidentes da Cáritas. Mas há mais o que fazer. Acredito que é necessário fazer uma profunda teologia da mulher.

Recentemente, o monsenhor Battista Ricca, um dos diretores do IOR, o Banco do Vaticano, foi acusado de pertencer ao lobby gay do Vaticano. Como o senhor pretende enfrentar esta questão? 

Sobre monsenhor Ricca, fiz o que o direito canônico manda fazer, que é a investigação prévia. E nesta investigação, não tem nada do que o acusam. Não achamos nada. Esta é a minha resposta. Mas eu gostaria de dizer outra coisa sobre isso. Vejo que muitas vezes na Igreja se buscam os pecados de juventude, por exemplo. Abuso de menores é diferente. Mas, se uma pessoa, seja laica ou padre ou freira, pecou e esconde, o Senhor perdoa. Quando o Senhor perdoa, o Senhor esquece. E isso é importante para a nossa vida. Quando vamos confessar e nós dizemos que pecamos, o Senhor esquece e nós não temos o direito de não esquecer. Isso é um perigo. O que é importante é uma teologia do pecado. Tantas vezes penso em São Pedro, que cometeu tantos pecados e venerava Cristo. E este pecador foi transformado em papa. Neste caso, nós tivemos uma rápida investigação e não encontramos nada. A imprensa tem escrito muita coisa sobre o lobby gay. Vou lhes dizer: eu ainda não vi ninguém no Vaticano com uma carteira de identidade do Vaticano dizendo “sou gay”. Dizem que há alguns. Acho que quando alguém se vê com uma pessoa assim, devemos distinguir entre o fato de que uma pessoa é gay e fazer um lobby gay, porque todos os lobbys não são bons. Isso é o que é ruim. Se uma pessoa é gay e procura Deus e tem boa vontade, quem sou eu, por caridade, para julgá-la? O catecismo da Igreja católica explica isso muito bem. Diz que eles não devem ser discriminados por causa disso, mas devem ser integrados na sociedade. O problema não é ter essa tendência. Não! Devemos ser como irmãos. O problema é fazer lobby, o lobby dos avaros, o lobby dos políticos, o lobby dos maçons, tantos lobbys. Esse é o pior problema.

O senhor se assustou quando viu o informe do Vatileaks? 

O problema é grande, mas não estou assustado.