Usuários de crack conseguem deixar a droga com a ajuda da fé

Rafael Garcia: livre do crack com a ajuda de projeto da Igreja Batista
Rafael Garcia: livre do crack com a ajuda de projeto da Igreja Batista

Carolina Heringer e Herculano Barreto Filho, no Extra

Até abril deste ano, Rafael Henrique Garcia era mais um entre centenas de usuários de crack amontoados pelos becos e trilhos em Manguinhos e no Jacarezinho. Três meses depois, voltou às favelas usando camisa amarela com “Jesus” estampado no peito. Desta vez, para livrar pessoas do vício. Reabilitado pela fé, Rafael foi mero espectador da ocupação policial no último dia 14, nas comunidades onde era consumido pelo vício.

Fumava crack na linha do trem. Uma vez, após comprar duas pedras, caiu num valão com água podre. Assustado, ergueu os braços. Saiu de lá sujo, mas se achando vitorioso por salvar a droga.

Em Manguinhos, ouvia histórias de traficantes, que intimidavam os usuários com histórias sobre porcos alimentados com carne humana. Devedores e X-9 — informantes da polícia — viravam comida de porco, diziam.

Educadoras conduzem uma usuária de crack em Madureira
Educadoras conduzem uma usuária de crack em Madureira

Rafael perambulava entre o abrigo da prefeitura em Paciência, na Zona Oeste, e as cracolândias quando foi preso, em abril, por roubar um pote de creme cosmético. Voltou às ruas em 8 de junho. Dois dias depois, aceitou um convite de missionários da Cristolândia, programa da Igreja Batista para recuperar viciados. Entrou na igreja com uma camisa suja, uma bermuda feminina e chinelo em apenas um pé.

Rafael havia sido expulso da casa dos pais, em Penápolis, São Paulo, aos 16 anos, ao assumir sua homossexualidade. Depois, se prostituiu, travestido, e usou todo tipo de droga. Só mudou de vida aos 33, a idade de Cristo.

— Você acredita que um abraço mudou a minha história? Jesus me aceitou do jeito que eu era. Senti que poderia ser útil — conta.

O mesmo poder da fé que resgatou Rafael livrou Carlos Eduardo Jorge da Rosa, 43 anos, do vício de mais de duas décadas. Nascido no Paraná e criado em São Paulo, experimentou o crack em 1989 e nunca mais parou. Depois de 30 recaídas, Carlos está limpo há cinco meses na Cristolândia.

— Precisava me afastar de São Paulo para conseguir. É difícil, mas está dando certo. Dia após dia — comemora.

Funcionário da secretaria observa uma jovem acolhida em Madureira
Funcionário da secretaria observa uma jovem acolhida em Madureira

A ocupação do Jacarezinho e Manguinhos trouxe à tona a realidade das cracolândias. Para os educadores da Secretaria municipal de Asistência Social, que têm a missão de levar os usuários para abrigos, a mazela é velha conhecida. Há dez anos, a assistente social Mara Ruth, de 40, percorre as ruas da cidade.

Após acompanhar a epidemia da cola e solvente, entre 2000 e 2009, há um ano convive com a dura realidade do crack. Conhecida nas ruas, tem facilidade de se aproximar dos usuários.

Funcionário da Secretaria de Assistência Social com um usuário de crack
Funcionário da Secretaria de Assistência Social com um usuário de crack

— Muitos, inclusive, já me procuram pedindo ajuda. Crio um vínculo para passar confiança — revela.

O educador Thiago Correia, de 27 anos, está há dois anos nas ruas. Mas, descolado, facilmente se integra aos usuários, na tentativa de convencê-los a serem acolhidos:

— Para cada situação que encontramos, é uma estratégia. Não tem jeito certo de abordar. Há pessoas que só querem um abraço. Esse trabalho é uma escola de vida.

fotos: Fabiano Rocha / Extra

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