Gabriel Pinotti, no SBTZ
1. Um avião atravessando a rua

Gabriel Pinotti, no SBTZ
















publicado na INFO
Rio de Janeiro – Uma expedição inédita ao fundo do Atlântico Sul descobriu rochas continentais em uma montanha submersa que era tida como de origem vulcânica, o que abre a possibilidade de haver um continente submerso a cerca de 1.500 quilômetros do litoral brasileiro, informaram nesta segunda-feira cientistas do Brasil e Japão.
A expedição, a primeira realizada em águas profundas do Atlântico Sul com a ajuda do único submarino tripulado do mundo capaz de descer a até 6.500 metros de profundidade, recolheu amostras de rocha na montanha submersa conhecida como Elevação do Rio Grande.
“A Elevação do Rio Grande sempre foi considerada uma montanha submersa de origem vulcânica semelhante às que há em frente à costa da África, mas vimos agora que suas rochas não são vulcânicas mas continentais”, afirmou o presidente da Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais (CPRM) do Brasil, Roberto Ventura, em entrevista à imprensa no Rio de Janeiro.
“É como se um continente tivesse afundado na época em que a América do Sul se separou da África. Não sei o que isso envolve juridicamente, mas do ponto de vista cientista e técnico, encontrar um continente perdido é uma grande novidade”, acrescentou.
Segundo os geólogos, como consequência de movimentos tectônicos, uma massa de terra pode ter afundado durante a separação da chamada Pangeia, como era conhecida a gigantesca massa continental que existiu no final da era Paleozoica e cuja divisão formou os continentes hoje conhecidos.
A expedição oceânica foi fruto de uma associação entre Japão e Brasil e contou com a participação de um geólogo da CPRM, que pôde realizar uma viagem de oito horas no submarino, até uma profundidade de 4.200 metros, no qual viu as rochas continentais e recolheu amostras.
As sete viagens até agora realizadas ao Atlântico Sul a bordo do minisubmarino japonês Shinkai 6.500, com capacidade para três tripulantes (dois pilotos e um cientista) e equipado com braços mecânicos e câmeras de alta resolução, permitiram observar pela primeira vez as costas da Elevação do Rio Grande.
Trata-se do mais importante complexo de montanhas submersas no Atlântico Sul, com alturas que chegam a 3.200 metros desde o leito do oceano e que, juridicamente em águas internacionais, separa a margem continental brasileira das grandes profundidades oceânicas.
Ventura anunciou que a CPRM lançará ainda este ano uma licitação para selecionar uma empresa de perfuração que possa coletar mais amostras de rochas na Elevação do Rio Grande que confirmem sua possível origem continental, assim como o potencial mineral na região.
A montanha submersa foi inspecionada como parte da expedição Iata-Piuna, realizada a bordo do navio de pesquisa oceanográfica japonês Yokosuka, que reúne cientistas do Brasil e Japão, e cujo objetivo é explorar a margem continental brasileira e a parte adjacente do oceano, incluindo a Elevação do Rio Grande e o Dorsal de São Paulo.
A expedição faz parte de um projeto ainda maior, batizado de “Busca pelos Limites da Vida” (Quelle 2013) e com o qual a Agência Japonesa de Ciência e Tecnologia da Terra e do Mar (Jamstec) se propõe a explorar em 2013 parte dos ambientes mais profundos de todo o mundo, principalmente no hemisfério sul.
A embarcação japonesa já passou pela zona central do Oceano Índico e, após sua expedição pelo Atlântico Sul, se dirigirá ao Mar do Caribe e ao Oceano Pacífico na região de Tonga.
Na viagem pelo Atlântico Sul, que começou em 13 de abril e se estenderá até 27 de maio, foram convidados quatro cientistas brasileiros, assim como um geólogo da CPRM e outro da Petrobras.

Edgar de Souza, o único prefeito assumidamente homossexual do país: “O que ele [Feliciano] chama de ditadura gay é basicamente a busca pela igualdade de direitos”
Sociólogo, pai adotivo de duas crianças pequenas, católico de andar com terço no bolso e ex-presidente da Câmara de Vereadores, Edgar de Souza (PSDB) liderava por pequena margem as pesquisas de intenção de voto a prefeito de Lins (SP) quando foi surpreendido por uma campanha apócrifa.
Faltavam 10 dias para a eleição e a pauta local era típica de um município com 72 mil habitantes: a criação de novas oportunidades de emprego e renda na cidade, dependente em excesso de um grande empregador – no caso, o grupo JBS, instalado nas proximidades; e a impermeabilidade da área urbana que, asfaltada sem planejamento, alaga com as chuvas de verão.
Foi então que começaram a aparecer os panfletos, postos às portas das casas no meio da noite. Assinados pelo movimento anônimo “Pela moral e bons costumes de Lins”, um deles trazia a reprodução de uma foto de Edgar com Alex, seu companheiro há nove anos, com a legenda “se você votar no 45, essa família vai governar a sua família”. O segundo, adornado pelo título “compre um e leve de quatro”, trazia quatro montagens, duas mais chocantes. Na primeira, Edgar aparecia ladeado por um demônio e dizia-se que ele e seu companheiro haviam selado a união erguendo uma capela para o diabo em um terreiro de macumba; na outra, afirmava-se que ele se apresentava como o travesti “Morgana” em outras cidades. A fotomontagem o colocava com uma peruca e bijuterias. “Pior, era uma peruca horrorosa”, diverte-se o agora prefeito, de 34 anos.
Localizada no centro-oeste de São Paulo, Lins viu proliferarem-se, nas últimas décadas, 170 pequenos templos evangélicos, com capacidade próxima a 40 pessoas cada. Três vezes mais que toda a frota de táxis da cidade, de 53 carros.
Politicamente, a cidade sempre andou na contramão. Em 1976, com o país sob o governo de Ernesto Geisel, Lins elegeu duas gestões consecutivas do opositor MDB. Em 1992, enquanto o Brasil despachava o governo de Fernando Collor de Mello por meio do impeachment, a cidade elegia um prefeito do PRN, condenado posteriormente por improbidade administrativa.
Em Lins, o pastor e deputado Marco Feliciano (PSC), que permanece se equilibrando à frente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara (CDH), é tido como ídolo. Nascido em Orlândia, distante 287 km, Feliciano não faz cultos em igrejas da cidade, simplesmente porque nenhuma tem capacidade para receber seus admiradores. Ele se apresenta em estádios de futebol ou em praça pública. Em abril de 2010, o pastor esteve na cidade com a Cruzada Reage SP, espécie de show evangélico itinerante que passou por 50 municípios paulistas. Naquele ano, Feliciano foi o sexto deputado federal mais votado em Lins. No Estado, ficou na 13ª colocação.
Uma manifestação contra a presença de Feliciano na CDH foi convocada pelo Facebook em fins de março em Lins. Oito pessoas confirmaram presença. Nas fotos, contam-se seis. A cidade não tem organizações GLBT, ao contrário da vizinha Cafelândia, de 16 mil habitantes, que desde 2010 organiza sua parada gay.
“Até aquele momento, minha homossexualidade não era um assunto da eleição. Um candidato a vereador ou outro falava alguma bobagem, de que eu transformaria Lins numa boate gay. Mas eu era vereador há 12 anos, todos na cidade sabiam, não era escondido”, conta Edgar.
“Minha igreja defende a família, mas se ele ganhou é porque Deus permitiu. Quem somos nós para julgá-lo?”
O que provavelmente nem Edgar esperava era que os panfletos, cuja autoria está sendo investigada em dois inquéritos que correm na justiça, desencadeassem uma espécie de epifania coletiva na cidade. “Quando os panfletos apareceram, ninguém se escandalizou, pelo contrário. A população se revoltou, porque o Edgar nunca omitiu que tinha um parceiro. Eles apareciam juntos até na coluna social”, conta Viviane Rodrigues, presidente do Rotary Clube de Lins. Da farmácia ao ponto de ônibus, ouviam-se relatos de pessoas que mudavam o voto rumo a Edgar, inclusive líderes religiosos.
O pastor Adildo Filho, da Igreja Jerusalém Avivamento, localizada no bairro São João, mais pobre e às voltas com o tráfico de drogas, foi um dos que se engajaram na campanha de Edgar. “Eu fui para o altar e disse pro nosso pessoal que íamos apoiá-lo”, lembra. Apesar disso, o pastor não esconde que vê na orientação sexual do prefeito uma “deformidade”, passível de cura. “Aceitamos pessoas assim na nossa igreja e temos psicólogos para elas. Às vezes a pessoa não conhece a palavra de Deus, seu poder transformador”, argumenta. O pastor José Francisco da Silva, da Pentecostal Raiz de Davi, vê a mão divina na decisão eleitoral. “Minha igreja prega o valor da família, com homem e mulher, como está na Bíblia. Mas se ele ganhou a eleição é porque Deus permitiu. Quem somos nós para julgá-lo?”.
O presidente do sindicato varejista, Luís Carlos Gardini, conta que “muita gente do comércio se movimentou por ele, que tinha sido um bom presidente de Câmara. Os panfletos foram um tiro no pé, porque mesmo quem tinha preconceito se incomodou de usarem esse assunto na campanha”.
Nos dez dias seguintes, Edgar escalou onze pontos percentuais e angariou 53,2% dos votos válidos. As adversárias Fátima Ottenio (PPS) e Keiko Kukimori (PMDB) perderam seis e quatro pontos percentuais, respectivamente, e fecharam a eleição de 2012 com 27% e 14%.
Lins se tornou assim, provavelmente, o único dos 5570 municípios do Brasil a eleger um homossexual assumido como prefeito – um levantamento feito pela Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABGLT) apontara apenas um candidato gay ao executivo municipal em 2012, em João Pessoa (PB), que não se elegeu. “Nunca fui militante GLBT, provavelmente por isso não sabiam de mim. Mas sou um defensor ferrenho da igualdade de direitos”, diz o prefeito.
Católico formado na Teologia da Libertação, Edgar integrou a coordenação nacional da Pastoral da Juventude antes de assumir sua homossexualidade aos 19 anos. Namorava meninas, mas relacionava-se com garotos às escondidas. “Chegava em casa depois de ter uma relação homossexual e chorava, tomava banho e esfregava a pele até quase rasgar. Era muito beato, fui até atrás de cura”, conta. “Nasci de novo quando aceitei que era gay”.

Edgar com o companheiro, Alex: “Sei que se errar, serei ‘o viado’ que errou. Preciso exercer o mandato com honradez também porque é importante para a causa da igualdade”
Pelo PT, Edgar se elegeu vereador pela primeira vez em 2000, aos 21 anos. Em 2004, ano em que conheceu Alex, estava às voltas com a reeleição quando foi informado que um adversário produzia um panfleto para “desmascarar” a ele e outros homossexuais postulantes à Câmara. “Ali eu cansei, estava cansado de me esconder”. Pouco depois da eleição, ele e Alex, contador por formação e hoje coordenador de uma franquia de escola de idiomas, trocaram alianças e foram morar juntos. “Não fizemos a união civil ainda, mas estamos pensando em oficializar por questões de herança e por causa das crianças”.
Eles são os responsáveis pela criação de um menino e uma menina, de três e dois anos, frutos do relacionamento de uma moça de 20 anos com seu cunhado, viciado em crack. As crianças o chamam, assim como a Alex, de tio. “Faço um esforço danado para não chamarem de pai. Trato como se fossem, mas os pais biológicos estão aí, amanhã podem requerer a guarda e a gente vai sofrer”, diz.
Na esteira dos episódios que culminaram no processo do mensalão e por diferenças com o diretório local, Edgar deixou o PT em 2006 rumo ao PSOL, pelo qual se candidatou, sem sucesso, a deputado estadual.
Foi para o PSB em 2007 e pelo partido se tornou vereador pela terceira vez. Insatisfeito com os caciques da legenda, migrou para o PSDB em 2011 por influência do presidente estadual da sigla, Pedro Tobias, muito forte na região de Bauru.
“No PT, eu via necessidade de uma figura mais estatizante. Mas me convenci que não se pode ter o Estado tão pesado e que as privatizações foram importantes. E sou um ferrenho defensor das organizações sociais”. Seu espelho na política é a vereadora de Araçatuba e militante de Direitos Humanos Edna Flor, ex-petista hoje no PPS. Dá a entender que admira, em igual medida, os ex-presidentes Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Fernando Henrique Cardoso (PSDB).
Sobre a celeuma em relação à permanência de Feliciano na CDH, o prefeito de Lins recorre à ciência política para dizer que o deputado do PSC e seu grupo têm uma visão enviesada de democracia. “Democracia não é governo da maioria simplesmente. É um regime de igualdade onde a maioria tem o governo, mas com pleno respeito aos direitos das minorias. Eles não entendem isso. O que eles chamam de ditadura gay é basicamente uma busca pela igualdade de direitos enquanto cidadãos. Não existe cidadania maior ou menor”.
Edgar diz ter se sentido particularmente ofendido por uma mensagem postada no Twitter por um assessor de Feliciano e pelo deputado reproduzida. Nela, seguia o link de uma reportagem sobre um casal de homossexuais que teria abusado do filho adotivo. “Esse será o destino de crianças adotadas por gays”, anotava o assessor. “É um posicionamento criminoso, beira a loucura. Eu crio duas crianças. Se você permite que esse pensamento se solidifique, todo mundo começará a olhar casais homoafetivos como suspeitos de pedofilia. É muito grave”, avalia.
Ele também condena a “postura vacilante” de seu PSDB sobre questões espinhosas da pauta mais progressista, em especial o ex-governador José Serra. “Admiro Serra e o vejo como uma das mentes mais brilhantes do Brasil já produziu, mas é no momento da crise que somos chamados a mostrar quem somos”. Ele se diz radicalmente contra o aborto, mas ressalva ser esta uma posição pessoal. “O Estado precisa ter outra relação com a questão”, diz. Sobre Serra, diz que “para não perder votos conservadores, adotou posturas dúbias sobre o aborto e o combate à homofobia nas escolas, indo inclusive contra sua própria biografia”.
Nas ruas de Lins, Edgar ainda goza do prestígio típico de começo de mandato. O pronome pessoal “nós” acompanha a maioria das cobranças dos eleitores, como se estes se sentissem parte da administração. É parado por um estudante de engenharia química, magricela e de óculos enormes, que quer se filiar ao PSDB porque também gosta “de política e essas coisas”.
A situação do município, no entanto, não é fácil. O orçamento de R$ 137 milhões está 42% comprometido com a folha de pagamento do funcionalismo. Na pista tucana, o prefeito diz que a cidade passa por um “choque de gestão”, para retomar sua capacidade de investir. “Mas vamos manter religiosamente o pagamento de salários, sem afetar o trabalhador. Aí fala o meu lado petista”, observa com humor.
Com 13 dias da nova gestão, o governador Geraldo Alckmin (PSDB) baixou na cidade, com estado de emergência decretado e três mortes registradas devido às enchentes. O Estado se comprometeu a bancar os R$ 5 milhões necessários para a construção da maior das três barragens que serão feitas. Junto ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), obteve um financiamento de R$ 3,5 milhões para asfalto. “Tenho ido a Brasília também para buscar recursos do PAC [Programa de Aceleração do Crescimento]“, diz. Um dos projetos é um teatro municipal.
Na busca pelo equilíbrio entre a religiosidade local e seu compromisso com as minorias, Edgar quer criar em Lins uma semana de respeito às diferenças, com eventos e palestras. Ao mesmo tempo, prefeitura dará suporte a uma ‘Marcha para Jesus’ com presença do cantor evangélico e deputado federal Marcelo Aguiar (PSD-SP).
Edgar garante que o bom momento junto ao eleitorado não o faz baixar a guarda. Se sua orientação sexual não é por ora o assunto, fatalmente será lembrada de modo pejorativo se sua gestão fracassar. “Sei que se errar, serei ‘o viado’ que errou. Preciso exercer o mandato com honradez também porque é importante para a causa da igualdade”.
Questionado sobre um momento que o faz lembrar disso, Edgar remete à comemoração de seu êxito nas urnas, em outubro. No palanque montado próximo à rodoviária, a vitória não foi selada com beijo, mas o abraço demorado de Edgar e Alex levou ao delírio os milhares que lotavam as imediações da praça Frederico Ozanam. “A esperança venceu o medo e o respeito venceu a intolerância”, discursou o prefeito tucano, retomando a frase eternizada pelo antigo correligionário petista Lula. Dizem na cidade que o número de pessoas só era comparável à comemoração do acesso do Clube Atlético Linense à primeira divisão do futebol paulista após 53 anos, em 2010. E a um culto evangélico comandado por Marco Feliciano, naquele mesmo local.
Leonardo Sakamoto, no Blog do Sakamoto
(Este texto vai ter exatamente o tamanho de 8% de bateria do notebook por conta da falta de energia elétrica que se abateu, novamente, sobre o meu bairro, após a chuva, na noite deste sábado.)
Com exceção dos fanáticos religiosos que enxergam sinais da primeira ou da segunda vinda do messias (dependendo se a religião em questão não permite comer X-Burguer ou abraça o consumismo para celebrar o nascimento do seu deus), apenas os mais míopes não percebem que o planeta está dando o troco.
Eu sei que já falei disso aqui antes, mas em tempos de fundamentalismo cristão no Congresso Nacional e de chuvas torrenciais na cidade de São Paulo, o assunto segue novo.
Não estou falando apenas do aquecimento global e das já irreversíveis mudanças climáticas através dos quais ajustamos o termostato do planeta para a posição “Gratinar os Idiotas Lentamente”, mas também dos crimes ambientais que fomos acumulando debaixo do tapete e que, agora, tornaram-se uma montanha pronta a nos soterrar.
Muitos falam de tragédias como se fossem situações desconectadas da ação humana, resultados da fúria divina e só. Não foi Deus quem colocou Marco Feliciano onde está, ao contrário do que parte de seus fieis acredita. Ele não foi ungido pelo divino, mas sim por milhares de votos paulistas, conscientes ou não.
Da mesma forma, um prefeito de uma cidade atingida pelas chuvas, anos atrás, disse que só restava a ele rezar para Deus controlar as águas. Bem-feito para a população que votou nele e viu o administrador do município “terceirizando” o trabalho para o plano superior, provavelmente dando continuidade ao que foi feito pelos que vieram antes dele.
A declaração é da mesma escola daquela de um assessor de George W. Bush quando questionado se a herança deixada às próximas gerações pelos gases causadores do efeito estufa da indústria norte-americana não poderia ser nefasta. Não me lembro da frase exata, porque lá se vão anos, mas foi algo do tipo: “não será um problema, porque Cristo voltará antes disso”. Salve, aleluia, salve!
Não é à toa que uma das mais estranhas e, ao mesmo tempo, mais brilhantes alianças políticas no parlamento brasileiro seja entre a bancada evangélica e a bancada ruralista. De um lado, os fieis ajudam a garantir a manutenção de um desenvolvimento a qualquer preço, passando por cima do meio ambiente, como se não houvesse amanhã. Do outro, os fazendeiros contribuem para que os direitos humanos sejam rasgados diante de uma visão distorcida de religião, garantindo que não haja mesmo um amanhã.
Tendo em vista todo esse negacionismo maluco, um renomado cientista declarou, pouco antes de uma das cúpulas do clima, que era melhor então deixar os fatos tomarem seu curso natural, o mundo aquecer, refugiados ambientais quadruplicarem, cidades nos países ricos serem invadidas pelo mar, a fome surgir no centro do mundo, guerras ambientais ocorrerem. Só assim pessoas e países tomariam atitudes reais. Situação que, no Brasil, é vulgarmente conhecida como “a hora em que a água bate na bunda”.
O problema é que, se nada for feito até lá, quando chegarmos nesse ponto, talvez não haja mais bunda para salvar.
É irônico que, de certa forma, o desespero diante do caos ambiental (fomentado pelos ruralistas ao derrubarem o Código Florestal), daqui a algumas décadas, irá contribuir para trazer mais fieis a igrejas. Pois só restará lamentar. Ou rezar.
Enquanto isso, a maioria segue escondida no conforto do anonimato, defendendo o seu, fazendo meia dúzia de ações insignificantes para dormir sem o peso da consciência e o resto que se dane. Não querem mudanças no modelo de desenvolvimento que impactaria o “American Way of Life” que importamos, apenas reciclar latinhas de alumínio e dar três descargas a menos no vaso sanitário por dia. Da mesma forma, não se importam com quem for eleito, desde que isso não atrapalhe o seu final de semana na praia. Afinal de contas, não precisam de um Estado que lhes garanta um mínimo de dignidade, uma vez que nasceram brancos, heterossexuais, ricos, enfim, o que convencionamos chamar de “cidadãos de bem”.
E seguem respondendo de boca cheia que fariam de tudo para ajudar o meio ambiente e defender a liberdades das pessoas.
dica do João Marcos
É bagunçada, mas é limpinha
Thiago Perin, no Ciência Maluca
Gostou, né? Se você é daqueles que “esquecem” ou “não têm tempo” de arrumar a cama quando levantam, não precisa mais se envergonhar por isso. Pelo contrário. Quando aparecer alguém te chamando de desleixado ou preguiçoso, pode dizer, com toda a dignidade, que você está apenas cuidando da saúde.
Uma pesquisa da Universidade de Kingston, na Inglaterra, mostrou que manter a cama desarrumada é uma forma de acabar com os ácaros que vivem nela (choque-se: pode ter até um milhão e meio deles por lá). E isso ajuda a prevenir uma porção de alergias e problemas respiratórios.
Por quê? Os ácaros precisam de calor e umidade para sobreviver. E, segundo o cabeça do estudo, uma cama bagunçada tende a ser mais fria e seca do que uma cama arrumadinha, o que mata os bichos por desidratação. (Mas bagunça também tem limite: não arrumar a cama não é a mesma coisa que não trocar os lençóis nunca, viu? Aí sim os bichos se reproduzem mais e mais.)