‘Westworld’ volta mais intrigante e com ecos atuais após reviravolta

Publicado na Folha de S. Paulo

Há algo de Stanley Kubrick, de Michael Haneke e de “Planeta dos Macacos” na temporada de “Westworld” que a HBO estreia neste domingo (22). Uma estirpe tão provocadora pode quitar com o espectador a promessa que a primeira temporada só ensejou.

Um indício: reencarnados após o caos do último episódio, Dolores, Bernard, Maeve e William parecem, já na estreia, mais interessantes e cativantes do que aquilo que havíamos podido ver até então.

Dolores, pulsante na pele da premiável Evan Rachel Wood, é quem conduz o espectador pelos intrincados mundos da série, passada na realidade paralela de parques de diversões povoados por androides, e agora não só. Devemos torcer por ela, mas nesta segunda temporada devemos também temê-la, talvez odiá-la.

É ela a heroína do parque “Westworld”, onde entreter significa voltar ao estado de natureza, aquele de John Locke (não o personagem de “Lost”, produzida pelo mesmo J.J. Abrams, e sim o filósofo britânico morto em 1704), em que nossos instintos baixos passam impunes.

Dolores, contudo, não é humana, tampouco seus instintos —pior, eles são a parte sórdida da nossa imaginação, e daí a evocação dos personagens de Haneke (“Violência Gratuita”). Fosse outro cenário e menor a pretensão, Dolores poderia bem ser um dos psicopatas do cineasta alemão.

Seu paralelo é Maeve (Thandie Newton, também brilhante), a androide calculista que toma as rédeas da narrativa (o jogo criado para os visitantes), no mundo real, ou que achamos ser real. Na série, essa dúvida é quase outro personagem em cena.

Agora está óbvio que a história é pilotada por protagonistas mulheres, uma ousadia na cinematografia/literatura de ficção científica e horror de que “Westworld” descende.

Bernard, o androide cientista que não sabia que era máquina, está frágil. Ao mesmo tempo, tem um trunfo: seus interlocutores ignoram que ele é mecânico, e portanto o inimigo. Vulnerável e empático na interpretação magistral de Jeffrey Wright, é o personagem ao qual se afeiçoar.

O quarteto fecha com o vingativo William (Ed Harris), que parecia vilão e agora parece designado a conter o caos. Sua reviravolta não terminou.

Os parques/mundos de “Westworld” apenas começam a se cruzar no episódio deste domingo, o que, apesar dos lapsos de tempo nas cenas de Bernard, permite um roteiro linear. Há risco de a série se perder, mas a estreia é tão intrigante que merece crédito.

Aos poucos, o maniqueísmo da temporada anterior se dissolve, e com isso vem o questionamento quanto à responsabilidade da empresa que criou os parques, batizada de Delos, na vida real e fantasiosa de seus clientes e na guerra que se anuncia.

Em dado momento, a série indica que a empresa recolhe secretamente o DNA daqueles que usam seus serviços. O dilema filosófico de “Westworld” pode vir a ser outro, então, mais perto de nossos tempos do que percebíamos.

A segunda temporada de “Westworld” (10 episódios) começa a ser exibida por HBO neste domingo (22), às 22h, e HBOGO

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