“Morei na Cracolândia e hoje cuido de dependentes químicos”

Publicado no UOL

“Eu conheci as drogas quando eu tinha 10 anos. Lembro de querer ser popular na escola e, por isso, imitar algumas meninas de quem eu gostava. Na segunda série do antigo ginásio fiz amizade com uma garota da sexta série. Tudo o que ela fazia, eu imitava – ela tinha tantos amigos! Se ela fumava cigarro, eu também fumava. Se ela bebia, eu também bebia. Ela fumou maconha, eu fiz o mesmo. Quando vi, já estava nas drogas….

Antes e depois de Eliene

Aos 15 anos eu conheci o crack. Não demorou muito e comecei a roubar e a me prostituir para conseguir pedra. Minha mãe não aprovava que eu bebesse ou usasse drogas, claro, por isso fugi de casa e fui morar na rua. Cheguei a mudar de estado, mas depois voltei para São Paulo e fui para a Cracolândia.

A minha lembrança de lá é de ficar dias sem dormir, usando a pedra. Quando conseguia dormir, eu acordava com a sensação de que alguém tinha abusado sexualmente de mim. Cheguei a ser presa por roubar. Fiquei um ano na cadeia e voltei para a Cracolândia. Eu era um lixo humano.

Aos 27 anos, em 2011, eu passei a ser ajudada por um projeto chamado Cristolândia, que resgatava dependentes químicos. Tinha um rapaz lá, um missionário, que todo dia que me dizia que a vida podia mudar – desde que eu fosse para a Casa Rosa, que era um centro de reabilitação. Mas eu só tomava café e banho que eles ofereciam.

Então, em 2012, teve uma ação policial na Cracolândia e eu resolvi me internar. Meu corpo estava cansado demais, de tanta droga que eu consumia. Foram dois anos de tratamento – nunca tive uma recaída.

Aos poucos, retomei a minha vida. Voltei a estudar e arranjei um namorado, o rapaz do projeto que me incentivou a me tratar. Em 2015, quando acabou meu tratamento, nos casamos e fizemos uma passeata na Cracolândia. Foi lindo! Todos os usuários que nos conheciam dali, puderam ver que é possível sair das drogas e ter uma vida diferente, uma vida saudável. Já faz 6 anos que estou livre das drogas. Hoje eu cuido de dependentes químicos.”

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