A neurociência prevê: estas eleições nos deixarão doentes e emburrecidos

Publicado no UOL

Não importa quem saia do vitorioso nas urnas neste domingo: algum estrago já está feito. A raiva dominou o cenário político nos embates entre adversários, candidatos ou eleitores. E, para a saúde, quando constante e desmedida, ela cobra uma fatura alta. Pra não ficar no bla-bla-blá filosófico, fui atrás do conhecimento de quem já estudou um bocado a respeito de ataques de fúria, o neurocientista R. Douglas Fields, professor da Universidade de Maryland e pesquisador do National Institute of Mental Health, nos Estados Unidos. Além de conhecimento, ele tem experiência: “quando os americanos elegeram Donald Trump, em 2016, foi assim, com os dois lados assumindo um comportamento de tribos em guerra”.

As emoções —e não a razão, como se ilude aquele que se autodenominou “homem sábio” ou “Homo sapiens” — são as principais molas impulsionando nossas atitudes. E, entre elas, a raiva é talvez a que mais embaralha as ideias. A raiva tem pressa e exige que você aja ligeiro, passando por cima dos outros, sim, mas também do seu corpo e de sua inteligência muitas vezes.

No miolo da massa cinzenta, em sua área mais primitiva, uma estrutura chamada amígdala se enche de cólera muito antes de que você tenha qualquer consciência. Viu o número do seu adversário na tela do celular? Pronto. Você mal tinha compreendido se aquilo era um 17 ou um 13 e a amigdala já havia liberado sua fúria. Melhor, havia liberado sinais para a região do hipotálamo, o qual imediatamente ordenou a glândula hipófise, ali mesmo, a mandar mensagens para as glândulas supra-renais, sobre os rins, secretarem doses generosas de hormônios do estresse —o trio adrenalina, noradrenalina e cortisol. O excesso deste último, em especial, pode levar de vez a um caos.

Com a substância abundante, os neurônios se tornam mais permeáveis ao cálcio. E hoje exames modernos mostram que a região pré-frontal, aquela atrás da testa, parece ser a mais vulnerável. A entrada excessiva de cálcio ali aumenta demais a velocidade de troca de informações até que… pifam. Não à toa, diversos estudos mostram que, de todas as emoções, a raiva exacerbada ou moderada, mas constante, é a que mais atrapalha a tomada de decisões.

Tem mais: esse curto-circuito provoca morte neuronal. Os exames de imagem mostram que pessoas com transtornos mentais e que, por causa deles, vivem surtando de fúria, chegam a ter 11% menos neurônios em áreas nobres do cérebro, ligadas à cognição. Sim, com o tempo, a raiva até emburrece. Não sei dizer quantos neurônios perdemos nos últimos meses em cada espiadela nas redes sociais, passada de olhos no noticiário ou assistindo (ou por não estar assistindo) a um debate. Mas alguns neurônios perdemos. Para sempre.

A impressão, muitas vezes, é que falta inteligência na mesma hora em que o sentimento raivoso aflora. As neurociências explicam, de acordo com Fields novamente: a raiva é uma emoção em que, para se defender depressa, o cérebro usa atalhos. É por isso que o indivíduo não elabora direito o raciocínio e apela com frequência para esteriótipos simplistas e infantis. Ou acredita em fake news piamente. Tem mais esta então: quem encara uma discussão com raiva geralmente cai no ridículo.

Nesses atalhos, é como se o sistema nervoso priorizasse o ataque mais do que qualquer reflexão —reflexão que seria a mãe da cautela. Há duas reações curiosas na massa cinzenta: o sujeito age passionalmente, sem gastar um tempo precioso com a consciência de si mesmo. Diga-lhe: “você está gritando”. E ele —provavelmente com a maior sinceridade do mundo — dirá que não. Não mente. Sua massa cinzenta não perdeu tempo com esse registro.

Não espere que o hipocampo guarde motivo para arrependimento. O banho de cortisol também afeta a memória recente, porque impede a formação de novas sinapses ali. Resultado: muitas vezes a pessoa também nega o que disse ao outro durante uma agressão. É que verdadeiramente não se lembra do que disse.

Os efeitos continuam pelo corpo. O coração acelera, a pressão aumenta. A raiva, dia após dia sem trégua, pode fulminar corações. O açúcar tende a subir no sangue também, o que não é nada bom, especialmente para diabéticos.

Já o sistema imune entra em derrocada. Defensoras como as células natural killers morrem em vez de matar intrusos. A diminuição das taxas pode chegar temporariamente a 10%, elevando —após uma temporada de ataques reais e virtuais — o risco de infecções e de uma célula cancerosa escapar incólume para formar um tumor.

Ah, sim, a digestão fica mais lenta, porque o aparelho digestivo se torna menos irrigado. A boca, mais seca. A tireoide também é afetada e o metabolismo como um todo diminuiu —quem nunca se sentiu esgotado depois de algumas horas de mensagens agressivas na timeline do Facebook, me diga?

Para que tudo isso seja acionado, levam-se exatos dois segundos. Há, no entanto, uma área do sistema nervoso, na altura da sobrancelha esquerda, que seria uma espécie de freio, mas ela precisa de alguns segundos a mais para desligar todos os mecanismos bélicos do corpo humano.

O ideal seria fugir de tudo aquilo que dispara esse tipo de reação, diminuindo as horas diante do computador ou acessando o WhatsApp. Mas, se acontecer, antes de reagir, a velha dica do respirar fundo está valendo. O ritmo da respiração por si só comprovadamente acalma os ânimos e dá o tempo necessário para você agir como um Homo sapiens em favor da sua saúde. Até porque, infelizmente, duvido que alguns políticos briguem por nós como andamos brigando por eles para a gente sair do sufoco depois.

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