O nascer da Terra: a história por trás da foto da Apollo 8 que rodou o mundo

Publicado no UOL

É aqui que vivemos: no espaço. Numa bola de gude protegida contra o breu insondável por uma casca de ar e cor: uma frágil e milagrosa bolha de sabão.

 

Em 1968, nós, os terráqueos, já sabíamos mais ou menos disso. Mas esse conceito abstrato só se entranhou em nossas vísceras na véspera de Natal daquele ano. Ao sondar a Lua em busca de locais para futuros pousos, os astronautas da Apollo 8 – Frank Borman, William Anders e James Lovell Jr. – avistaram a Terra, azul e brilhante, surgindo como um rosto cósmico sorridente por trás das montanhas cinzentas da Lua. Essa imagem, transmitida do espaço, arrebatou o mundo: o nascer da Terra.

Anders era o encarregado de fotografar a paisagem lunar. Quando a Terra surgiu, uma câmera estava no automático fotografando as crateras abaixo. Os astronautas, de brincadeira, aventaram pausar o robô e apontar a câmera para o céu. “Ei, não tire da Terra. Não está no programa”, alertou Borman. Mas então, como bons humanos, pegaram as câmeras e dispararam.

O “nascer da Terra” não iniciou o ambientalismo, mas se tornou o ícone do movimento, uma perspectiva que foi um presente, ao fim de um ano longo e sombrio. Para os jovens da época, 1968 foi o melhor e o pior dos tempos. Os Beatles ainda estavam juntos e a TV mostrava “Jornada nas Estrelas”. Você podia se drogar e ir ao cinema assistir “2001: Uma Odisseia no Espaço”. Essas facetas culturais foram produto de uma década em que reinava o otimismo tecnológico: era possível combater comunistas no Sudeste Asiático e a pobreza e a discriminação nos EUA. E, de lambuja, conquistar o espaço.

Mas, lá pelo fim da década, o pessimismo crescia. Não havia paz nem fim à vista no Vietnã, nem nas ruas dos EUA, perturbadas por protestos, assassinatos e tumultos. No espaço, os americanos estavam na lanterna atrás da União Soviética, numa disputa tecnológica pacífica, porém simbólica.
O lançamento do Sputnik, o primeiro satélite a orbitar a Terra, surpreendeu o mundo em 1957. Desde então, os EUA se empenharam em equiparar-se.

O presidente John Kennedy prometeu que os EUA pousariam na Lua antes de 1970. Porém, em janeiro de 1967, um incêndio numa cápsula Apollo matou três astronautas. Como resultado, o projeto foi retardado e o prazo foi prejudicado.

Enquanto isso, os soviéticos já começavam a enviar naves não tripuladas para circundar a Lua. Em abril de 1968, as agências de inteligência alertavam que o inimigo vinha se preparando para enviar um homem ao redor da Lua já no começo do segundo semestre.

No entanto, no fim de 1968, os EUA já estavam par a par e começavam a liderar a corrida para levar humanos à Lua. A meta foi conquistada pela Apollo 11 em 20 de julho do ano seguinte. O evento será amplamente comemorado em 2019 – seu 50º aniversário. Mas uma comemoração adequada começa com a viagem da Apollo 8 em torno da Lua, na véspera de Natal: a primeira mostra de que os EUA pousariam nela antes dos soviéticos.

(Esse evento também está sendo muito celebrado, em livros como “Rocket Men: The Daring Odyssey of Apollo 8 and the Astronauts Who Made Man’s First Journey to the Moon” [em tradução livre: Homens em foguetes: a ousada odisseia da Apollo 8 e os astronautas que fizeram a primeira viagem da humanidade à Lua], de Robert Kurson, e um documentário da Nova,”Apollo’s Daring Mission” [A ousada missão da Apollo], com transmissão nesta quarta-feira pela PBS.)

A missão original da Apollo 8 era levar uma tripulação de três ao redor da Terra num módulo de comando que havia sido reprojetado e reconstruído

após o incêndio de seu predecessor na plataforma de lançamento em 1967. A missão, marcada para dezembro, seria o primeiro voo do poderoso foguete Saturn 5.

Naquela época, os dirigentes da Nasa ainda se dispunham a assumir riscos. Assim, em agosto, o plano foi alterado. Há controvérsias entre historiadores sobre a intenção dessa mudança: alguns dizem que a Nasa realmente temia perder a corrida à Lua naquele ano; outros afirmam que ela pretendia apenas voltar à programação já estabelecida. Em ambos os casos, Borman foi chamado a uma reunião a portas fechadas para saber se estaria disposto a dar a volta à Lua em dezembro – uma oportunidade que nenhum astronauta recusaria, mesmo sabendo que o Saturn 5 nunca havia decolado.

Algumas semanas mais tarde, a missão planejada já sofrera mais modificações: não mais apenas contornar a Lua, mas completar uma órbita em torno dela. Essa seria uma empreitada muitíssimo mais arriscada: se os propulsores do módulo de comando não funcionassem e não tirassem a nave da órbita, os astronautas não voltariam à Terra.

Em setembro, enquanto a Nasa ponderava sobre a missão, os soviéticos seguiam seus esforços lançando o foguete Zond 5, que contornou a Lua e devolveu em perfeita saúde sua tripulação de minhocas e tartarugas. O voo da Apollo 8 só foi aprovado em outubro, após o voo tripulado da Apollo 7 ter testado o novo módulo de comando reconstruído. Em 11 de novembro, a Nasa anunciou publicamente que tentaria chegar à Lua no mês seguinte.

A essa altura, a Zond 6 já estava a caminho da Lua – sem tripulação, mas ninguém sabia quais eram os planos soviéticos posteriores. Segundo Roger Launius, que já foi o principal historiador da Nasa, “o voo da Zond alertou a Nasa de que os russos talvez a superassem outra vez logo antes da Apollo 8, dessa vez com um cosmonauta a bordo”. (A Zond 6 caiu ao retornar à Terra.)

A Apollo 8 foi lançada em 21 de dezembro. No começo do voo, as coisas não funcionaram muito bem. O livro de Kurson narra que, a caminho da Lua, Borman teve um enjoo terrível, e seus companheiros tiveram de se desviar de nacos de vômito e outras excreções. Eles decidiram informar os controladores em terra apenas quando Borman melhorasse, pois temiam que a missão fosse abortada. O mundo inteiro prendeu a respiração quando a nave desapareceu por trás da Lua e as transmissões cessaram: os foguetes que a colocariam na órbita lunar poderiam não funcionar.

Dezessete horas depois, na véspera de Natal, a maior audiência da história, segundo a Nasa, ouviu as primeiras palavras do Gênesis vindo do céu, em meio a ruídos de interferência.

“No princípio, Deus criou o céu e a Terra”, começou Anders.

E Borman completou: “E Deus viu que isso era bom.”

Chorei ao ouvir aquilo. Segundo Kurson, todos os engenheiros no controle em terra estavam chorando. Como já mencionei, foi o fim de um ano longo.

Levou algum tempo para o mundo perceber que o maior legado da Apollo 8 seria uma única foto de nosso lar. Os residentes do único planeta reconhecidamente habitado do universo “conheceriam o lugar pela primeira vez” (para pegar emprestada uma frase de T. S. Eliot). Anos depois, Anders, um dos enviados para examinar a Lua, diria que o que os humanos descobriram foi a Terra.

Um presente de Natal para todas as idades. Infelizmente, não veio com o manual de instruções; ainda estamos trabalhando nele.

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