Os evangélicos ficaram poderosos

Por Ricardo Gondim

De um grupo numericamente pequeno, o movimento evangélico cresceu. David Stoll, sociólogo norte-americano, tratou dessa expansão por toda a América Latina, com interesse especial pelo Brasil. As razões de seu pendor são óbvias: os dois países com maior número de evangélicos são Chile e Brasil. Só que, de acordo com suas pesquisas, o Brasil vem ganhando de goleada do Chile. As igrejas não param de aumentar – 77% entre 1960 e 1970. Logo na década seguinte, entre 1970 e 1980, o rol de membros das igrejas pentecostais, neopentecostais e gospel saltou em 155%. De lá para cá, os números permanecem estratosféricos. Basta trafegar por uma avenida na periferia dos centros urbanos.

Por conta dessa quantidade, o mundo secularizado da Europa e dos Estados Unidos se impressiona. E, localmente, os políticos salivam. O sonho aconteceu. Os crentes chegaram ao primeiro escalão do poder, ganharam acesso à presidência, emplacaram uma agenda moral e deslancharam a tão importante “guerra espiritual contra os ataques do Diabo na família e nos costumes”, e concretizaram os importantes “valores judaico-cristãos”.

Andar pelos corredores do Palácio do Alvorada a convite da primeira dama, realizar culto no auditório da Câmara, impor as mãos sobre a cabeça das autoridades, ou exorcizar demônios de um gabinete, podem parecer ambições jecas. Não são. Elas revelam a ponta de um iceberg teológico e ideológico, consolidado há anos entre os evangélicos. Escolas dominicais, cursos de teologia à distância, seminários e conferências martelaram sem cessar alguns fundamentos: todos estão condenados ao inferno e a igreja tem a mensagem que salva; cultura, literatura, música, arte em geral são expressões de um mundo caído; só os verdadeiramente salvos podem ajudar o país a encontrar a resposta para seus problemas; Israel afere quando Jesus voltará para arrebatar até as nuvens os que são dele; o planeta em ruínas é sinal de que o Apocalipse está às portas.

Essas ideias estão por baixo da agenda de conquista do poder econômico e político. Os líderes sequer levam em conta que tal agenda foi, historicamente, um desastre. A sedução de colocar alguém que, mesmo sem qualquer afinidade com o cerne da mensagem do Evangelho, consiga implementar as aspirações do movimento, foi suficiente para cegar sobre as ameaças do poder.

Sendo assim, o desastre que espreita o movimento guarda o potencial de ser enorme; ter acesso ao gabinete do presidente é uma bênção, tão inimaginável para quem já foi da periferia do sistema, que os alarmes são desconsiderados.

Por isso, a multiplicação numérica dos crentes já se mostra problemática. Com esse noivado de crentes e políticos, algumas das lógicas que faziam todo sentido dentro do gueto vieram a público. Muitos se espantaram com a “tosquice” dos argumentos sobre sexualidade, marxismo cultural e ameaça comunista. Poucos sabiam que esse nível de paranoia – “o diabo usa o sexo para acabar com a família” – vinha de longa data. A demagogia moralista que alimenta a “cruzada da luz contra as trevas” era comum nas igrejas.

Os evangélicos abocanharam enormes fatias demográficas, mas cavaram ainda mais fundo o fosso que os separa dos formadores de opinião. Ao evidenciarem conteúdos rasos e moralistas, alienaram-se dos meios acadêmicos e de jornalistas. Os evangélicos ficaram poderosos financeiramente, sem nunca abandonarem as âncoras que só permitem retroalimentação de própria produção. Essa é a lógica do fundamentalismo: “ninguém mais tem a verdade, que nos foi confiada por Deus, portanto, temos o que dizer e não precisamos ouvir ninguém de fora do nosso contexto”. Resultado: uma vez conhecidas as ideias que fundamentam o movimento evangélico, só resta constrangimento.

Quem, fora da bolha gospel, leva em conta a produção cultural dos crentes? Quem compra seus livros? Quantos pastores conseguem pensar sem a camisa de força institucional? Nos últimos meses de 2018 ficou patente até entre os próprios crentes: multidões se contentam em repetir um discurso de dominação. O que se viu no país foram pastores (bem como pessoas comuns) inebriadas com a exuberância de um discurso violento, inclemente e distante do espírito do Sermão do Monte.

A expansão numérica conquistou o poder político, mas o desastre virá e será iminente. Sem alcançar os poetas, sem ressonância entre jornalistas, sem respeito entre acadêmicos e sem o respeito de jovens, evangélicos de vários matizes continuarão como protagonistas em programas de humor nas redes sociais; e acabarão corroborando com uma generalização ruim: todos os pastores são manipuladores e as igrejas não passam de espaços para extorquir dinheiro.

O filósofo dinamarquês Soren Kierkgaard escreveu uma parábola que pode ajudar. Ele conta sobre um grande circo que acampou nas redondezas de uma cidade. A série de espetáculos começaria naquele dia. Na tarde da estreia, no momento em que os malabaristas, trapezistas e mágicos se preparavam para o ensaio final, começou um incêndio devastador. O palhaço já fantasiado, pintado e preparado para o show, precisou sair correndo rumo à cidade em busca de socorro.

Desesperado, o pobre homem gritava pelas ruas e praças. – Socorro, socorro, o circo está em chamas. Quanto mais subia o tom de voz e quanto mais corria de um lado para o outro, mais as pessoas se divertiam. Todos achavam que era um excelente ator. Ele insistia de joelhos: – Por Deus, por Deus, ajudem, o circo está em chamas. Os meninos gargalhavam. Os mais velhos faziam choça: – Quão extraordinário, diziam, um ator que sabe chorar para fazer graça. O circo acabou consumido pelo fogo.

Moral da história: vestido de palhaço, ele fazia rir, mas não conseguia ir além. Assim, quando religião perde credibilidade ética e deixa de inspirar, fica sem autoridade para dizer nada. Não, não foi ataque do Diabo que colou nos pastores a fama de picaretas, aproveitadores do sofrimento do povo. Basta ligar o rádio em qualquer programa religioso, ou sentar e assistir ao culto numa igreja neopentecostal para saber. No rescaldo do grande incêndio que ameaça o Brasil, o grito dos evangélicos não será ouvido.

Resta esperar que pequenos segmentos de resistência se organizem entre igrejas que ainda mantêm compromisso com o evangelho. E que, da periferia do sistema, surjam novas lideranças que não desejam fatias do poder, apenas oportunidade de servir.

Soli Deo Gloria

Comentários

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2 Comentários

  1. Claudio disse:

    Muito boa a reflexão do Pr Gondin.
    Os grupos neopentecostais incharam-se por um lado por conta de alguns pregadores tradicionais que abandonaram sua característica pregação bíblica fervorosa seduzidos pela academia. Isto é, alguns pregam para impressionar seus ex professores de Homilética e Exegese, ex-colegas de seminário e tentam agradar intelectuais seculares. Por outro lado, os pentecostais históricos se envolvem em disputas que amarguram a vida de muita gente boa de ambos os lados. É possível que muitas amizades cultivadas por anos estejam em agonia. Só Deus conhece as aflições de uma amizade curtida no óleo e no fogo quando se desfaz .
    E o público, pela mídia, a tudo assiste. E ri e zomba. Não estamos bem na foto. Nem diante do Senhor, nem da sociedade.
    O corpo está doente. Necessitamos fazer uma “mea culpa”. Temos que começar tudo de novo. Tradicionais e pentecostais históricos devem selar um compromisso diante de Deus de recuperar nosso papel espiritual na sociedade.
    Quem sabe não se aponte alguém de credibilidade que, pela graça do Senhor, reúna alguns pastores. discretos, avessos a publicidade vaidosa. Não outra “associação evangelica”, por favor. Mas, sim, um conselho informal de homens de Deus das denominações evangélicas e comecem a orar juntos, se humilhar, a se perdoar, a pedir perdão por nossas faltas, conversar entre si e com Deus. Não precisa serem da periferia. Basta que inclua-se a periferia.
    Quem sabe ainda há esperança…

  2. Correção do meu texto:
    *um* “mea culpa”
    Clarificando:
    …periferia do sistema.
    Obrigado

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