Jesus e o movimento evangélico

Por Ricardo Gondim

Sou pastor de uma comunidade cristã. Como pertenci ao movimento evangélico, há anos escrevo sobre minhas percepções do que vivi e do que entendo sobre ele. Em cada texto, recebo, obviamente, comentários favoráveis e críticos. Um dos mais frequentes é: “Ricardo, você não pode generalizar. Nem todos os evangélicos são assim”.

Mantenho a convicção de que, se alguém discordar de certas doutrinas do movimento evangélico, duas consequências virão inevitáveis: primeiro, professores de seminários, pastores e blogueiros rotularão tal pessoa como apóstata ou herege; segundo, a própria pessoa se sentirá desconfortável em se identificar com pregações, músicas, textos e agenda expansionista do movimento; e naturalmente o abandonará.

Portanto, não tenho medo de cometer o pecado da generalização: quem continua no movimento evangélico recebe sua chancela, ou subscreve à sua teologia. As exceções ou se vêm fora ou foram expulsas.

Pergunto aos evangélicos que continuam no movimento se atinam sobre os processos que o levaram a se tornar o que é hoje. Convido-os a pensar se entendem o “como” da incoerência entre subscrever ao conteúdo do Sermão do Monte e apoiar um político que advoga a violência. Procuro entender os motivos que deram à defesa dos “valores da família” tamanha proeminência. Por que políticos e caciques evangélicos – alguns com acusação de crimes que vão do tráfico internacional de armas a homicídios – são tão criteriosos com a defesa do que é “puro”?

Por que certas cúpulas denominacionais não mostram constrangimento em pregar sobre a vida sexual dos adolescentes mesmo sendo responsabilizadas por falirem suas editoras? Como não tremem um músculo do rosto quando apontam o dedo para a corrupção do Brasil e, entre eles, uns acusam os outros de praticarem uma política eclesiástica suja? (Não posso entrar em detalhes, mas sei: o jogo político nos bastidores do movimento evangélico é bruto).

A pergunta insiste em não sumir: como isso veio a acontecer?

Recorro a Jesus. Em seu enfrentamento com os fariseus, há vários indicadores que ajudam a perceber como a decadência daquela seita judaica aconteceu. Elenco três:

  1. O farisaísmo preferiu focar as lentes nas minúcias, nos detalhes da prática religiosa, e deu menor importância à realidade macro, maior.

“Ai de vocês, mestres da lei e fariseus, hipócritas! Vocês dão o dízimo da hortelã, do endro e do cominho, mas têm negligenciado os preceitos mais importantes da lei: a justiça, a misericórdia e a fidelidade… Guias cegos! Vocês coam um mosquito e engolem um camelo”. [Mateus 23:23,24].

Os fariseus procuravam especificar como dar o dízimo do tempero na hora do jantar, mas negligenciavam os preceitos mais importantes da prática religiosa: a misericórdia e a fidelidade. O movimento evangélico, por se concentrar historicamente na salvação pessoal, prioriza os pecados individuais. Importa salvar indivíduos; e para redimi-los é necessário detalhar seus pecados. O movimento evangélico entende que os pecados pessoais condenam ao inferno eterno depois da morte; já os pecados estruturais e sociais, por condenarem ao inferno passageiro, ganham menos relevância.

Um debate ainda em aberto, portanto insolúvel, entre evangélicos (embora defendido por teólogos da Missão Integral), consiste em responder se ação social tem o mesmo peso que evangelização.

2. O farisaísmo falhou em levar as pessoas a pensarem conceitualmente (talvez não tenha se importado em fazer isso).

Explico melhor. Processos de ensino começam com o recurso de exemplos concretos. É mais fácil começar a ensinar a uma criança a somar mostrando os dedos. Ela associa melhor o “a” se vier associado a uma abelha; e o “v”, se mostrar uma foto da vovó. Acontece que esse primeiro estágio precisa ser temporário. Há de chegar o dia em que um adulto soma 3 + 3 sem a necessidade de visualizar concretamente os números com dedos, feijões ou varetas.

Jesus conversou com Nicodemos, um líder famoso do farisaísmo. O diálogo, entre várias lições, serviu para expor o processo de infantilização da pedagogia farisaica. Jesus afirmou a um senhor que era necessário ele “nascer de novo” para perceber o reino de Deus. Nicodemos, viciado em pensamentos concretos, replicou: “quer dizer que vou ter que voltar ao ventre da minha mãe, mesmo sendo grande”? Jesus provocava pensamentos abstratos, conceituais, mas o líder do clero não alcançava suas ponderações.

O movimento evangélico se contenta em repetir chavões, mas há um porquê: ele tem dificuldades em abstrair. Condenar “música do mundo”, “mamadeira de piroca” ou “o perigo da imoralidade sexual na novela das nove” ficou mais acessível na pedagogia de um movimento que convive com lógicas concretas. Pensar sobre a sutileza do pecado estrutural que perpetua a miséria, sobre o racismo, ou sobre a misoginia, fica bem mais complicado. As pessoas religiosas se mostram pouco interessadas por essas dimensões de pecado, não por serem alienadas politicamente; ela são educadas com uma teologia que se contenta com raciocínios concretos.

3. Ao contrário do que se pensa, a enorme maioria dos fariseus era “gente de bem”.

A hipocrisia religiosa, segundo a denúncia de Jesus, vai no caminho inverso. Antes de denunciar os religiosos como “santos e puros no espaço sagrado” e falsos na esfera privada, ele mostrou o contrário: os bons pais, os maridos afetuosos e os vovôs brincalhões, uma vez engravatados e investidos de títulos eclesiásticos, se tornam malvados, ladinos, estratégicos. Jesus experimentou na própria pele essa realidade. O mesmo fariseu que o recebeu em um banquete, fazia parte de um sistema malvado. O poder corrompe, mas o poder religioso tem força de deformar por completo.

No evangelho de Marcos, capítulo 3, antes que a história de Jesus se desdobrasse e se mostrasse uma ameaça ao clero, já havia líderes conspirando para matá-lo. “Então os fariseus saíram e começaram a conspirar com os herodianos contra Jesus, sobre como poderiam matá-lo”.

O texto chega a ser irônico. “Cidadãos de bem”, avôs dedicados, haviam se trancado em salas mal iluminadas e acertavam como assassinar uma pessoa pelo simples fato dela ter devolvido a um homem os movimentos do braço e assim, a capacidade de trabalhar.

Conheci a vida pessoal de vários líderes evangélicos, e posso afirmar: muitos são bons pais, maridos cuidadosos e avós carinhosos. O problema parece vir do exercício do poder eclesiástico e menos do convívio familiar ou privado dessas pessoas.

Em tais encontros, Jesus pode nos ajudar a entender os motivos que levam inúmeros líderes evangélicos a apoiarem uma política raivosa, excludente e elitista. Também ajudam a ver que, se as opções ideológicas parecem ingênuas e em um primeiro momento, simplórias, elas estão perpassadas por racionalidades complexas.

Jesus enfrentou essa complexidade no pensar e nas ações dos religiosos e devido a isso foi assassinado. Importa conscientizar quem pretende ser realmente evangélico sobre tais ameaças, pois os dias são igualmente difíceis e maus.

Soli Deo Gloria

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