Fé e justiça social

Foto: Cristiano Mariz

Por Ricardo Gondim

Justiça social significa que a riqueza produzida em uma sociedade será distribuída entre os que a produziram. Implica em admitir que algumas dimensões da vida não são benefícios, mas direitos: alimentação, saúde, moradia, escolaridade, mobilidade (ir e vir). Entende que parcelas da sociedade carecem de cuidado especial: os surdos, os cegos, os idosos, os órfãos, os que precisam de ajuda para se locomoverem.

O bem estar de uma sociedade será sempre considerado um ônus pelos que detém o poder; já que esses buscarão proteger seus privilégios. A história mostra que eles tendem a considerar seus privilégios mais importantes que os direitos dos demais.

Como o Êxodo se constituiu no evento principal da história, a libertação do trabalho escravo, a saída do império opressor e a busca por uma terra em que todos, igualmente, encontrariam a possibilidade de serem felizes, serviu de inspiração para o surgimento de profetas na história de Israel.

Como Israel mantinha um governo teocrático, Javé, o Deus tribal e patrono da clã descendente de Abraão, se valeria do “seu povo” para revelar ao mundo os preceitos da Torá – e com ela, o jeito certo para todas as demais nações se organizarem.

Assim, os profetas se tornaram importantes como consciência dos reis. Numa perspectiva positiva do sistema teocrático, mesmo com poderes plenos, os reis precisavam se sujeitar, e responder a uma autoridade superior. Ressalte-se: a teocracia tinha problemas enormes.

Os relatos bíblicos descrevem os profetas como porta-vozes do divino, principalmente em questões de justiça social; já que insistiam em tornar justiça a pedra angular da organização social de Israel.

Portanto, na Bíblia hebraica os profetas eram personagens centrais na construção da sociedade. Como se apresentavam como defensores dos padrões divinos, não desempenhavam papel ilustrativo ou periférico. O futuro do povo dependia do sucesso de sua atuação.

Outro detalhe: Isaías, Jeremias, Oseias, Amós e outros não constam como personagens religiosos. Muitos, sem antecedentes nobres, eram cidadãos comuns, apenas preocupados profundamente com as dimensões civis do povo.

Muitos dos profetas não tinham qualquer simpatia com o clero, e vários se mostraram antagônicos à influência da tradição religiosa na corte.

Oseias chega a afirmar que a decadência moral e ética em Israel acontecia como resultado do aumento de sacerdotes: “Quanto mais aumentaram os sacerdotes, mais eles pecaram contra mim” (4:7).

Jeremias negou que os sacrifícios de animais, com todo o sistema compensatório de derramar sangue, tivesse sido uma exigência de Javé: “Assim diz o Senhor dos Exércitos, o Deus de Israel: Juntem os seus holocaustos aos outros sacrifícios e comam a carne vocês mesmos! Quando tirei do Egito os seus antepassados, nada lhes falei nem lhes ordenei quanto a holocaustos e sacrifícios”(7:21,22).

Amós foi mais longe. Em sua denúncia, os rituais, onde animais pretensamente expiavam a culpa do povo, não passavam de práticas pagãs, copiadas dos povos vizinhos. “Foi a mim que vocês trouxeram sacrifícios e ofertas durante os quarenta anos no deserto, ó nação de Israel? Não! Vocês carregaram o seu rei Sicute, e Quium, imagens dos deuses astrais, que vocês fizeram para si mesmos”(5:25,26).

Em outras palavras, para Amós, todo aquele sistema sanguinário, com a morte de pombas, ovelhas, bodes e bois, não passava de idolatria.

Daí eles insistirem, quase com unanimidade: ao contrário dos ídolos, a única forma de agradar a Deus consistia em promover a justiça e defender os mais vulneráveis – representados como pobres e viúvas. “Pois desejo misericórdia, não sacrifícios, e conhecimento de Deus em vez de holocaustos” (Oséias 6:6).

A profecia de Isaías veio com palavras duríssimas. “Para que me oferecem tantos sacrifícios?, pergunta o Senhor. Para mim, chega de holocaustos de carneiros e da gordura de novilhos gordos; não tenho nenhum prazer no sangue de novilhos, de cordeiros e de bodes!”(Isaías 1:11).

Assim, mesmo sabendo que se posicionavam contra aspectos mais populares da religião, insistiam: Deus não ficará contente com mais religião, orações infindáveis e cultos solenes.

Só é possível agradar a Deus, quando se invertem os sistemas geradores de opressão e injustiça, quando se avança contra os privilégios dos muito ricos, quando passam a valer os direitos de quem sofre no ostracismo.

“Com que eu poderia comparecer diante do Senhor e curvar-me perante o Deus exaltado? Deveria oferecer holocaustos de bezerros de um ano? Ficaria o Senhor satisfeito com milhares de carneiros, com dez mil ribeiros de azeite? Devo oferecer o meu filho mais velho por causa da minha transgressão, o fruto do meu corpo por causa do meu próprio pecado? Ele mostrou a você, ó homem, o que é bom e o que o Senhor exige: Pratique a justiça, ame a fidelidade e ande humildemente com o seu Deus”(Miquéias 6:6-8).

Infelizmente, enormes segmentos cristãos continuam a cometer erros semelhantes aos de Israel. Em muitos círculos, mesmo higienizando sistemas sacrificiais, perduram os requisitos, as cerimônias e as “campanhas” que buscam garantir o favor de Deus.

Acontece que Jesus não validou a religiosidade sacrificial de Israel; por isso, repetiu a fala do profeta: “Vão aprender o que significa isto: ‘Desejo misericórdia, não sacrifícios”(Mateus 9:13).

Décadas depois, a epístola de Tiago deixa claro que o ensino de Jesus permanecia entre os cristãos: “A religião que Deus, o nosso Pai aceita como pura e imaculada é esta: cuidar dos órfãos e das viúvas em suas dificuldades e não se deixar corromper pelo mundo”(Tiago 1:27).

Buscar justiça social deve se constituir, portanto, a prioridade central da espiritualidade cristã: “Em primeiro lugar, antes de querermos pessoalmente aprender a alcançar o favor de Deus, devemos buscar o reino de Deus e sua justiça” (Mateus 6.33).

Soli Deo Gloria

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