João Cândido, evangélico contra as injustiças

Publicado na Carta Capital

Ainda respiramos o clima da Páscoa cristã, que recorda a passagem de Jesus da morte para a vida, o cerne da mensagem do Evangelho, que significa “boa notícia”. Contrasta com esta mensagem religiosa a enxurrada de más notícias que nos chegaram justamente nestes dias.

Soubemos da morte do catador de recicláveis Luciano Macedo, fuzilado pelo Exército no Rio de Janeiro. Ele foi sepultado em vala comum sem qualquer atenção dos responsáveis por sua morte. Tomamos conhecimento também que o jovem Victor Henrique morreu no quintal da sua casa em Santa Catarina, executado por policiais militares que “confundiram” a pistola de água que ele usava para acertar latinhas com uma arma de verdade.

Assistimos ainda às imagens de agentes da Guarda Municipal de Ouro Preto destruindo um tapete de serragens que homenageava a ex-vereadora do Rio de Janeiro Marielle Franco.

Ouvimos a ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves, dizer, em audiência pública na Câmara dos Deputados: “A mulher, sim, no casamento é submissa ao homem e isso é uma questão de fé. Dentro da doutrina cristã nós entendemos que o homem é o líder do casamento”.

Tomamos consciência dos efeitos do Decreto 9759, do governo federal, que extinguiu conselhos, comissões ou colegiados federais que representam espaço importante de participação da sociedade civil em ações governamentais.

E assistimos às imagens dos atentados no Sri Lanka, que atingiram igrejas, durante missas de celebração da Páscoa, hotéis e um local turístico, e deixou mais de 300 mortos, num avanço do extremismo religioso de motivação política.

Entre esta enxurrada de más notícias, aconteceu a inauguração da Biblioteca em homenagem a João Cândido, em São João do Meriti (RJ). Um fato que vai na contramão do desalento.

Conhecido como Almirante Negro, João Cândido Felisberto, eternizado na canção-homenagem de João Bosco e Aldir Blanc “Mestre-Sala dos Mares”, foi um dos líderes da Revolução da Chibata, de 1910.

Filho de ex-escravos, aos 15 anos ingressou na Marinha de Guerra do Brasil. Viajou o Brasil e o mundo e ganhou ampla experiência e respeito. Não se conformava, porém, com os maus tratos que os oficiais da Marinha, brancos, impunham aos marinheiros, todos negros e pobres, tratados como seus cativos. Revoltava-se em especial com a chibata como principal instrumento de disciplina. Punições que em nada diferiam do tratamento dado a escravos nas fazendas coloniais, ainda que estivessem em tempo posterior à Lei Áurea e o Decreto n° 3 da República.

O documentário “Cem anos sem chibata”mostra como, liderada pelo Almirante Negro, a tripulação do navio Minas Gerais se revoltou contra o comandante que ordenou a aplicação de 250 chibatadas em um dos marujos, com o apoio das tripulações de outros três navios. A gota d’água de uma ação que se costurava.

Assista ao documentário “Cem anos sem chibata”:

A principal conquista da revolução foi o fim da chibata na Marinha. João Cândido foi, porém, preso e expulso da corporação, acusado de ter insuflado a rebeldia. Em 1912 foi libertado, porém só recebeu a anistia no governo Lula, em 2008, passados 39 anos de seu falecimento. Não havia um só registro na Marinha do nome de João Cândido. Sua memória foi apagada da corporação. A voz de João Cândido no documentário, relatando isto e o fato de os marinheiros terem alcançado a vitória, pois os oficiais não conseguiam dominar os navios como eles, é emocionante.

Uma coisa que nem todo mundo sabe é que João Cândido era evangélico, da Igreja Metodista em São João de Meriti. A Igreja Metodista tem, em suas bases inglesas do século XVIII, a forte oposição à escravidão, que declaravam ser “a maior vileza sobre a face da terra”. Neto de escravos e conhecedor da vileza da escravidão, João Cândido, em sua luta por justiça e igualdade, deu continuidade à herança da Igreja Metodista.

A inauguração da Biblioteca, primeira etapa da construção do Museu Marinheiro João Cândido, traz um sinal de esperança em meio a tanto desalento.

As narrativas da Páscoa contam como os seguidores de Jesus estavam escondidos, com medo de também serem presos, torturados e condenados à morte, como seu líder. Estas mesmas narrativas contam como o Ressuscitado tinha que repetir a todo tempo “não tenham medo”. E o reconhecimento dele se deu justamente pela memória de suas palavras, e, principalmente de suas ações que envolviam amar incondicionalmente o outro igual e repartir.

Páscoa é isto: a memória da passagem de Jesus, da morte para a vida, do sofrimento causado por injustiça e crueldade para a alegria do corpo restaurado, da companhia dos amigos, da misericórdia e da paz acima da arrogância e da intolerância.

A experiência de São João do Meriti parece pequena diante de tão grandes desafios, mas aponta um caminho: a memória. O logotipo do museu é criado com a participação de estudantes das escolas públicas da cidade. A semente plantada por João Cândido há quase 120 anos permanece viva e é a partir da memória que ele revive, bem como sua causa por justiça e igualdade.

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