Unfollow do bem: deixar de seguir pessoas no Instagram pode ser bom

Publicado no UOL

Abre o Instagram, dois corações, olha os stories, vê o que as pessoas estão fazendo: essa rotina já incorporada à vida pode não ser inofensiva como parece.

Na verdade, pesquisas já apontam que o uso de redes sociais pode ser muito nocivo e trazer problemas para a saúde mental. Com essa percepção, já tem gente reavaliando qual tipo de conteúdo está consumindo e deixando de seguir aqueles perfis, que de alguma maneira, causam desconforto na hora de rolar o feed.

A blogueira Amanda Britto, do blog Starving, fez uma curadoria no que ela mesma via. A conta de seu blog no Instagram tem mais de 70 mil seguidores e, lá, ela levantou a discussão: consumir o conteúdo de quem você escolheu seguir faz com que você se sinta bem ou mal em relação ao seu corpo, sua vida, suas possibilidades?

“É um movimento que vejo acontecendo. Primeiro, a gente teve um boom de blogs muito grande por 2009, 2010. Depois, com o Instagram e o Snapchat, esse conteúdo foi migrado para um consumo mais dinâmico. Os blogs de lifestyle começaram a bombar muito, numa coisa bem aspiracional, daquela menina que viaja, com um feed perfeito. Durante uns anos, isso reinou no Instagram. Acho que agora estamos em um movimento oposto, e também falamos mais de feminismo, racismo, homofobia. Tudo isso impacta a maneira como a gente consume conteúdo”, opina Amanda, que também é professora de marketing digital, no Instituto Europeu de Design.

“Com o passar do tempo, fui vendo perfis que antes eu gostava e que agora já não me agregam. No Instagram, quanto mais a gente vê um determinado tipo de conteúdo, mais o algoritmo entende que aquilo é o que nos interessa e mais nos sugere aquilo, então você fica em um ciclo vicioso. Então, eu fiz um detox, tanto na minha conta pessoal quanto na do blog, de perfis que não têm mais a ver. A partir disso, assuntos pelos quais eu realmente me interesso nesse momento começaram a aparecer mais.”, conta ela.

Curtida tóxica
Em uma pesquisa relacionando a saúde mental dos jovens ao uso das redes sociais, o Instagram foi eleito como a mais tóxica.

No texto, Shirley Cramer, uma das responsáveis, diz: “As mídias sociais foram descritas como mais viciantes do que cigarro e álcool, e são tão intrínsecas à vida dos jovens que não dá para ignorá-las quando falamos de problemas mentais. Eles relataram que a mídia tem, ao mesmo tempo, um impacto positivo e negativo. É interessante perceber que o Instagram e o Snapchat são considerados os piores para o psicológico — ambas plataformas muito focadas na imagem, elas parecem ter o poder de levar a sentimentos de inadequação e ansiedade”. O estudo é da organização Royal Society for Public Health, do Reino Unido.

Apesar de pior para os adolescentes, os adultos também sofrem com os malefícios do uso.

“No mundo adulto, há muita influência. Pense em uma pessoa, meia hora por dia, vendo só o recorte idealizado da vida de outras pessoas. Suscita comparações, muitas vezes levando ao sentimento de inferioridade. Imagine assistir a vídeos e imagens daquilo que você não tem ou não alcançou e que é colocado como algo que deveria ter. O efeito é maléfico com certeza”, esclarece Adriana Marques, psicóloga e professora de psicologia da faculdade Celso Lisboa.

Deseje o que é positivo e possível
A especialista em marketing Karina Cunha, de 28 anos, percebeu que o uso que ela fazia do Instagram acabava fazendo com que se sentisse pior com quem ela é e com a própria vida. Daí, veio a mudança.

“Eu fui percebendo que a minha relação com as redes sociais variava muito de acordo com o momento de vida. Então, se eu estava em um pós-término, me sentindo triste, começava a seguir blogueiras padrão e, aquele movimento, em vez de me ajudar, só fazia eu me sentir pior com meu corpo. Se vivia um momento profissional ruim, começava a sonhar mais com outra vida, com viajar e olhava muito influenciadoras de viagem. Mas era uma realidade que eu não poderia viver naquele momento”, conta.

Assim, ela foi procurando um conteúdo diferente. “Busquei outros perfis de pessoas, que produzissem conteúdo de fato relevantes para mim, para quem eu sou agora, para minha vida atual e para o que é alcançável para mim nos próximos anos”, relata. Segundo ela, o impacto vem sendo positivo para a autoestima.

Mas, por que o Instagram pode ser tão ruim?
De acordo com a psicóloga Adriana Marques, o Instagram não é um vilão e sim um sintoma dos tempos.

“Nesta sociedade que valoriza tanto a imagem em detrimento do ser, o Instagram é onde esse mal estar aparece. Então, se a minha autoestima está baseada naquilo que eu preciso demonstrar para o outro que eu tenho, o que aparentemente sou, essa imagem é muito fragilizada diante de pessoas que demonstram ter mais do que eu.”

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