Nossa memória é tão confiável quanto pensamos?

Publicado no UOL

“Confie desconfiando”: o conselho popular de manter o pé atrás e duvidar de tudo e de todos é antigo, e muito usado para quem busca evitar decepções com o outro. Em tempos de excesso de informação e da proliferação das fake news, essa máxima de questionar cada vez ganha mais força. Mas como lidar com o nosso próprio banco de dados? Você acredita em todo conteúdo que tem armazenado?

Pode parecer um pouco chocante, mas nossas memórias estão longe de ser um arquivo 100% fiel às experiências que vivenciamos. Ao contrário, elas são bastante mutáveis, em um processo biológico que não é exclusivo dos seres humanos. É possível alterar o que lembramos de forma que o conteúdo seja completamente desfigurado.

Mas normalmente nossa mente costuma respeitar minimamente os “fatos reais”. A questão é que durante esse fenômeno de modificação chamado de reconsolidação da memória, é muito provável que modifiquemos as memórias para que, dentro da nossa perspectiva, sejma mais oportunas à narrativa que desejamos construir de nós mesmos.

São vários fatores que vão influenciar na configuração e reconfiguração das nossas lembranças. Depende desde como a memória foi formada até valores pessoais, que variam conforme a maneira de perceber e experienciar o mundo.

Como funciona a memória
Os fatos que lembramos vão se formar e consolidar a partir das relações estabelecidas no nosso dia a dia, seja com pessoas, lugares, coisas, ou até com os aprendizados de atividades motoras.

Ocorrem a partir de fenômenos que podem ser descritos como reverberação (quanto mais uma informação de nossa memória é evocada e repetida, maior a chance de fixação) e associação (o conjunto de informações que se relacionam a determinada memória, por referências anteriores ou experiências passadas).

De forma bastante abrangente, é possível fragmentar em quatro fases:

1) Armazenamento: quando uma informação nova é registrada. Acontece após um período maior de processamento pelo hipocampo, a partir de novas conexões ou por mudanças nas sinapses já existentes.
2) Codificação: atribuição de significado ao que se vê, normalmente por aproximação. Quando há uma representação cortical pré-existente de memórias antigas relacionadas com o que está sendo adquirido. O tempo de processamento no hipocampo é mais curto.
3) Recuperação: quando ocorre o acesso aos registros em busca de informação.
4) Reconsolidação: fase instável, quando pode haver modificação, manipulação ou apagamento dos registros.

Ao acessar uma lembrança, essa memória pode entrar num estado de alta plasticidade, onde as conexões entre os neurônios que representam essas informações no cérebro são desestabilizadas. Nesse momento, é possível modular a força do registro (enfraquecer ou fortalecer) ou mesmo inserir novos dados. Esse período de maleabilidade dura algumas horas após as evocações, e em seguida, a memória é novamente estabilizada e retorna para um estado mais fixo (e protegido de alteração).

As modificações das memórias
Nosso sistema de memória guarda uma representação daquilo que realmente aconteceu. É uma extração das informações mais importantes, que pode estar sujeita a erros e imprecisões. O armazenamento dos episódios de nossas vidas depende, inicialmente, de uma estrutura do lobo temporal medial chamada hipocampo.

Com o tempo, outras estruturas corticais são recrutadas para a manutenção dessas memórias. Nessa transição, os detalhes das memórias vão se perdendo, e o conteúdo torna-se mais genérico. Quanto mais sólida for a memória, mais difícil de ser alterada.

As lembranças que sofreram um processo de “erosão” oferecem espaços vazios que podem ser mais facilmente preenchidos por “contaminantes”. Isso varia conforme condições físicas e emocionais durante a formação e acesso a esses registros, seja o cansaço após uma noite mal dormida, dores ou limitações decorrentes de doenças, irritabilidade por causa de atritos pessoais, elevado grau de tensão ou ansiedade, uso de substâncias tóxicas, má alimentação, entre outros.

Portanto, vai depender de como a memória foi formada e a incidência de agentes interferentes capazes de alterar o conteúdo durante a janela da reconsolidação da memória. O trajeto de memorização de cada um é muito individual e particular, e vai sendo traçado e permeado por contexto social, referências culturais e até estado de humor.

Outras circunstâncias podem facilitar a alteração da memória, como a depressão, quando sistematicamente há um viés de favorecimento de experiências ruins, e o estresse pós-traumático, quando as lembranças relacionadas são pouco elaboradas devido sua carga negativa, e por isso, mais fáceis de indução.

O nosso lado da história
Ao considerar que a principal função biológica da memória é formar um banco de dados para otimizar a tomada de decisões, fica mais simples de entender que os registros são atualizados (modificados) para continuarem sendo úteis. Assim como nós, nossas memórias se adaptam a novas situações para fazer com que nossas experiências prévias continuem sendo aproveitáveis, mesmo que a situação não seja idêntica.

Especialistas destacam que nessa perspectiva o importante é manter uma interpretação crítica tanto das informações externas que recebemos, quanto das convicções internas que estabelecemos. Ao sermos confrontados, é muito comum achar que a nossa versão é a mais fidedigna. Isso porque a nossa memória é, de certo modo, um processo de “síntese criativa” que depende de nosso aparato de percepção e dos nossos próprios valores.

Isso está ligado também com o traço cognitivo chamado de “viés de confirmação”, que é a tendência de buscar lembranças que estão de acordo com as nossas crenças e a ignorar informações contrárias.

Quando a vontade de crer não é equilibrada por um ímpeto de duvidar, nós corremos o sério risco de achar que as nossas posições e narrativas são as únicas verdadeiras. Dessa forma, as falsas informações encontram terreno fértil para se propagar e reescrever memórias de fatos e eventos de forma equivocada.

Fontes: Arthur Oscar Schelp, neurologista da Faculdade de Medicina da Unesp (Universidade Estadual Paulista) de Botucatu; Lucas De Oliveira Alvares, professor do Laboratório de Neurobiologia da Memória da UFRS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul); Paulo Bertolucci, professor titular livre-docente do Departamento de Neurologia e Neurocirurgia da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo); Tarso Adoni, neurologista do Hospital Alemão Oswaldo Cruz.

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