Documentário ou ficção? As duas facetas do “baseado em fatos reais”

Publicado no El País

Durante décadas, muitos filmes fizeram a audiência tremer quando aparecia a epígrafe “baseado em fatos reais”. Hoje, porém, o título chamativo serve como isca: O Crime de Alcàcer, Chernobyl, American Crime Story … A chegada do primeiro ser humano à Lua e o atentado na ilha norueguesa de Utoya em 2011 têm seu reflexo nas salas de cinema na Espanha, onde serão lançados quase ao mesmo tempo. Claro, em duas aproximações de seu objeto de estudo completamente opostas: se Apolo 11, de Todd Douglas Miller, reconstrói a mítica viagem de Armstrong, Aldrin e Collins com imagens inéditas e restauradas do arquivo da NASA, a agência aeroespacial norte-americana, Utoya, 22 de Julho, de Erik Poppe, recria o atentado ao acampamento juvenil do Partido Trabalhista norueguês em um plano sequência que mostra aquela matança em tempo real e com a câmera grudada em uma vítima fictícia.

Desse modo, volta à tona um debate que sacode o cinema desde seus primórdios, até mesmo desde que nos anos 20 do século XX, o soviético Dziga Vertov criou a teoria do cinema-olho para capturar as imagens com “objetividade integral”. Quando se trata de abordar um evento real, o que é mais eficaz para chegar ao público, o documentário ou a ficção? E para a verossimilhança? Qualquer espectador que entre em uma plataforma digital se depara dia após dia com uma avalanche de conteúdos audiovisuais relacionados a eventos históricos, principalmente assassinatos e catástrofes.

Os últimos três filmes de Poppe foram inspirados em acontecimentos reais. “Eu me interesso em retratar a verdade em todos os seus detalhes”, contou por telefone. “E, no entanto, cada vez mais os filmes históricos alteram os fatos e as personagens”, afirma, incomodado. No entanto, Poppe tomou várias decisões artísticas que vão contra a corrente e ganharam aplausos de críticos desde que seu filme estreou na Berlinale em 2018: “Decidi não fazer um documentário porque esses filmes retratam uma, duas ou três histórias. Em vez disso, uma história ficcionalizada é mais geral, vai mais longe e, às vezes, é até mais precisa. Às vezes a ficção pode ser mais veraz que um documentário”.

“Mas a sensação de verdade que emana das imagens de um documentário é incomparável”, diz Miller, que na segunda-feira apresentou seu mais recente documentário em Madri. “Eu defendo a autenticidade em primeiro lugar.”

O cineasta teve acesso a este material por uma coincidência. Com o apoio da CNN Films, Miller começou a preparar um documentário sobre a viagem que comemora agora o seu 50º aniversário. Pediu documentos aos Arquivos Nacionais dos EUA e ali encontrou “11.000 horas de imagens, e muito mais áudios e, acima de tudo, rolos de filme da missão nunca vistos, em 65 milímetros”, um formato panorâmica e espetacular. “A loucura foi sincronizar imagem e som, e como não consegui tive de deixar de fora uma das minhas imagens favoritas, das jovens matemáticas que faziam os cálculos na NASA e que alguns técnicos contradizem erroneamente.”

Tanto Poppe como Miller enfrentaram vários dilemas éticos: “Nunca teria feito o filme sem o apoio das vítimas”, diz o norueguês. “Por isso, nenhum personagem tem um nome real. Entrevistei vários sobreviventes e parentes dos assassinados e, posteriormente, lhes mostrei o filme. Não rodei na ilha de Utoya, mas em outra que fica a 200 metros, por razões éticas –os sobreviventes que nos ajudaram nos ensaios não queriam pisar nela– e práticas: a paisagem mudou muito nesses oito anos.”

Já o norte-americano pulou mandamentos que estabeleceu no início do processo –”Não trair a Apollo 11″– e usou material de outras missões Apollo para exibir as melhores imagens “que ilustram momentos-chave”. Mas retirou os conteúdos mais íntimos: conversas com as mulheres, problemas de higiene … “Eu queria focar no desafio que essa missão representava”, explica.

Nesta onda de paixão audiovisual pelo “baseado em eventos reais”, tanto Poppe como Miller viram o lançamento de filmes sobre os mesmos acontecimentos que eles relatam. Sobre o atentado de 22 de julho de 2011, cometido pelo extremista de direita Anders Behring Breivik, que depois de colocar um carro-bomba em Oslo atirou por 45 minutos contra adolescentes do acampamento de Utoya, até que a polícia chegou e ele se rendeu –assassinou 77 pessoas no total–, o britânico Paul Greengrass estreou na Netflix o documentário 22 de Julho, no qual Breivik tem maior peso.

“Eu queria contar a história das vítimas, seu medo e sua dor”, diz Poppe. E acrescenta: “Quase todos os filmes e séries sobre crimes se concentram em quem os perpetram, e não naqueles que os sofrem. Temos que recuperar nossa capacidade de ter empatia pelas vítimas. E ainda mais em um momento em que os movimentos ultradireitistas estão crescendo”. Miller se entristece com a visão de Neil Armstrong em O Primeiro Homem, de Damien Chazelle. “Nós dois somos de Ohio, eu o sinto próximo, e é verdade que era pouco expressivo, mas nos esquecemos como liderou a missão, como sempre agradeceu a todos os seus esforços com um eterno sorriso”, diz o cineasta.

Para Poppe, no final das contas, o formato não importa, mas a emoção que o audiovisual passa: “Os artigos e livros escritos sobre o atentado não são capazes de mostrar o que realmente aconteceu. Aí está o poder do cinema, das imagens e sua importância”.

O fracasso de uma geração, o impulso da seguinte
A humanidade avançou com cada progresso científico e tecnológico. E todo o programa Apollo deveria ter sido mais um passo nessa corrida, desde que o presidente John Kennedy anunciou que os Estados Unidos assumiam o desafio. No entanto, quando a Apollo 17 retornou à Terra, o programa foi encerrado. Ninguém voltou à Lua. Aquelas expedições se tornaram realidade como a escalada de uma montanha: você sobe, olha o cume e… volta. A exploração espacial tripulada não foi mais longe. “Entendo seu ponto de vista”, diz Todd Douglas Miller, “e talvez até recentemente esse foi o ponto de vista correto. Mas temos que olhar em perspectiva. Hoje se multiplicaram as iniciativas privadas e o impulso tecnológico relacionado com a vida espacial. Muitos governos e empresas estão envolvidos em uma exploração que quer chegar mais longe do que a Lua. Sou muito otimista.”

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