Quem é o ex-missionário evangélico indicado para chefiar o órgão de proteção a índios isolados da Funai

Publicado na BBC

Um teólogo e antropólogo que trabalhou como missionário evangélico na Amazônia por uma década foi indicado para assumir a chefia do órgão da Funai (Fundação Nacional do Índio) responsável pela proteção a indígenas isolados.

Ricardo Lopes Dias atuou entre 1997 e 2007 na Missão Novas Tribos do Brasil (MNTB), organização com origem nos EUA que promove a evangelização de indígenas brasileiros desde os anos 1950.

A organização, que elogiou a indicação de Dias ao cargo, tem um histórico controverso e já foi associada a epidemias que dizimaram o povo zo’é, contatado por missionários do grupo em 1982.

Um pesquisador, um indígena e um servidor da Funai que lidam com indígenas isolados criticaram a possível nomeação e disseram temer a exposição das comunidades à evangelização.

Antropólogo e missionário
Em conversa por telefone, Dias confirmou à BBC News Brasil ter sido indicado à chefia da Coordenação Geral de Índios Isolados e de Recente Contato (CGIIRC) da Funai. Ele diz que quer assumir o posto e que aguarda uma decisão da presidência do órgão.

Dias afirma que foi indicado por sua experiência como antropólogo, e não pelo histórico como missionário.

“Nunca escondi e não escondo meu trabalho no passado como missionário, mas hoje sou antropólogo, com mestrado e doutorado em universidades públicas de três Estados”, diz.

Ele afirma que não tem mais vínculos com a Missão Novas Tribos do Brasil.

Segundo seu currículo na Plataforma Lattes, Dias é doutor em Ciências Humanas e Sociais pela Universidade Federal do ABC (UFABC), mestre em Ciências Sociais (Antropologia) pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e bacharel em Antropologia pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam).

Ele também é bacharel em Teologia pela Faculdade Teológica Sul Americana (FTSA) e fez pós-graduação em Antropologia Intercultural pela UniEvangélica, em Anápolis (GO), grande polo de entidades missionárias no Brasil.

Questionado sobre o que pretende fazer caso assuma de fato o cargo, Dias afirmou que preferia não dar detalhes para não atrapalhar os trâmites da nomeação. Ele não disse quem o indicou para o posto.

Para Dias, “a Funai vem sendo muito atacada” e “há uma forte resistência a evangélicos” entre os servidores do órgão.

Servidores da Funai que não quiseram ser identificados disseram à BBC News Brasil que o processo de nomeação de Dias já cumpriu quase todos os trâmites, faltando apenas a oficialização. Em nota, a fundação afirmou que não comentaria “supostas indicações e não confirma que Ricardo Lopes Dias ocupará o cargo”.

‘Ele é perfeito’
Presidente da Missão Novas Tribos do Brasil, Edward Gomes Luz elogiou a indicação de Dias ao órgão da Funai responsável por indígenas isolados.

“É uma pessoa muito capaz e tecnicamente preparada para qualquer cargo. Se for olhar a capacitação e a pessoa em si, ele é perfeito”, ele diz à BBC News Brasil.

Luz diz que Dias deixou a organização missionária por “problemas familiares” e que, desde então, passou a ter “contatos esporádicos” com ele.

“Depois que saiu, ele se especializou muito”, afirma, elogiando a trajetória acadêmica do ex-colega.

Missionário x antropólogo
Em sua dissertação de mestrado, apresentada em 2015, Dias agradece à “Missão Novas Tribos do Brasil por ter sido tão importante na minha formação e por ter viabilizado o meu tempo no campo”.

No trabalho, ele diz que o objetivo da MNTB “é a plantação de uma igreja nativa autóctone em cada etnia e para isso dispõe de treinamento bíblico, linguístico e transcultural próprio, além de uma consultoria técnica para assessoria estratégica e de acompanhamento espiritual por meio de visitas regulares da liderança aos missionários nos campos”.

A dissertação tem como tema a relação entre missionárias americanas do Summer Institute of Lingustics (SIL) e o povo indígena matsés, do Vale do Javari (AM), região conhecida por ter a maior concentração de povos isolados no mundo.

No texto, Dias descreve como indígenas matsés que lidavam com a missionária Harriet Fields passaram a acreditar que ela tivesse poderes sobrenaturais. Dias afirma que antropólogos e missionários têm interpretações distintas do episódio, o que, segundo ele, expõe uma “certa tensão” entre os dois grupos.

Ele lista então episódios em que antropólogos se chocaram com missionários e diz que essa tensão também “comigo ocorre internamente todos os dias, mas pode ser mais fácil de contornar: afinal conheço o missionário em mim de modo íntimo”.

Em 2007, o periódico Informissões, da Igreja Batista Fundamentalista, citou o trabalho missionário de Dias — apresentado pela publicação como “pastor” — entre indígenas do povo Mayoruna em Palmeiras do Javari (AM).

Segundo o texto, estudava-se a possibilidade de que Dias e sua família fossem transferidos para o município de Atalaia do Norte (AM) “para alcançar os índios matís e korubos que vivem nas proximidades”.

Proteção a povos isolados
A Coordenação Geral de Índios Isolados e de Recente Contato da Funai tem como principal atribuição proteger esses povos.

Segundo a Funai, há 107 registros da presença de povos em isolamento voluntário na Amazônia brasileira, o que torna o Brasil o país com mais povos nessa condição no mundo.

Os povos de recente contato, por sua vez, habitam 19 terras indígenas do país — é o caso dos zo’é, awá guajá, suruwahá e yanomami, entre outros.

Desde 1987, a Funai mudou sua política para povos isolados e determinou que iniciativas de contato com os grupos deveriam partir deles próprios, cabendo ao Estado proteger e demarcar suas terras.

Agora, indígenas e servidores da Funai dizem que o governo sinaliza a intenção de reverter essa política e voltar a contatar deliberadamente os grupos — postura que provocou o extermínio de dezenas de etnias ao longo da história brasileira.

Consequências do trabalho missionário
Para Beto Morubo, liderança da Unijava (União dos Povos Indígenas do Vale do Javari), a indicação de Dias é “nefasta”.

“A mensagem é que o que menos importa é proteger o índio, mas sim beneficiar setores retrógrados do agronegócio e também da parte evangélica”, ele diz à BBC News Brasil.

“Isso era o grande sonho dos evangélicos: levar a palavra de Deus para índios que preferiram se manter isolados”, diz Morubo.

Missionária com o rosto pintado simula ser uma indígena do povo Yanomami em treinamento promovido pela organização New Tribes Mission na Pensilvânia, nos EUA

Ele afirma que nunca encontrou Dias pessoalmente, mas que ele é conhecido no Vale do Javari por ter feito trabalho missionário em um pelotão do Exército em Palmeiras do Javari. O pelotão, segundo Marubo, é frequentado por indígenas do povo mayoruna que deixaram as aldeias do grupo e hoje são evangélicos.

Segundo Marubo, missionários levaram doenças e desorganizaram vários grupos com que tiveram contato — caso de sua própria etnia.

“Entre nós, marubos, eles destruíram nossa organização social, nossa convivência. Surgiram divergências, além de desconstruírem o mundo em que fomos educados por milênios”, diz.

“A atuação missionária significará a perda total dos últimos povos isolados que temos no Vale do Javari.”

Política modelo
Para Antenor Vaz, ex-servidor da Funai que já chefiou a Frente de Proteção Etnoambiental da Funai no Vale do Javari e é um dos maiores especialistas em povos isolados no mundo, a eventual nomeação de Dias poria em xeque uma política que se tornou referência internacional.

Ele afirma que o Brasil foi o primeiro país do mundo a “respeitar a determinação desses povos em permanecer isolados e não estimular nenhuma ação que leve ao contato” — postura que acabou adotada por outros países latino-americanos.

Vaz diz que, ainda que Dias tenha estudado Antropologia, “um missionário nunca deixa de ser missionário”.

“Eles têm a estratégia de chegar aos indígenas oferecendo ações sociais em educação e saúde. Por trás disso, vem a proposta evangelizadora.”

Segundo Vaz, quando se instalam entre indígenas, missionários “dividem comunidades e iniciam um processo de cooptação”.

“Eles passam a negar todos os valores contrários aos do cristianismo, e isso estabelece um racha cultural interno.”

A atuação da Missão Novas Tribos do Brasil junto ao povo zo’é, do Pará, foi determinante para que a Funai mudasse sua política em relação a indígenas isolados.

No livro Memórias Sertanistas: Cem Anos de Indigenismo no Brasil, do jornalista Felipe Milanez, o ex-servidor da Funai Fiorello Parise relata que missionários do grupo contataram os zo’é à revelia da Funai, provocando surtos de gripe e malária que causaram muitas mortes entre os indígenas.

Em 1991, os missionários da MNTB foram expulsos do território. A MNTB diz que as doenças chegaram ao território por outros meios e que sua atuação ajudou a salvar vidas.

Evangélicos na Funai
Desde o governo Michel Temer, a bancada evangélica no Congresso tem se esforçado para ampliar sua influência na Funai.

Um pastor evangélico indicado pelo Partido Social Cristão (PSC) chegou a ocupar a presidência do órgão por quase um semestre em 2017, até ser substituido pelo general da reserva do Exército Franklinberg Freitas.

No governo Jair Bolsonaro, em meio a uma disputa entre militares e ruralistas pelo comando da fundação, que acabou vencida pelos últimos, Franklinberg foi substituído pelo ex-delegado da Polícia Federal Marcelo Augusto Xavier da Silva.

Xavier é próximo do pecuarista Luiz Antônio Nabhan Garcia, atual secretário de Política Fundiária do Ministério da Agricultura (Mapa).

O órgão, porém, segue na zona de influência evangélica — ala que, no governo Bolsonaro, tem como principal representante a ministra da Família, da Mulher e dos Direitos Humanos, Damares Alves.

Damares queria que a Funai ficasse em sua alçada e chegou a ser atendida por Bolsonaro, mas a medida foi revertida pelo Congresso, que devolveu o órgão ao Ministério da Justiça.

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