“Não é cabelo de crente”: estética negra e pertencimento cristão

Por Adriano Portela

Faz algum tempo em que a estética negra vem sendo posta em evidência, sobretudo através do “empoderamento crespo”, movimento/atitude referente à valorização do cabelo das pessoas afrodescendentes. Essa valorização passa pela mudança linguística da qualificação do capelo afrodescendente de “duro/ruim” para “crespo”, evidenciando tratar-se de um tipo específico de cabelo e não considerando-o à luz do tipo capilar branco. A afirmação da peculiaridade capilar afrodescendente trouxe à tona a denúncia da ausência de produtos específicos para os mesmos na indústria de cosméticos.

Uma vez identificada essa realidade, homens e mulheres afrodescendentes passaram a “assumir” seus cabelos crespos, abandonando produtos e tratamentos destinados às pessoas brancas e desenvolvendo tratamentos e produtos específicos à sua própria estética. Daí que tenhamos desde alguns anos a “Marcha do Empoderamento Crespo”, que ocasiona uma revolução visual e um indescritível impacto estético.

II Marcha do Empoderamento Crespo (Salvador, 2016)

Na contramão dessa atitude, estão as instituições, que insistem em eleger como padrão a estética branca, despojando de qualquer valor a estética negra. Entre as instituições, estão as igrejas cristãs.

Em novembro de 2019, houve certa circulação da notícia de que um pastor da Igreja Assembleia de Deus de Jacobina (BA) negou o batismo a uma jovem negra de 15 anos por esta assumir seus cabelos crespos. Nas palavras do pastor, “Cabelo crespo não é de crente”. A jovem e mais doze outras jovens de cabelos crespos compareceram juntas ao culto, em outro dia, mantendo em silêncio no fundo do templo, como forma de protesto. O pastor voltou atrás na atitude, mas não pediu desculpas à jovem e condicionou o batismo à mudança do cabelo. A jovem, por fim, decidiu por sair da igreja e não ser batizada. Nas palavras dela: “Saí porque não dá mais para mim. Não foi o primeiro caso de racismo comigo. Neste ano, ele disse que meu cabelo não era compatível com o evangelho durante a oficialização de um grupo de coreografia”¹.

Protesto na Assembleia de Deus de Jacobina/BA

Relatos como este não são tão raros como imaginamos. Recentemente, recebi em minha comunidade um ex-presbítero da própria Assembleia de Deus, o qual me disse ter sido excluído discretamente de suas funções após começar a assumir a estética afrodescendente (hoje ele usa dread). Mas isso não se passa apenas nas igrejas evangélicas. Não vai longe o meu tempo de seminário. Naquele período, meus primeiros momentos na instituição, ouvi um professor, que houvera sido reitor anteriormente, falar sua atitude com um seminarista que tinha os cabelos grandes. Ele havia ordenado ao seminarista cortar os cabelos e encontrou resistência por parte do jovem. Então ele nos contou que disse ao jovem: “Se você tem mais amor ao seu cabelo que a sua vocação, então deixe-o como está, mas você não ficará no seminário”. Ali estava dito para nós, desde nossos primeiros tempos de formação, que o seminário não tem espaço para uma estética distinta da tradicionalmente perpetuada no clero católico romano.

Ser cristão seria incompatível com a estética negra? A pergunta é absurda por demais, no entanto, cabe fazê-la, dados os relatos compartilhados acima. É óbvio que a resposta à pergunta é uma negativa: não é incompatível estética negra e pertencimento cristão. Por isso, necessitamos aqui retomar quais elementos são fundamentais ao pertencimento à fé cristã.

No início do ser cristão está o encontro com a pessoa de Cristo. Se nós formos observar os encontros das pessoas com Jesus no Evangelho, perceberemos que Ele chama para que as pessoas convivam com Ele (“Vinde e vede”), que Ele pede para que deixem um ofício para acompanhá-lo (“Vinde após mim e vos farei pescadores de homens”), mas não percebemos Ele pedir para ninguém abandonar sua identidade. No encontro com a a mulher samaritana (Jo 4), por exemplo, Ele não pediu à mulher que abandonasse sua cultura. Jesus poderia pedir isso, enquanto judeu, mas não o fez. Isso não era fundamental. Não há nada no Evangelho de Jesus que justifique interdições baseadas em questões étnico-raciais, como as que compartilhamos anteriormente.

Por que, então, deparamo-nos com os tristes fatos aqui relatados? Adotamos critérios não-evangélicos, baseados na cultura da supremacia racial, onde apenas o que é “branco” tem valor, inclusive a forma “branca” de se relacionar com Deus. Talvez se não tivéssemos recebido o Jesus branco de olhos claros tão pacificamente, se soubéssemos que ele não era tão caucasiano, não sofrêssemos com o peso de uma cultura que não nos respeita.

Jesus Rastafari

Pois então, que desconfortem-se com a subversão de um Cristo rastafari, porque já sofremos com as consequências de um Cristo caucasiano. A bem da verdade, o Cristo da história, pediu os corações; não uma estética. Quem sabe o dia que aprendermos isso, a polícia já não bata gratuitamente em nossos meninos e meninas de cabelos crespos e cacheados?²

1 https://revistamarieclaire.globo.com/Noticias/noticia/2019/12/pastor-se-recusa-batizar-adolescente-cabelo-crespo-nao-e-de-crente.html

2 https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2020/02/policial-agride-jovem-na-ba-voce-e-ladrao-olha-essa-desgraca-de-cabelo.shtml

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