Carnaval: de profano a profeta frente aos abusos do poder terreno

Por Magali Cunha, na Carta Capital

Identificado no senso comum como festa profana, festa da carne, o Carnaval tem história de muitos séculos e nasceu como festa cristã, na Idade Média. Era uma forma de controle da Igreja no Ocidente, a Católica-Romana, sobre as festas populares que vinham da antiguidade, da cultura greco-romana, que duravam vários dias, com comidas, bebidas e danças.

Quem nos conta esta história de forma brilhante é o filósofo russo Mikhail Bakhtin, no livro “A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais”. O Carnaval que nasce na Europa medieval foi uma forma de a Igreja controlar estas festas tão populares, vistas por ela com maus olhos por representarem uma entrega aos prazeres mundanos e uma inversão dos papéis sociais da ordem estabelecida (senhores que viravam escravos e vice-versa; demônios que se tornavam deuses e vice-versa; bobos e prisioneiros que viravam rei quando este era humilhado, castos que se entregavam à sensualidade).

A tentativa de dar um sentido cristão a estas festas gerou, nos meados da Idade Média, o estabelecimento do Carnaval (carnis levale, ou, “retirar a carne”), como um período em que as pessoas poderiam cometer todos estes “excessos”. Diretamente relacionada foi a criação da Quaresma, um período de 40 dias antes da Páscoa, logo depois do Carnaval, caracterizado pelo arrependimento dos excessos cometidos e pelo jejum (purificação).

Mikhail Bakhtin concluiu que, no Carnaval, o poder é deposto pelo riso e o deboche, afinal, neste tempo, o povo ganha a vez e a voz que lhe são negadas durante o ano e satiriza as autoridades (seculares e religiosas). Eram os dias em que “a ordem oficial” das coisas e dos papéis era suspensa e o “pecado” liberado. Para Bakhtin, o Carnaval só ganhava sentido por ser uma potência máxima diante da repressão máxima: nos regimes políticos e sociais não-autoritários, a força do Carnaval como expressão popular autêntica e libertadora não se torna possível.

A colonização portuguesa introduziu o Carnaval europeu no Brasil. De festa popular, marcada por conflitos de classe, o Carnaval se constituiu no Brasil como fonte de negócios e turismo, mas nunca perdeu as características que estão no seu DNA, desde a Idade Média na Europa: a transgressão crítica com sátira à ordem vigente. E isto se intensifica, como alertava Bakhtin, em contextos de maior repressão e autoritarismo.

É o caso do Brasil 2020, um contexto marcado por um poder executivo de inspiração de extrema-direita, repressor de oposições e críticas, defensor do justiçamento e da eliminação de indesejados sociais, promotor de justiça seletiva, garantidor de privilégios e da manutenção de desigualdades, estimulador de intolerância e segregação, demolidor de direitos sociais conquistados a duras penas ao longo de décadas na saúde e na educação públicas, na previdência social, na justiça de gênero, na garantia de terra a trabalhadores rurais e indígenas, no enfrentamento da pobreza e no trabalho digno, no cuidado com o meio ambiente.

O Brasil 2020 já é uma lista imensa de abusos de poder contra a população. E isto se reflete neste Carnaval. Só no Rio, pelo menos sete das 13 Escolas de Samba do Grupo Especial apresentam composições críticas a governantes e ao sistema que rege o país.

Na Mangueira, o samba “A verdade vos fará livre”, traz um tema 100% cristão e toca numa das grandes feridas do momento: “Favela, pega a visão / Não tem futuro sem partilha / Nem Messias de arma na mão”. Jesus é o tema central, que condena a hipocrisia de líderes religiosos e preconceitos.

Já a Portela cantará “Guajupiá, terra sem males”, que retrata a história dos índios que habitavam o Rio antes da chegada dos portugueses: “Índio pede paz mas é de guerra / Nossa aldeia é sem partido ou facção / Não tem bispo, nem se curva a capitão”.

Na São Clemente, o enredo “O conto do Vigário” apresenta várias referências a temas políticos presentes: “Tem laranja! (…) Tem marajá puxando férias em Bangu (…) Brasil, compartilhou, viralizou, nem viu! / E o país inteiro assim sambou / Caiu na fake news!”.

A Unidos da Tijuca denuncia o desrespeito ao meio ambiente com o enredo “Onde moram os sonhos”: “Lágrima desce o morro / Serra que corta a mata / Mata, a pureza no olhar / O rio pede socorro / É terra que o homem maltrata / E meu clamor abraça o Redentor (…) Dignidade não é luxo, nem favor”.

A Grande Rio critica a intolerância religiosa com a homenagem ao pai de santo baiano, negro e homossexual Joãozinho da Gomeia no enredo “Tata Londirá: O canto do caboclo no quilombo de Caxias”: “Salve o candomblé, Eparrei Oyá / Grande Rio é Tatalondirá / Pelo amor de Deus, pelo amor que há na fé / Eu respeito seu amém/ Você respeita o meu axé / (respeita o meu axé)”.

A União da Ilha do Governador, com o enredo “Nas encruzilhadas da vida, entre becos, ruas e vielas, a sorte está lançada: Salve-se quem puder!”, toca em feridas da sociedade: “Eu sei o seu discurso oportunista / É a ganância, hipocrisia / O seu abraço é minha dor, seu doutor / Eu sei que todo mal que vem do homem / Traz a miséria e causa fome / Será justiça de quem esperou / O morro vem pro asfalto e dessa vez / Esquece a tristeza agora… / É hoje, o dia da comunidade / Um novo amanhã, num canto de liberdade”.

A Estácio de Sá, com o enredo “Pedra”, critica a destruição gerada pela exploração mineral: “Devastando a natureza no Pará dos carajás / Da lua, de Jorge, eu vejo o Planeta Azul chorar” (…) O poder que emana do alto da pedreira / Tem alma justiceira tem garra de leão / Senhor não deixa um filho seu sozinho / Tirando pedras do meu caminho”.

Os blocos de Carnaval seguirão na mesma linha com temas e marchinhas que alfinetam autoridades, suas práticas e ações. Um exemplo é a criação do bloco de Belo Horizonte “Quem deu, deu. Quem não deu, não Damares”, em crítica à campanha em prol da abstinência sexual para adolescentes, proposta pela ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves.

Muitos cristãos criticam o Carnaval, especialmente no tocantes aos “excessos”, como na Idade Média. Este ano, há uma crítica particular à Escola de Samba Mangueira por levar Jesus para a avenida. Como falar de Jesus se não é uma igreja? Como colocar Jesus no meio de gente seminua e bêbada?

Vale recordar uma passagem do Evangelho em que Jesus é abordado por seus discípulos, que denunciam: “Mestre, vimos um homem libertando pessoas de demônios em teu nome e procuramos impedi-lo pois não era um dos nossos”. A resposta de Jesus é objetiva: “Não o impeçam. Ninguém que faça um milagre em meu nome, pode falar mal de mim logo em seguida, pois quem não é contra nós é por nós” (Marcos 9.38-40).

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