Precisamos de imunidade de rebanho contra a estupidez religiosa

Por Diogo Schelp, no UOL

As mulheres brasileiras que se submeteram a abortos legais são, em sua maioria, jovens, solteiras e católicas, segundo estudo publicado em 2016. Estupro, em 94% dos casos, foi o motivo para a decisão delas de interromper a gravidez.

Jovens solteiras católicas que engravidarem após serem violentadas, porém, não escapam de serem consideradas culpadas por “crime hediondo” pelo presidente da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), o arcebispo dom Walmor, que fez esse comentário no Facebook ao se referir ao caso da menina de 10 anos, do Espírito Santo, que passou por procedimento médico esta semana para interromper a gravidez de 5 meses, fruto de estupro sistemático de seu tio.

Dom Walmor equiparou o crime de estupro sofrido pela criança durante quatro anos (desde que ela tinha 6 anos!) ao aborto legal (“dois crimes hediondos”, disse ele).

Busca da empatia

Ninguém deveria ficar feliz ou satisfeito com a interrupção do desenvolvimento de um feto no útero de uma mulher, mas essa é uma daquelas situações em que não se pode fazer um julgamento moral (o legal já foi feito, em favor da menina e de sua família) sem procurar entender o que essa decisão significa para as verdadeiras vítimas.

Eu, como homem, jamais poderei saber o que é gerar uma criança fruto de uma violência sexual. Dom Walmor, é claro, também não. Mas podemos exercer a empatia, nos colocar no lugar dessas mulheres e tentar entender.

Esse exercício de empatia, para mim, talvez seja mais fácil do que para dom Walmor. Olho para minha filha, a poucos meses de completar a idade da menina do Espírito Santo, e consigo entender.

Trabalhos realizados em hospital de referência em São Paulo, e revisados em artigo disponível neste link, mostram que 88,4% das mulheres que realizaram aborto legal após estupro o fizeram por repúdio à gravidez e 86% pelo vínculo da gestação com a violência sexual. Violação do direito de maternidade foi a motivação para 76,7% das entrevistadas. O temor pelos danos sociais e psicológicos no futuro da criança foi mencionado em menor proporção, por 44,2% das mulheres.

O que eu apreendo desses números é que quem culpa a vítima de estupro pela decisão do aborto não entende ou não quer entender que a gestação, o parto e o filho indesejado são uma continuação do estupro. O aborto é a tragédia final que começou com a violação sexual. Ele não apaga o que aconteceu, mas impede sua continuidade.

A Bíblia em seu contexto

Quando vejo as pessoas buscando justificativas religiosas diante de dilemas éticos como esse, penso no que meu bisavô diria. O reverendo Paul W. Schelp ajudou a traduzir a Bíblia que marcou a formação religiosa da geração de dom Walmor e de cristãos brasileiros de todas as denominações.

Certamente dom Walmor e os cristãos de meia-tigela que expuseram publicamente a menina violentada e tentaram invadir o hospital onde ela foi operada leram, ou tiveram em suas mãos em algum momento de suas vidas, a Bíblia de João Ferreira de Almeida, Versão Revista e Atualizada, publicada em 1959, ou o Novo Testamento na Linguagem de Hoje, lançado nos anos 70.

Paul Schelp, pastor luterano, trabalhou na tradução de ambas. Como “especialista em grego e hebraico, era responsável pela fidelidade da revisão” às escrituras originais, como explica Luiz Antônio Giraldi no livro História da Bíblia no Brasil, publicado pela Sociedade Bíblica do Brasil.

Não conheci meu bisavô e não sei o que ele pensava sobre o aborto, mas sei, por ter lido as correspondências que trocava com outros teólogos, que para ele a interpretação da Bíblia deveria ser colocada em contexto. O contexto do tempo em que foi escrita e o contexto do tempo em que ela é lida, da sociedade em que vivemos.

Sei também, pelos relatos escritos que ele deixou sobre o Brasil de meados do século passado, que ele tolerava opiniões divergentes, que observava a política com interesse crítico mas não fazia proselitismo religioso com ela e que a fé devia dar conforto espiritual. O oposto de tudo o que estamos vendo os defensores da Bíblia fazerem esta semana.

Perguntei a meu pai, que teve um vínculo muito próximo com seu avô, e ele se arrisca a dizer que o reverendo Schelp diria que a interrupção da gravidez é um problema, mas não o mais grave em um contexto como o que está sendo discutido por causa do episódio da menina estuprada. E que essa é uma situação muito triste que deveria ser evitada desde o princípio — neste e em todos os outros casos semelhantes.

Uso político

O que o Brasil está vivendo é o uso político da estupidez religiosa e do obscurantismo. Não apenas no episódio da menina do Espírito Santo. Também na maneira como uma parte da sociedade, a reboque do governo Jair Bolsonaro, está lidando com a pandemia do novo coronavírus.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) diz que não é possível contar com a imunidade de rebanho — esperar que boa parte da população entre em contato com o vírus e torne-se imune para que finalmente o contágio e as mortes diminuam —para superar a pandemia.

Mas podemos importar o conceito de imunidade de rebanho para a estupidez religiosa: que a proporção daqueles que não se contaminam por ela seja suficientemente grande para preservar nosso país da intolerância, do caos e das trevas.

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