Crise e pandemia corroem influência de igrejas e aprovação de Bolsonaro

Publicado na Rede Brasil

A parcela de evangélicos no Brasil, estimada entre 25% e 30% da população, é considerada a principal base de apoio ao presidente Jair Bolsonaro. Os dados são expostos por pesquisas. A mais recente do Instituto Datafolha, divulgada na semana passada, revela, entre outras, que 46% dos evangélicos não temem ser infectados pelo coronavírus (entre católicos, o percentual é de 32%). A ideia de que “Deus é por nós” embasa essa postura. Uma consulta em postagens nas redes sociais mostra que, em resumo, a população descrente das vacinas acredita que ter medo da covid-19 é sinal de pouca fé.

O Datafolha mostra também que metade dos brasileiros (50%) é contra o impeachment. Esse grupo é formado principalmente por cidadãos da região Sul (59%), empresários (81%) e evangélicos (59%). Perguntados sobre que tipo de estabelecimentos devem ser fechados para combater a transmissão do vírus, apenas 39% dos evangélicos foram a favor de que as igrejas entrem na proibição.

Para o sociólogo Cândido Grzybowski, do Ibase, as pesquisas de opinião mostram “uma fotografia” do atual momento. Por exemplo, pesquisa recente da revista Fórum constata o setor em que Bolsonaro encontra mais apoio é entre os evangélicos. Neste segmento, 38,4% afirmam que votariam no atual presidente, enquanto 27% dizem que votariam em Lula. Mas o fato de o fato de o eleitorado evangélico continuar majoritariamente sustentando seu “chefe” não quer dizer que esse momento vai se prolongar indefinidamente. “A pandemia e a crise estão espantando as pessoas. A situação que estamos vivendo não é sustentável. E o discurso das igrejas não tem mais a resposta que a sociedade precisa ter a isso nesse momento”, diz.

Realidade x poder do dízimo

Em resumo, para Grzybowski, se é enorme a tarefa de desconstruir o discurso capitalista que embasa o poder dessas igrejas, segundo o qual “vencem os que são capazes e Deus contribui”, a própria realidade pode desconstruir o poder do dízimo pelo qual se obtém a “salvação”. Porque as pessoas estão vivendo uma tragédia e, muitas delas, percebem que a salvação não está chegando.

As comunidades carentes são formadas por pessoas que não tomam posições políticas por si mesmas. Elas não gostam de dúvidas, não as entendem, e são impulsionadas pela palavra do bispo ou pastor. Por isso, é fundamental que haja bispos e pastores progressistas, que introduzem o questionamento em suas mentes.

Na opinião do sociólogo, a falta histórica de apoio às populações periféricas pelo Estado criou o espaço que foi ocupado por bispos, alçados a expressões políticas. No Congresso Nacional, por exemplo, hoje se vê isso claramente: o Legislativo é marcado menos por opções partidárias do que por fidelidades e caciquismo. O pastor ganhou tal credibilidade nas localidades, que elegem, às vezes facilmente, os de sua “confiança”, muitas vezes eles próprios. “Isso é a reprodução do velho coronelismo de base, agora na figura do pastor, que oferece o dízimo para você obter a salvação”, diz.

Além de tudo, as igrejas evangélicas possuem redes de televisão. Os “crentes” não creem nem mesmo na TV Globo. Fiéis de igrejas são incentivados a pagar “contribuições” e dízimos em drive-thrus.

Nesse quadro sombrio, existem ainda as milícias para “proteger” os cidadãos no lugar do Estado que os abandonou. “Mas eu não diria que está tudo perdido. Inclusive porque a pandemia e a crise começam a colocar os pingos nos ‘is’ e mostrar que a situação é mais complicada do que o discurso das igrejas mostram”, acredita Grzybowski. O auxílio emergencial no valor médio de menos da metade do que era pago no ano passado já repercute na imagem de Bolsonaro. A rejeição ao negacionismo do presidente na pandemia o leva à sua maior rejeição desde o início do governo, apontou o mesmo Datafolha da semana passada.

Crivella, caso exemplar

O caso mais exemplar, para Grzybowski, de que as igrejas já não influenciam tanto quanto se acredita se deu nas últimas eleições municipais no Rio. O ex-prefeito Marcelo Crivella teve apenas cerca de 35% dos votos válidos. São Paulo, com a derrocada de Celso Russomanno, é outro exemplo de que a onda bolsonarista está em queda e não é de hoje, embora mais lentamente do que todos os democratas do país gostariam.

“Não sabemos ainda onde esse processo vai dar. Mas as igrejas não estão conseguindo responder aos desafios colocados pela crise. A corrente de evangélicos que esteve em torno de Bolsonaro, baseada também nas milícias, não foi nada bem em 2020”, diz o sociólogo. Há também práticas contrárias ao poder dominante nas igrejas neopentecostais, que também enfrenta adversários internos, observa. “Existe um pensamento de esquerda mesmo entre essas igrejas. Há, sim, um movimento de resistência ali dentro” , diz.

Quando candidato, o agora presidente soube captar uma situação grave, em um contexto em que “se tentava desmoralizar e criminalizar sistematicamente a esquerda”. Bolsonaro conquistou os evangélicos porque “se apresentou numa conjuntura de Deus, pátria e família”. Mas, para o sociólogo, os setores esquerdistas também têm parcela de responsabilidade no crescimento do neopentecostalismo, ao abandonar as bases e periferias. A retomada paulatina desse espaço é parte da “tarefa árdua” dos setores progressistas.

Para ilustrar sua avaliação de que “não está tudo perdido”, Grzybowski cita pesquisa mundial do Instituto Ipsos. Realizada em 15 países de 25 a 28 de fevereiro passados, o estudo mostra os brasileiros como os que mais querem ser vacinados contra a covid-19. Ante a questão “se uma vacina para Covid-19 estiver disponível para mim, eu tomaria”, 76% dos brasileiros concordaram totalmente com a afirmação e 13% parcialmente. Leia a pesquisa aqui.

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