Os prós e contras de se dividir um apartamento

Publicado no Extra

A crise econômica e as dificuldades que ela impõe às famílias levaram muitos jovens adultos a sair da casa dos pais cada vez mais tarde. E não é para menos: o valor gasto com moradia costuma representar a maior despesa do orçamento. Para driblar essa dificuldade, muitos optam por dividir um apartamento e conquistar, assim, a tão sonhada independência.

Mas essa é uma decisão que deve ser bem pensada. A rotina do dia a dia exige a adoção de regras para uma convivência sem estresse. Além da divisão das contas, é preciso cuidar do imóvel, saber usar os espaços comuns e respeitar o outro, principalmente em relação a alimentos e visitas. O ideal para diminuir as chances de atrito é que cada um tenha seu próprio quarto.

— A convivência fica mais fácil quando há afinidade de interesses, pessoas que pensem da mesma forma quanto a organização e limpeza, visitas, pets e consumo de cigarro e bebida, por exemplo. A experiência pode se tornar um pesadelo se as pessoas pensarem ou agirem de maneira muito diferente — afirma Jean Carvalho, gerente de imóveis da Apsa.

A principal vantagem, segundo ele, é poder usufruir um imóvel mais espaçoso, com varanda e uma boa cozinha, sem pagar mais por isso. Dividir um apartamento de três quartos fica, tradicionalmente, mais barato do que morar sozinho em um quarto e sala.

Mas quem aluga o imóvel fica juridicamente responsável pelo pagamento das contas (aluguel, condomínio, IPTU, taxa de incêndio, luz, gás e internet) e deve certificar-se da capacidade financeira das pessoas com quem vai dividir as despesas. Caso contrário, a suposta economia proporcionada pela divisão pode ir por água abaixo.

— O ideal é que o contrato de locação seja feito em nome de todos que vão dividir o imóvel para evitar que um se mude e deixe as despesas nas costas do outro. Assumir um contrato sozinho é uma responsabilidade muito grande — avalia Carvalho.

Perfil do morador

Com base na experiência que seu trabalho lhe proporciona nesse quesito, a síndica profissional Patrícia Kömel informa que, em geral, quem busca apartamentos para dividir são jovens em início de carreira profissional, com idade média de 25 anos, do mesmo sexo ou não. Segundo ela, a maioria é formada por mulheres.

— Eles procuram priorizar a facilidade de locomoção para o trabalho. O mais comum são dois amigos ou amigas que buscam imóveis de dois quartos — diz.

Uma dica para evitar problemas é fazer planilhas, dividir responsabilidades e fazer o acerto no final do mês. Há casos também em que o aluguel é rateado em proporções diferentes, em função do tamanho dos quartos e do uso do ar-condicionado ou da garagem.

Para viver em harmonia é preciso também conhecer as regras do condomínio, ler a convenção, saber utilizar as áreas comuns e respeitar os horários de silêncio. Um morador considerado antissocial pode trazer problemas para os demais. Patrícia concorda que a convivência fica mais fácil quando o imóvel é alugado conjuntamente, e as regras, respeitadas.

— Nas áreas comuns do apartamento, as regras devem ser rígidas para evitar discórdia. Quem cozinha e quem limpa? O quarto de cada um pode ficar bagunçado, mas sala, cozinha e banheiro, não. A presença de animais de estimação e de namorados e namoradas é ponto sensível para quem divide espaços. Tudo tem que ser combinado com muita clareza para evitar desgaste e rompimento da parceria. A presença constante de uma pessoa que não faz parte do grupo pode tirar a liberdade de quem mora no imóvel e causar mal-estar.

Como ter uma boa convivência na prática

Jovens usam aplicativo no celular para controlar despesas e fazer acerto mensal

Após passar quase três anos morando sozinho e contando com a ajuda da mãe para pagar as contas do imóvel, o analista de planejamento financeiro Felipe Nunes Estrada, de 28 anos, divide desde 2019 um apartamento com dois amigos. Quando começaram a parceria, ele cursava a graduação, um dos amigos tinha acabado de se formar, e o outro fazia mestrado.
— Cada um tinha um motivo para querer se mudar, um achava o apartamento pequeno, e o outro dividia o quarto. Optamos por um apartamento com três quartos e sala e cozinha grandes. A vantagem é que já nos conhecíamos.

Com a chegada da pandemia, o convívio passou a ser mais constante, e as regras tiveram que ser aprimoradas. Por medo de contágio, eles desistiram de contratar uma faxineira e adotaram uma nova rotina para manter a casa limpa.

— A cada duas semanas, fazemos uma faxina geral. Cada um é responsável pelo seu quarto, e há um rodízio dos cômodos. Um arruma a cozinha, o outro lava o banheiro, e assim por diante. Cada um faz no seu tempo, não precisa ser no mesmo horário. Esse modelo tem funcionado, mas ainda não é o perfeito.

Os três dividem igualmente as despesas do imóvel e fazem individualmente as compras de supermercado. Na geladeira, há prateleiras definidas para o uso de cada um e para uso em comum, onde ficam os itens que compartilham. As compras de produtos de limpeza entram no rateio das despesas gerais.

Para facilitar o controle, eles utilizam um aplicativo no celular onde cada um vai informando o que gastou ao longo do mês. O próprio aplicativo calcula quem pagou mais ou menos, e o acerto é feito mês a mês.

Felipe Estrada diz que a vantagem da divisão do imóvel é financeira, e a desvantagem, a falta de privacidade. E, da sua experiência quando morou na Austrália, deixa uma dica:

— Se for dividir, tenha seu próprio quarto. Dividir o quarto implica outro nível de intimidade e de regras.

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